terça-feira, 18 ago. 2026

Pedro Proença está no lodo ou ‘é’ o lodo?

Depois de se conhecer o áudio de declarações muito graves de Pedro Proença como candidato a presidente da FPF de há dois anos, o comunicado que na atualidade se lhe seguiu foi pelo menos tão grave quanto o que o originou, pelo desplante da sua vacuidade: estamos, de facto, rodeados de atrelados.

1.Interessa, pois claro, saber como é que uma parte editada de uma reunião havida, há cerca de 2 anos, entre o então candidato à presidência da FPF, Pedro Proença, e responsáveis do Benfica veio agora para a praça pública e quem esteve por detrás da iniciativa de a querer ver estampada em todo o lado. Sem a desprezar, torna-se evidente que há uma intenção no timing mas não é esse o ponto mais importante. O aspeto mais importante esbarra no conteúdo. A três níveis: a) A forma como o ex-árbitro e o ex-presidente da Liga olhava para a classe da arbitragem; b) O modo como o então candidato à presidência da Liga se dirigiu ao então presidente da AG do Benfica, Fernando Seara, na presença de Rui Costa e do seu chefe de gabinete Nuno Costa; c) A via escolhida por Pedro Proença para ameaçar Seara e o Benfica, dando a ideia, direta e indiretamente, que o clube da Luz devia era estar mas é muito bem caladinho porque, nas muitas vezes em que foi visitado pela Polícia Judiciária, a Comissão de Instrutores da Liga não fez – deu a entender – o que devia, supostamente pela magna influência do ‘rei sol’ perante os seus… atrelados.

2.Tudo isto prova o lodo em se movimenta o futebol português. Esta semana, de resto, assistimos à consagração daquilo que é a falta de noção, no futebol e na política, da exigência ética que certos cargos exigem.

Sem querer liminarmente comparar: vimos com Luís Neves, até há bem pouco tempo intocável e inexpugnável como diretor nacional da PJ e agora nulificado como ministro. (Nunca se deve confundir aquilo que é, em tese, e deveria ser na prática, a projeção da imagem da entidade que pugna pelo máximo escrutínio com a atividade política e partidária).

E vimos com Pedro Proença.

E, no caso de Proença, e como já escrevi aqui, não é bom que quem escrutina o jogo no campo passe para a atividade da gestão do futebol profissional e depois para o órgão máximo que tutela o futebol português no seu todo.

Vimos com Neves e Proença mas com uma pequena grande diferença: é que no caso do ministro da administração interna os partidos da oposição – uns mais do que outros – fazem o seu trabalho e exercem o contra-poder, como se viu, acima de tudo, com André Ventura e com Mariana Leitão (IL). No caso de Pedro Proença, e no âmbito daquilo que se ouviu no áudio em questão, um silêncio ensurdecedor. Lamentável! E mesmo os que, genericamente, se queixam de Pedro Proença… votaram neles!!! É um jogo perigoso, mas é também um jogo intelectualmente desonesto e até sórdido.

3.Quando, no título deste artigo, pergunto se o atual presidente da FPF está no lodo ou ‘é’ o lodo, a questão decorre do facto como Pedro Proença, há dois anos, quando queria chegar à presidência da Liga, deu sinal daquilo a que pode corresponder o seu poder de influência junto de uma Comissão de Instrutores (que faz ou não a instrução dos processos) ou, se quisermos ir mais longe, não apenas por indução, junto de um Conselho de Arbitragem. E é impossível agradar a todos e/ou ter-se a presunção de que é possível enganar todas as corporações que lutam pelos mesmos objetivos. Nestas condições, como se pode ser presidente da FPF, uma instituição de utilidade pública regida por estatutos que enchem a boca com palavras como integridade e transparência?!

4.Depois do que todos vimos acontecer no Mundial, onde o presidente de um dos países organizadores, neste caso Donald Trump, interferiu descaradamente em questões técnico-disciplinares do futebol, utilizando o seu poder de influência sobre o presidente da FIFA, Gianni Infantini, neste caso em matérias relacionadas com arbitragem e que envolviam a Seleção dos Estados Unidos, não precisamos de mais nada para confirmar aquilo que está à vista de todos nós, na política e no futebol.

5.Sim, o poder de influência.

Neste caso, o poder de influência de dois dos homens mais poderosos do Mundo, cada qual à sua escala de intervenção.

Não é nada que nos gere especial surpresa, porque a história do futebol português está cheio destes casos, não exatamente de forma direta da política para o desporto-rei (aqui, nesta relação, é mais a cumplicidade, a omissão e o conluio), mas na forma como os presidentes dos clubes – permitam-me o eufemismo – tentam buscar proteção nos setores da Arbitragem e da Disciplina, aqueles que, através das suas decisões, ajudam a ganhar campeonatos ou a sustentar narrativas de vitimização a partir das quais – por causa da cegueira clubística – permitem que se desviem as atenções não apenas de erros de gestão mas também aqueles que se cometem sobre o terreno de jogo.

