terça-feira, 21 jul. 2026

Os ‘ficheiros secretos’ de Portugal no Mundial 

A sensação de ‘boicote’ (externo e interno), a cama que chegou a estar pronta para Cristiano Ronaldo se deitar e, de repente, a ‘ressurreição furiosa’. E agora, frente à Colômbia? 

1.O jogo e o empate de Portugal frente ao Congo provocaram uma sensação de vazio, até de expectativas goradas, e as críticas foram dirigidas e concentradas em Cristiano Ronaldo como geraram a sublime teorização de que o balneário estava todo partido e não havia forma de colar as peças e as pecinhas do ‘jarrão’, tudo por causa de um ‘jarreta’ que já não devia estar há nos na Seleção… 

 

2.… E dos ficheiros  

secretos constavam  

outras coisas: 

(a) Que ninguém tinha mão em Cristiano Ronaldo, nem Roberto Martínez, nem Pedro Proença, ninguém; 

(b) Que Martínez não passa de santo protetor de Ronaldo, por causa de questões relacionadas com o presente e com o futuro; 

(c) Que alguns jogadores dos mais proeminentes (como Vitinha, Bruno Fernandes e João Neves) pediram uma conversa privada com o selecionador a dar conta do logro que era jogar nas condições em que a Seleção o estava a fazer; 

(d) Que o escocês Austin MacPhee, da equipa técnica de Martinez, considerado um dos melhores especialistas mundiais em bolas paradas, havia ameaçado bater com a porta, porque não sentia recetividade naquilo que estava a querer introduzir no jogo de Portugal, precisamente nesse âmbito das bolas paradas. 

(e) Que a chegada tardia da Seleção aos Estados Unidos não teve como base uma decisão de natureza técnica, mas uma vontade expressa pelo ‘comandante’. 

 

3.Estes ‘ficheiros secretos’ estariam na base de um ambiente de cortar à faca – a fundamentação para um jogo sem qualquer ponta de atração de Portugal perante o Congo. O resultado e a exibição, especialmente esta, foram tão negativas que ou havia um toque a reunir ou o fracasso poderia ser certo. 

 

4.A verdade é que, com ou sem ‘ficheiros secretos’, Portugal apareceu completamente diferente no jogo com o Uzbequistão. Viu-se trabalho tático, viu-se mentalidade, viu-se interação entre Cristiano e os seus colegas e vice-versa. E tudo mudou. Com uma vitória robusta, com uma boa exibição, com sinais de coesão recuperados. Estava montada a cena do ‘funeral desportivo’ de Cristiano Ronaldo. Os anti-Ronaldos estavam preparados para lhe lançar o golpe final. Mas enganaram-se. Tiveram de engolir em seco e refinar as suas dialéticas pré-envenenadas. 

 

5.A ‘azia’ provocada em Portugal pelo sucesso de Cristiano Ronaldo é algo que, aliás, devia fazer parte de um compêndio que pudesse ser consultado, não exatamente como espécie de bula nas farmácias, mas como extensão de uma terapia que também pudesse ser aconselhada por especialistas do aparelho digestivo. 

Não sei se a gastrenterologia tem remédio para esta Ronaldogastrite, mas é impressionante o contraste que acontece entre aquilo que se observa, a este nível, em Portugal e em tantos países de todos os continentes. 

Talvez seja apenas uma questão de mentalidade; talvez seja apenas uma questão de idiossincrasias. 

 

6.Quando criei, antes desta competição, o movimento de apoio a Cristiano Ronaldo para o Mundial-2026 já sabia que ele ia gerar um efeito contrário em muitas mentes. 

Não era apenas saber que, no plano desportivo, ele podia continuar a marcar a diferença. Como marcou, de forma significativa, no jogo com o Uzbequistão, que havia criado problemas sérios à Colômbia – é preciso não esquecê-lo –, do nosso Grupo. Com um jogo mais apoiado em que todos tivessem um papel importante nas assistências ao ‘capitão’. Sem complexos, com a ideia de combater aquele que poderia ser o maior adversário de Portugal – o… ‘Portugal…ego’. 

