sexta-feira, 15 mai. 2026

Rui Borges quer enganar-se a si próprio?

O treinador do Sporting, após a eliminação na Champions, suscita uma boa reflexão: o futebol português está bom? Ele diz que sim, mas enferma de um problema global: a falta de MEN-TA-LI-DA-DE.

1.«O futebol português está bom, nós é que não o valorizamos» – afirmou o treinador Rui Borges, depois do empate em Londres com o Arsenal (0-0), tendo sido eliminado da Champions por causa do golo que Kai Harvertz marcou em Alvalade e que ditou a passagem dos ‘gunners’ às meias-finais da competição.

A declaração de Rui Borges surgiu na sequência, não apenas da muito boa prova realizada pela turma ‘leonina’ na Liga dos Campeões, durante a qual ganhou a um dos semifinalistas, o PSG, conseguiu fazer uma viragem brilhante de 0-3 em 5-0 perante um caso invulgar no contexto do futebol europeu, o Bodo Glimt, e, em 12 jogos, registou quatro derrotas, com a já citada equipa norueguesa mas também com o Arsenal, Bayern de Munique e o Nápoles.

A declaração de Rui Borges deve ser lida à luz daquilo que é realmente o futebol português e entronca, de alguma maneira, na comemoração dos 112 anos de história da Federação Portuguesa de Futebol, que retrata muito bem aquilo que se passa na modalidade em Portugal há muitos anos. Mas já lá vamos.

 

2.O que o Sporting fez, na Champions, foi bom, mas até poderia ter sido melhor e talvez até se tenha perdido uma grande oportunidade para o futebol luso meter mais uma equipa nas meias-finais na prova futebolística mais importante do globo terráqueo ( o que já não acontece, neste contexto de Liga dos Campeões/Taça dos Campeões Europeus, há 22 anos com o FC Porto e 36 com o Benfica) e - quem sabe ? – galvanizado com um hipotético sucesso agora em Londres, fazer uma grande eliminatória perante o At. Madrid e marcar presença na final da competição com maior ‘tração’ existente no Mundo.

Dirão muitos leitores: mas alguma vez é legítimo sonhar, nos tempos de hoje, com a presença de uma equipa portuguesa na final da Liga dos Campeões e mesmo ganhá-la?

 

3.Há uns anos atrás, já neste milénio, há um par de décadas, diria que não, seria sonhar demasiado alto e ser irrealista, mas o futebol mudou muito nos últimos anos, as mudanças constantes nas equipas e o aumento do número de jogos que esgotam os atletas faz com que, em cada Liga, as realidades já não assentem nas lógicas de antanho, há cada vez menos treino e mais competição, os jogadores, as equipas técnicas e as equipas médicas são cada vez mais confrontadas com questões relacionadas com a gestão dos calendários e a ‘forma’ (física, clínica e psicológica) dos jogadores, o mercado é cada vez mais perturbante, as cláusulas de rescisão valem o que valem, os empresários nunca tiveram e hoje ainda têm menos ‘respeito’ pelos projetos desportivos, influenciando-os ou podendo influenciá-los, há um crescimento do número de fatores aleatórios que transforma esta indústria em algo cada vez menos previsível e há uma outra realidade que aumenta a possibilidade de haver surpresas: a mudança do formato da Champions.

 

4.Eu bem sei que, esta época, o vencedor da Liga dos Campeões sairá de um quarteto de equipas muito bem cotado (Bayern, PSG, Arsenal e At. Madrid), portanto continuam a poder estar presentes na final representantes de algumas das Ligas europeias mais fortes (Inglaterra, Espanha e Alemanha), mas mesmo neste quadro de semifinalistas muitas equipas desses campeonatos considerados mais fortes foram relegadas por coletivos com menor história na prova como são o Arsenal em Inglaterra, o At. Madrid em Espanha e, claro, o PSG, em França. A exceção é o Bayern, na Alemanha, o representante demolidoramente dominante do futebol germânico.

 

5.Sublinhada esta diferença, que me parece importante, uma vez que Real Madrid, Barcelona, Manchester City (já para não falar do United que vive uma realidade nos antípodas do que já fez na história), Liverpool e as equipas italianas que estão a viver uma crise de assinalar, voltemos ao Sporting e à declaração de Rui Borges.

O Sporting fez uma muito boa Champions? Fez! Mas se olharmos ao que foram, concretamente, os jogos, podemos chegar à conclusão de que, nestes quartos-de-final, os ‘leões’ poderiam ter ido mais longe. E dir-me-ão, outra vez, na linha do raciocínio de Rui Borges: então, mas o Arsenal não é o líder da Premier League (mesmo em desaceleração), não é uma equipa superorganizada e com muito bons jogadores? Sim, sem dúvida. Mas os ‘papões’ estão a desaparecer.

