1.Acabou!
Acabaram os Mundiais para Cristiano Ronaldo e acabou o trajeto de Roberto Martínez como selecionador-treinador da equipa das quinas.
Ia dar Portugal? Não! Portugal não se deu.
Foi um fim sem glória. Sem acordo(s)!
Cristiano Ronaldo merecia mais. Roberto Martínez, não.
2.Merecíamos mais? Não. Portugal produziu apenas momentos de bom futebol, mas na generalidade foi uma equipa sem identidade, sem brilho, sem aquela vontade de meter tudo em cada jogo para demonstrar a sua decantada (mas inexistente) capacidade competitiva. Não se soube agarrar à coisas boas. Perdeu-se no negativismo e até na ‘equação Ronaldo’.
3.E isso é o que custa mais. Portugal pareceu uma equipa que, em campo, sobre o relvado, pareceu sempre em negociações. Uma equipa de negócios. Percebem o que quero dizer? Não foi uma coisa saudável, do tipo estamos todos aqui para suar por Portugal e pelo estatuto que muitos nos atribuíram (não apenas entre os portugueses) de pertencer ao lote de favoritos. Não vimos uma equipa disponível para ganhar o espaço e os duelos, não quero dizer que houve fuga às responsabilidades, mas foi tudo muito difícil, muito condicionado, como se um passe reclamado tivesse de ser aprovado por um concílio qualquer, por um acordo entre duros negociantes, como se um jogo de futebol não pudesse ser consagrado como um espaço de solidariedade e união.
4.Foi isto que mais me intrigou numa Seleção que pareceu sempre querer impor qualquer trauma: Portugal não teve espontaneidade, nem alegria, todos pareciam dever alguma coisa a alguém, ninguém pareceu feliz com coisa alguma e às vezes até a sensação de frete se instalou.
5.A Espanha é uma boa equipa, ninguém tem dúvidas disso, mas não foi um papão e chegou à vitória na parte final da partida através de uma desatenção fatal para Portugal.
Quando o golo da Espanha surgiu nos últimos instantes da partida de Dallas já Roberto Martínez tinha dado todos os sinais da sua fraqueza:
a) Apresentara um ‘onze’ mais conservador e em linha com o estilo de jogo espanhol, mais de posse, e por isso a entrada de João Félix para o lugar de Rafael Leão poderia conhecer algum fundamento estratégico, mas pelo lado errado, em função da ausência de risco;
b) Martínez talvez tivesse medo de partir o jogo (num estilo menos circular) por saber que não conseguiria controlar nem resolver um dos problemas graves evidenciados pela seleção nacional – o momento em que perdia a bola e precisava de a recuperar.
c) Isso só aconteceria se o treinador fosse proficiente nessa mensagem e se os jogadores revelassem essa vontade de não se sentirem realizados apenas com a bola no pé.
d) Ter a bola no pé também fez parte de um certo egocentrismo da equipa lusa, com cada jogador muito mais preocupado em mostrar as suas credencias e botões dourados do que propriamente em ‘sujar os calções’, cuja ação pareceu ser sempre uma ‘grande chatice’. Martínez nunca conseguiu resolver isso – e não foi apenas neste Mundial. Houve sempre convencimento e condicionantes a mais; às tantas tivemos uma seleção a tentar estabelecer entre as partes uma espécie de pacto de não agressão com demasiadas ‘cláusulas contratuais’ e ninguém foi capaz de resolver esse tema e isso sentiu-se muito em vários jogos de Portugal, quase todos.
6.Roberto Martínez já foi para este Mundial fragilizado, porque já ele sabia, os jogadores também, e igualmente todos nós que ele não era o treinador de Pedro Proença mas sim o de Fernando Gomes e só a vitória na Liga das Nações impediu a substituição do treinador espanhol, mesmo havendo a convicção de que ele, mesmo nesse ciclo vitorioso, já acusava não apenas esses sinais de fragilização mas também a incapacidade de resolver questões associadas à liderança. Proença não teve a coragem necessária para – a ganhar – proceder a uma mudança que já parecia necessária e, mesmo perante os sinais dados na estreia com o Congo, talvez tivesse faltado ao presidente da FPF o golpe de asa necessário para perceber que o insucesso seria uma questão de tempo.
7.Acabaram os Mundiais para Cristiano Ronaldo (talvez ainda não a sua presença na seleção nacional, provavelmente com Jorge Jesus na liderança) e isso também obriga a abertura de um novo ciclo na Seleção Nacional.