Era também a verificação à escala mundial do impacto que Cristiano Ronaldo tem nas pessoas. Nos fãs que correm atrás dele, um pouco por todo o lado. Vi-o em Houston com os meus próprios olhos aquilo que já sabia pelos media. É impressionante ver cidadãos de tantos país e continentes diferentes no apoio a Ronaldo. O apoio que lhe falta no seu próprio país e que se transforma em críticas, algumas mesmo indecorosas. Vi a explosão de contentamento dos fãs que esperaram horas, debaixo de um calor abrasador e húmido para o verem sair do autocarro. Vi cartazes a saudá-lo, ouvi incitamentos com ele por perto ou mesmo na sua ausência. Vi a loucura que aconteceu com a entrada em campo da equipa portuguesa no relvado para fazer o aquecimento. Vi a explosão de alegria de dezenas de milhares de fãs, a maior parte não portugueses, quando no aquecimento ele fazia a bola beijar as redes. Vi magotes de gente com a camisola número 7 de Cristiano Ronaldo. 

 

7. No jogo com o Uzbequistão, que acabou em goleada (5-0), viram-se momentos de comunhão, a tal comunhão necessária para que Portugal não passasse ao lado deste Mundial, mas viram-se, para além dos dois golos, acelerações, desmarcações na procura da melhor posição para poder concluir jogadas bem construídas ou por Nuno Mendes ou mesmo por Bruno Fernandes ou João Félix, os chamados momentos com a marca de Cristiano Ronaldo. 

Antes, era a idade. Mas a idade (41 anos) – verdade seja dita – ainda deu para desmontar uma equipa uzbeque que não é forte mas que mostrou mais argumentos no jogo com a Colômbia do que na partida com Portugal, e isso foi mérito dos jogadores e, neste caso, também de Roberto Martínez. 

Agora, o argumento que passou, de repente, a prevalecer foi o da fraqueza do Uzbequistão ou os dois lances em que C. Ronaldo poderia ter feito melhor. 

Em vez de haver uma dinâmica de apoio, voluntária e pacífica, a CR7 naquele que será o seu último Mundial, surge a negatividade da mentalidade portuguesa. Aquela que não tem capacidade de admiração, que felizmente não é total. 

8.Em Houston, antes de retornar a Miami, são os miúdos, são pessoas de todas as idades a gritar pelo nome de Ronaldo. Estive junto do relvado em trabalho para a CNN/TVI e sei o que vi e as manifestações de apoio e gratidão. 

Cada vez estou mais certo de que se pode fazer ainda uma simbiose de um jogador fora-de-série que devíamos mimar e acarinhar com um conjunto de outros jogadores que não têm de se sentir inferiorizados por haver uma ‘estrela’ que tudo fez, durante mais de duas décadas, para brilhar ao mais alto nível.  

É difícil entender o movimento contrário: é, talvez, um fenómeno muito português, talvez ‘tuga’ de mais, no sentido da projeção de sentimentos menores que diminuem o ser humano. 

Sempre acreditei que a união poderia afastar os fantasmas gerados com o empate frente ao Congo. 

Cristiano foi enorme, mas a Seleção teve um belíssimo comportamento. De foco. De concentração. Mas também de capacidade coletiva, com um espírito de entreajuda que não pode abandonar mais Portugal nesta prova. 

9.Uma lição de vida, não para todos, claro, porque os do costume vão encontrar defeitos em tudo. 

Da minha parte, todo o respeito. E a convicção de que Portugal, a partir de agora, se não abandonar esta postura e registo, pode aspirar a fazer história neste Mundial. Não fazendo marcha-atrás nos processos, na concentração e na vontade de juntar todos em nome de um objetivo comum. 

A combinação do futebol exterior com o interior, a forma como não se levantou o pé, o aumento de intensidade na recuperação da bola e nos duelos, e a procura de espaços por onde conseguir confundir os adversários foram a fórmula certa para bater expressivamente o Uzbequistão. 

10.O contexto não era fácil depois do empate com a equipa africana, vamos ver como Portugal se comporta na partida que deste sábado perante a Colômbia, mas independentemente daquilo que acontecer com os colombianos, muito presentes quer em Houston quer principalmente em Miami, vimos uma equipa interagir com Ronaldo e o ‘capitão’ teve um papel agarrador, nomeadamente quando Portugal dispôs de um livre perigoso à entrada da área, com cerca de uma hora de jogo, CR7 preparava-se para bater a falta, mas a forma como simulou o remate e depois apareceu numa zona adiantada, solicitado por Bruno Fernandes, diz bem que o ego pode esperar. Aliás, na jogada a seguir Portugal chegou ao 4-0, mas antes, na primeira parte, já o ‘capitão’ cumprira muito bem ao permitir que Nuno Mendes batesse o livre ensaiado (no qual se integrou de forma magnífica), que daria o 2-0. 

Em suma: em vez de desdenhar o feito da goleada perante o argumento da fraqueza do Uzbequistão, convençam-se da importância de Cristiano Ronaldo.  

Vão ter muitas saudades dele!