 

6.O Sporting podia, de resto, ter saído de Nápoles com pontos, na primeira mão, em Alvalade, desta eliminatória com o Arsenal não teve a ‘estrelinha’ do seu lado, como teve, em contrapartida, frente ao PSG, também em Alvalade, mas a asserção de Rui Borges vai muito para além daquilo que foi a história de cada jogo; foca-se num aspeto essencial que é a falta de exigência que colocamos sobre nós próprios, não apenas no futebol, mas também no país e inclusive entre a classe política, e foca-se noutro aspeto que diminui muito o lado extraordinário de capacidade de resposta dos portugueses em geral naquilo que se relaciona com os seus talentos naturais e ao qual damos o nome de mentalidade. MEN-TA-LI-DA-DE!

 

7.Preto no branco: o caso do FC Porto é complexo, mas é um caso invulgar de MEN-TA-LI-DA-DE acima dos padrões médios do futebol em Portugal; o caso de progressão do Sporting assenta muito na evolução da sua organização global e o Benfica é um caso paradigmático do que dizemos aqui: é mesmo um caso emblemático de falta de mentalidade competitiva, e não tem apenas que ver com aquilo que se passa dentro das quatro linhas. É um problema transversal que começa numa ponta da organização e acaba sobre o relvado.

Não há falta de (algum) talento, não há falta de (alguns) quadros competentes; é uma questão de compromisso. Melhor: é uma questão de crença e compromisso.

Sem isso, nas sociedades e no futebol, nada feito, em termos de fazer prolongar um comportamento, neste caso da bola indígena, competitivo.

 

8.Voltando a Rui Borges: não, o nosso futebol não está bom. Nem bom nem bem. Aliás, se Rui Borges ouvisse o seu presidente chegaria à conclusão que ele é o próprio a considerar e reconhecer que o nosso futebol não está bem. Eu sei que Rui Borges quer resumir a sua análise ao trabalho dos treinadores e na relação que ele estabelece com os seus atletas (talvez o maior segredo da sua estada no Sporting), mas o futebol e a sua indústria são um todo, aliás, um dos erros dos ‘puristas’ da bola que se ‘recusam’ a falar da ‘zona negra ou cinzenta’ desta indústria, ou porque têm o ‘rabo preso’ ou porque não se estão para meter em ‘chatices’, só contribuem para que o lado que precisa de evoluir se mantenha na mesma há décadas, porque ninguém ou poucos têm a coragem de tocar nas feridas que dão cabo da reputação do nosso futebol.

A começar pelos (falsos) líderes da bola indígena e da incapacidade dos nosso políticos agirem de acordo com aquilo que os adeptos veem (também há alguns que não querem ver porque não lhes convém).

 

9.Valorizamos o que tem de ser valorizado. Mas independentemente do papel da crítica e de alguns observadores-não-fanáticos-e-não-deslumbrados (que há muito poucos), numa oferta quantitativa (não qualitativa) de comentariado que é outro caso de bradar aos céus, são os próprios agentes desportivos que citam – amplificando ou não – as zonas negras ou cinzentas do nosso futebol. E aqui já não regressamos às palavras de Rui Borges mas à questão fundamental da MEN-TA-LI-DA-DE. A mentalidade e verdade que começam a ser negligenciadas por quem as devia promover…

 

10.…E quem a devia promover? Aqueles que deveriam ser os líderes, desde logo o presidente da FPF, neste caso Pedro Proença, e o presidente da Liga, neste caso Reinaldo Teixeira. E o que fazem eles? Fazem de conta que agem, quase sempre através de iniciativas protocolares ou festivas (ai as galas!!!), não reagem perante situações que chocam com aquilo que está, inclusive, consignado nos estatutos da FPF (por exemplo, ponto 8 do artigo 2.º do seu objeto: «Prevenir as práticas que possam afetar a integridade dos jogos e/ou competições ou, de algum modo, prejudicar o futebol»; pontos 2 e 3 do artigo 3.º:  «A FPF defende os valores da ética, da lealdade, da verdade desportiva e do fairplay. 3. A violação dos princípios enunciados nos números anteriores por um Sócio Ordinário, bem como por qualquer agente desportivo integrado na FPF, constitui causa de suspensão ou expulsão».

Sem popular nas palavras: tudo um engano. Vivem todos no bem-bom, atraem ex-jogadores e ex-treinadores para darem a ideia de ação e de uma ‘família unida’, evitam agir porque há demasiados compromissos, demasiadas cumplicidades, demasiados compadres… e muitos problemas para resolver. E quem não alinha na ‘lógica do Titanic’ é estigmatizado ou olhado de soslaio, no meio de sorrisos hipócritas ou de ocasião.

Voltaremos ao assunto.