1.Rui Costa e André Villas-Boas falaram de arbitragens e do posicionamento de cada qual em relação ao tema e às contabilidades do passado, mas a grande pergunta é se, logo à primeira jornada e às incidências dos jogos, a efervescência tinha razão de ser?
2.O que é crónico torna-se muito difícil de alterar e o futebol português tem este problema para resolver: presidentes a falar de arbitragens, quando o caminho deveria ser outro, exatamente nos antípodas daquilo que acontece há décadas, na crença de que as pressões dão pontos e a fragilidade do setor da arbitragem acaba por sucumbir a essas pressões. E, como se sabe, pelas razões que aqui temos vindo a explicar, o setor da arbitragem está particularmente frágil no começo desta época, no seguimento da demissão do diretor técnico nacional, Duarte Gomes, e dos efeitos provocados sobre a figura do presidente do conselho de arbitragem, Luciano Gonçalves, com Pedro Proença a revelar muitas dificuldades em gerir o momento, agora muito acossado pelo Benfica, que lhe tem dado água pela barba, não apenas com o tema da centralização (que a todos condiciona), mas com o desprezo a que foi votado na tribuna presidencial da Luz, no jogo da primeira mão com o Hearts.
3.Os presidentes dos clubes e as suas estruturas podem ter, até, apreciações dos lances dos jogos que não têm adesão na avaliação feita, nomeadamente, pelo conselho de arbitragem, mas isso é a coisa mais natural do mundo se essas apreciações não fossem transformadas em arma de arremesso para esconderem os seus próprios ‘eclipses’, agora que o país se pôs a olhar para o céu, entre êxtases, frustrações e um misto de sensações, na procura da resposta se valeu efetivamente a pena tanto empenho na corrida à compra dos óculos especiais. Adiante.
4.Sempre houve o bom senso por parte dos árbitros, acorrentados pelos algozes do “sistema” nas respetivas Federações nacionais - industriadas pela UEFA (no caso europeu), pela FIFA e pelo International Board - em não responder com constância às críticas dos presidentes aos árbitros, porque se estes usassem o seu direito à liberdade de expressão e desatassem a criticar os golos que os jogadores desperdiçam de baliza aberta; os atos de gestão de administradores e diretores; e as más decisões dos treinadores na escolha dos onzes iniciais e na forma como (não) fazem as substituições, então teríamos o caldo fervente bem entornado.
5.Aqui têm um dos muitos exemplos que se podia dar sobre a inconstitucionalidade de muitas situações que o futebol preserva e até promove, dando a ideia de ser (como é) um estado dentro do próprio Estado, com as implicações que isso acarreta. Mas disso ninguém quer saber, porque o importante é que, na dúvida, as equipas de arbitragem protejam os ‘grandes’. E porque os crónicos candidatos ao título em Portugal, na sua macrocefalia, são três, então é importante que, nas áreas dos adversários, pequenos, médios ou grandes toques sejam transformados em penáltis, porque, se não o forem, lá vêm o drama, a conspiração e, muitas vezes, os tratados de irresponsabilidade que geram ódios nas bancadas e incêndios (fogo posto) na internet.
6.A verdade é que, a meu ver, a percentagem de acerto nos jogos que envolveram os quatro primeiros classificados da época passada foi elevada, ao contrário do ruído gerado por algumas decisões arbitrais.
Isto quer dizer que temos um quadro de árbitros de grande nível? Não, e sobre isto - pensando que estava a dizer uma coisa que não se ia saber publicamente -, naquela famigerada reunião com o Benfica, não custa a aceitar que a boca de Pedro Proença fugiu-lhe para a verdade. Simplesmente, na altura um candidato à presidência da FPF, ex-árbitro e com ideias alegadamente reformistas para a arbitragem, não podia dizer uma coisa daquelas, sobretudo no contexto em que foi, chamando para si não apenas o estatuto de um agente desportivo de uma competência fora de comum mas também a crítica sobre o setor para convencer os seus interlocutores de que, com ele, na presidência da FPF, as coisas iriam mudar para muito melhor.