6.Este arranque de temporada já está contaminado com tudo o que aconteceu, no setor da arbitragem, a partir da demissão do ex-árbitro Duarte Gomes do cargo de diretor técnico nacional (agora substituído por João Ferreira), que está a provocar um terramoto no futebol indígena, e hoje ainda vivemos a fase das réplicas, na sequência do tremor de terra inicial, depois do Conselho de Justiça ter arquivado o processo no âmbito da ‘justiça desportiva’, havendo no entanto um inquérito a decorrer no DCIAP, com o MP a ser coadjuvado pela PJ, após denúncias sobre alegadas interferências no setor da arbitragem, que visam o presidente do CA, Luciano Gonçalves.

7.Aqui, nestas colunas, no início do mês, falei de um ‘Golpe de Estado’, para já falhado, mas ainda com algumas possibilidades de poder ter êxito.

O que está em causa, no fundo, é a governação de Luciano Gonçalves, ex-líder da APAF e atual presidente do Conselho de Arbitragem.

Factual: Sporting e Frederico Varandas têm sido poupados nas críticas a Luciano Gonçalves. O Benfica e Rui Costa endureceram o discurso durante a época passada e neste defeso; André Villas-Boas foi o último a reagir e o que, no tempo mais recente, foi mais longe, pedindo ao presidente da FPF que suspenda temporariamente o responsável pelo Conselho de Arbitragem.

Ora estes posicionamentos remetem-nos para as relações inexistentes e muito complexas entre André Villas-Boas e Frederico Varandas (e portanto entre o FC Porto e o Sporting), o que ajuda a colocar um foco de luz nos elogios que o presidente portista fez recentemente a Rui Costa, tentando com isso, a meu ver, isolar o presidente dos ‘leões’.

8.Se olharmos aos protagonistas e às suas posturas, Duarte Gomes percebeu que não tinha o poder suficiente no setor da Arbitragem e, ambicioso como é, fez a jogada de se retirar para fragilizar Luciano Gonçalves, cujo lugar gostaria muito provavelmente de ocupar.

Rui Costa não se revê neste Conselho; André Villas-Boas também não, pelo que as denúncias de Duarte Gomes e Hélder Malheiro (envolvido no processo contra Luciano Gonçalves e próximo de Duarte Gomes) servem os interesses de mudança de Benfica e FC Porto. Quem está mesmo interessado em criar as condições para que o setor da arbitragem não seja tão permeável como parece ser?

9.Quem pode promover essa impermeabilidade?

O ex-árbitro Pedro Proença, que colocou como principal objetivo do seu mandato como presidente da FPF investir (leia-se controlar) o setor da arbitragem? Não foram os clubes dominantes, alguns dos quais agora críticos, que colocaram Proença na liderança da Cidade do Futebol? E qual a razão por que o fizeram? Que promessas tácitas ou diretas lhes foram feitas?

É a ministra da Cultura (e também com a tutela do Desporto), que parece uma lapa agarrada à ‘rocha’ Proença (ainda não percebeu que lhe fica muito mal?) que vai promover essa impermeabilidade? É o magistério de influência do primeiro-ministro, que também vê no futebol – como se viu no Mundial – uma rampa de promoção da sua procurada popularidade?

10.Tenho de confessar que cheguei ver Luís Neves como o Papa Francisco da integridade nacional. Agora vejo como o país chegou a um ponto de ingovernabilidade quase total, cheia de gente com medo, presa aos seus complexos ou às suas cedências e entrincheirada na sua incapacidade de se libertar das amarras que perpetuam um poder sem ética. E se os maus exemplos como os de Trump e Infantino nos atravessam as vísceras e a mente, o que se pode esperar de pessoas que não querem mais nada senão controlar e subverter os titulares de órgãos decisórios?

Quem escrutina quem? Quem escrutina o quê?

Quem tem medo, na política, de Luís Neves? Será pela forma como o poder pode utilizar o maior poder que tem, face aos mecanismos de escrutínio que adquiriu? E, no futebol, quem tem medo de Pedro Proença? Não serão aqueles que lhe deram o poder para que este não escrutine os seus, afinal, fracos poderes?

E agora?!…

Talvez me engane, mas Pedro Proença, que também se deve sentir empoderado, precisa da cabeça de Luciano Gonçalves para ganhar o fôlego que neste momento deixou de ter.

EXAME (notas de 0 a 20)

UEFA
15

Coloca-se e bem contra a (maior) ‘privatização’ do Mundial, promovida por Infantino/FIFA

APAF
14

Os árbitros, para já, rejeitam reunião com Pedro Proença por causa da crise que se instalou no sector. Pudera: tratados como foram no tal áudio ‘vazado’…

Justiça Desportiva
1

Não há pedido de explicações na chamada ‘justiça desportiva’ depois do que se ouviu da boca de Proença?!

PEDRO PROENÇA
0

Depois de um áudio gravíssimo, um comunicado pífio e vazio. Inaceitável.