Um ciclo a partir do qual, logo no seu início, deve ficar muito bem claro pela FPF, Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo qual deve ser o papel do ‘capitão’ na equipa das quinas. Quando chegar o Europeu, Cristiano estará com 43 anos e, não obstante a forma impecável como trata de si e do seu corpo, a inexorabilidade dos tempos já não faz mais milagres. E, sim, não está em causa a sua utilidade, mas o estatuto de titular, a partir de agora, não pode ser mais nem uma exigência nem uma obrigação. Que isso fique bem claro, porque se trata de algo absolutamente normal se o assunto não for tratado com a complexidade que se trata a tentativa de se evitar uma Terceira Guerra Mundial.
8.Não vou repetir tudo aquilo que já disse e escrevi sobre a importância de Cristiano Ronaldo e das vicissitudes que marca(ra)m a sua presença na Seleção. Cheguei a escrever que se sentia uma sensação de boicote dentro do grupo e isso teve correspondência nalguns lances que fizeram correr muita tinta e muitas imagens nas redes sociais. Para o grupo em geral, e não é preciso ficar agarrado ao exemplo do futebol (noutras organizações passa-se o mesmo), não será fácil conviver com o facto de à chegada e à saída dos hotéis e dos espaços de treino e ainda à chegada e à saída dos jogos se amontoem centenas e milhares de pessoas (como aconteceu de forma particularmente incrível em Toronto, no Canadá) a gritar pelo nome de Cristiano e de mais ninguém. É difícil conviver com isso? Deve ser particularmente para um Bruno Fernandes, para um Vitinha, para um Bernardo Silva, que ainda agora saiu do Manchester City para o Real Madrid. Talvez o feitio de C. Ronaldo também não ajude no sentido em que ele fez muito para causar este impacto universal, em função do que foi produzindo, durante anos, nos relvados e ainda há pouco ironizava quando dizia, perguntando, que ‘não estou assim tão mal, pois não?!’ Messi, outro astro, é o centro das operações da Argentina, funciona como a sua alma e motivação, é atirado ao ar com júbilo e reconhecimento, e ninguém contesta a sua hegemonia no grupo. Talvez seja outro feitio, mas as dimensões mediáticas são totalmente distintas, e é preciso perceber isso.
9.Fazer de Cristiano Ronaldo um empecilho e tratá-lo como muitos portugueses o fizeram é de uma injustiça tremenda. Em Dallas, o privilégio de ver a ‘última dança’ de Cristiano, em Mundiais. E soube a pouco, para quem (como eu) desejava que este espaço fosse o de consagração de Portugal (e de uma geração de jogadores altamente cotada), mas também o de Cristiano Ronaldo.
Arranjar desculpas, agora?!!! Não, não não! Assumir que Portugal fez um ‘mau Mundial’ (sem identidade e sem treinador) e assumir as responsabilidades que são de todos. A começar pelo presidente da FPF (que não soube marcar “presença” quando devia), passando por muitos jogadores (excluindo neste último jogo Diogo Costa, Nuno Mendes e Renato Veiga), incluindo Ronaldo, e principalmente Roberto Martínez que fez pouco no sentido de aproveitar esta geração de jogadores. E convenhamos: tudo começou com a convocatória para este Mundial…
10.Uma última nota para dizer que andamos todos (adeptos, comunicação social, patrocinadores) a alimentar uma farsa alimentada pela FIFA, agora liderada (?) desavergonhadamente por Gianni Infantino. Desde a forma como se consentiu que a equipa do Irão fosse tratada (a competição desportiva sugere que os atletas sejam tratados de forma equitativa), passando pelo modo como o árbitro somali foi desconsiderado (sem que tivesse sido defendido sequer pelo setor da Arbitragem) e principalmente a intervenção de Donald Trump junto de Infantino para despenalizar Balogun (o jogador norte-americano que fora justamente expulso do jogo com a Bósnia, por causa de uma entrada grosseira e violenta), já para não falar de uma clara proteção a Messi e à Argentina num lance para cartão vermelho perdoado), tudo aconteceu para que ficasse provado que a FIFA e Infantino, mais do que proteger o que vai dentro da ‘bolha dos milhões’, para se ganharem mais milhões, cedem a todo o tipo de interesses e Trump deu um sinal inequívoco de que manda na FIFA, com uma leveza e uma facilidade que julgávamos impossível, assim feito às claras, sem qualquer pudor.
Já ninguém consegue travar isto. E já ninguém tem decoro.