7.É verdade que o setor da arbitragem tem de melhorar os seus níveis de autocrítica e colocar-se numa posição mais aberta às propostas do exterior, mas também é verdade que os clubes os expõem muito e a FPF não está a protegê-los como devia.
O projeto da criação de uma entidade independente pode ser um caminho, mas está parado. Porquê? Parece-me que um dos maiores problemas da arbitragem, ao contrário do que o movimento clubístico promove, é não criar uma distância suficiente para as dinâmicas coercivas dos clubes dominantes. Sem os ostracizar, claro, mas sem os proteger.
E tudo começa no tal princípio que gera conflitos de interesses que não me canso de assinalar: a promoção feita pelos clubes de um ex-árbitro (independentemente de quem é) para ser, primeiro, presidente da Liga e depois presidente da FPF. Não faz o mínimo sentido e essa proximidade inconveniente é muito difícil de gerir.
8.O futebol português, ao nível do dirigismo, tem o que merece: quer ter o sol na eira e a chuva no nabal e uma gestão destas não apenas é inconveniente como é impossível que gere bons resultados num clima saudável de proteção da independência e de uma regulação aclubística dirigida ao interesse da indústria, como acontece em muitas Ligas europeias.
A pirâmide está toda invertida. Os técnicos de arbitragem deveriam concorrer para se fortalecer e não permitir interferências dos clubes, que se tornaram crónicas. Não deveriam aceitar pedidos de reunião durante as temporadas e o defeso deveria ser utilizado para se comunicarem decisões estruturais e/ou relacionadas com alterações às leis do jogo. O problema é que o setor da arbitragem está contaminado por pessoas que na FPF não conseguem distanciar-se dos interesses do clube A, B ou C. E isso subverte o objeto estatutário da Federação. Este país vive muito na sombra da política do favor, do compadrio, do jeitinho e de dinâmicas que visam o lucro de qualquer maneira.
9.Em tese até se poderia considerar útil que os clubes apresentassem propostas de alteração do funcionamento da arbitragem, se as propostas não levassem com eles um halo de sedução de controlo.
Há uma enorme força de bloqueio no futebol português, resultante de interesses que são antagónicos. E por isso o tema da liderança na FPF e na Liga é fundamental.
Os adeptos, em maioria, são mais sensíveis ao facto de não saberem muito bem quem é o João Gonçalves que apitou na Amadora ou o David Silva que esteve na Luz, mas a verdade é que o árbitro mais cotado (Luís Godinho) precisou da ajuda do VAR (Bruno Esteves) para que o FC Porto não fosse lesado no jogo com o Alverca, com duas grandes penalidades bem assinaladas.
Nesta jornada inaugural, na Luz, quase a acabar o jogo, houve um lance em que se terá admitido que uma bola rematada por Lukebakio possa ter ultrapassado a linha de golo. Não entrou. E se tem entrado e o árbitro e o VAR não descortinassem? Andamos a falar há épocas da tecnologia da linha de golo mas o orçamento da FPF continua a não contemplar um investimento de 1,5M€ para resolver a situação. Não me digam que não há dinheiro. O que é isto comparado com os custos da megalomania em viagens e galas mais custos excessivos com pessoal? E mais um ano sem olhar a fundo com as condições oferecidas pelos Estádios? Villas-Boas tem toda a razão em relação a esta matéria, em declarações passadas (uniformização das câmaras e das condições nos Estádios para auxílio ao VAR) mas tudo está na mesma.
10.Há muitos dirigentes que não estão a fazer o trabalho que deviam. E é mais fácil atirar as culpas para cima dos árbitros. Acima das que eles efetivamente têm. E, portanto, não se olhe apenas para algumas árvores; é preciso olhar para a floresta. Esta primeira jornada envolveu um mau indício de que pode estar para vir. A ronda inaugural do campeonato trouxe com ela nervosismo, tensões, recriminações. As decisões do árbitro ou do VAR até podem ter sido boas, mas o importante é instalar o DRAMA e a mania da perseguição. E até a falta de humor. Para onde vamos? Para o ‘eclipse total’?