1.Antes de entrarmos nos casos, casinhos e casões do nosso futebol doméstico, que vão começar com a época quase a dar o seu pontapé de saída e com as equipas ainda a afinar os seus planteis, há uma coisa que tem de ser dita depois da Espanha se ter sagrado muito justamente campeã do Mundo: a podridão do futebol como hoje o observamos é patrocinada, sem o mínimo de pudor, pela FIFA. Sem poupar nas palavras: este Mundial-2026 teve aspetos positivos, como a capacidade de resposta de equipas que foram autênticos bálsamos para a alma, de quem gosta acima de tudo do ‘jogo pelo jogo’, como foi o caso extraordinário de Cabo Verde e das suas andantes ‘vozinhas’, mas tivemos o primeiro Campeonato do Mundo em que, com todo o descaramento, o poder político se fez sentir de uma forma absolutamente escandalosa e inaceitável.
2.Falou-se, é certo, do ‘caso Balogun’, o jogador norte-americano que havia visto um cartão vermelho por uma entrada dura sobre o sérvio Tarik Muharemović, numa decisão correta no seguimento do alerta dado pelo VAR brasileiro Raphael Claus, mas que a FIFA optou por despenalizar, permitindo que Balogun ficasse disponível para o jogo dos oitavos com a Bélgica, numa decisão sem precedentes depois de um pedido feito pessoalmente pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Gianni Infantino, presidente da FIFA. Sim, a FIFA ultrapassou uma linha vermelha e Infantino, perante algo que chocou o Mundo (e não apenas o ‘mundo do futebol’), continuou com aquele seu ar de homem bonzinho, submisso, com um sorriso, aos poderes dominantes. Já vou explicar porquê.
3.A sigla FIFA ficou, desde logo, comprometida e convertida numa coisa que já sabíamos mas que, a partir de agora, com Infantino e as suas marionetas, ficou em carne viva: Falsa Independência Falsa Autoridade. Sim, a FIFA não se importou de colocar a nu a sua falsidade, falta de independência e autoridade, dentro daquilo que deveriam ser regras para todos e não só aplicadas a alguns.
4.Uma coisa destas deveria ter tido uma única consequência: a demissão imediata de Gianni Infantino, mas o que se (ou)viu? Ruído nas redes sociais, manifestações de indignação da Federação belga, a mais directa prejudicada pela decisão de Trump, perdão, do Comité Disciplinar da FIFA, a mando de Infantino, mas depois do jogo entre os Estados Unidos e a Bélgica, que os europeus venceram sem espinhas, por 4-1, Trump ainda gozou com toda a gente, dizendo qualquer coisa do tipo: «Estão a ver? Tanta conversa por causa da despenalização de Balogun, e a Bélgica eliminou os Estados Unidos». E riu-se.
5.As próximas eleições da FIFA estão aprazadas para 18 de Março de 2027, durante o Congresso em Rabat/Marrocos, e Gianni Infantino já declarou que será candidato e as respectivas candidaturas terão de ser formalizadas até 18 de Novembro deste ano, portanto há 4 meses para decisões deste tipo. As várias situações que marcaram este Mundial podem resumir-se da seguinte forma, independentemente do crítico ponto de vista uefeiro:
a) Diversos erros de arbitragem, muitos deles a favorecer a Argentina desde logo quando Messi, no jogo da estreia da seleção ‘celeste’, com a Argélia, atingiu com uma entrada dura Aissa Mandi e nem sequer viu cartão, que deveria ter sido vermelho, uma vez que, ao atingir o gémeo do seu adversário com a zona da sola, colocou em causa a integridade física do seu adversário e as regras são claras em relação a este tipo de entradas. Messi, a seguir, marcaria 3 golos… Uma das melhores jogadas da competição, que resultou em golo anulado ao Egipto no jogo (outra vez) com a Argentina, que daria o 2-0 (considerada uma falta de Marwan Attia sobre Lisandro Martínez que o VAR francês Jérôme Brisard decidiu assinalar). A Argentina virou o resultado (v. 3-2) e seguiu para os quartos-de-final. Houve ainda, antes, uma falta omitida na jogada do primeiro golo argentino no jogo com a Áustria. Mesmo na final, o golo anulado a Nico Williams (alegada falta de Merino sobre Otamendi e assinalada por Vinčič antes da bola entrar não permitiu a intervenção do VAR) não me pareceu ter qualquer fundamento. Em síntese: demasiados erros de arbitragem (e apenas refiro aqui alguns dos mais impactantes) e muitos a beneficiar a equipa de Messi.
b) A forma discriminatória como a seleção do Irão foi incomodada (os atletas não mereciam ser tratados como se fossem criminosos);
c) … Nem os atletas iranianos nem o árbitro somali Omar Artan, que foi banido sem explicações plausíveis e sem uma posição firme de Pierluigi Collina e do sector da arbitragem em geral (muito bem Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, neste caso).
d) A já citada influência política de Trump sobre Infantino – o escândalo maior, abafado pelas explosões de popularidade e empolgamento em redor dos jogadores, nomeadamente Cristiano Ronaldo e a loucura que se gerou à volta dele no contexto da Seleção portuguesa; os espectáculos dados por Shakira, Madonna, Burna Boy, Chris Martin, entre tantos outros que deram colorido ao espetáculo, como os ‘Speeds’ desta nova ‘live mode’ que promete vir para ficar e derreter todos os ‘clássicos’ de comunicação.
6.Dizia no ponto 2 que iria explicar a razão pela qual quem lidera o futebol está cada vez mais insensível às críticas, o que, aliás, não acontece apenas no futebol mas também na política. E quando política e futebol se juntam, nas plataformas mais elevadas de poder, não há nada a fazer. E tudo se relaciona como estas pessoas são remuneradas. Já tinha falado neste assunto, sobre o que o dinheiro provoca nas pessoas que fazem contas a dezenas ou centenas de milhões e as despesas são quase todas pagas. Infantino está ultra milionário. A FIFA neste Mundial factura qualquer coisa como 9 mil milhões de dólares, sendo que os custos não chegam aos 4 mil milhões, pelo que estamos a falar de um encaixe de 5,2 mil milhões de dólares. Como parar com o aumento do número de equipas a participar nas grandes competições futebolísticas do planeta? Como travar impulsos que colocam em causa a reputação do futebol? Mas para Infantino, que no Relatório Anual da FiFA de 2025 acusava encaixe de muito perto de 5 milhões de francos suíços (mais de 6 milhões de dólares) para o presidente da instituição, entre salários, bónus e outros benefícios, que peso tem a reputação? Ela tem algum peso? Vale ou não a pena, para quem os usa, os poderes estarem interligados?!
7.Os valores que se pagam no futebol a este nível têm um outro lado da moeda: como se alcançam esses valores e a corrida que existe nesse domínio. Depois é tudo proporcional. Das Ligas nacionais para as Federações. Há uma corrida a esses lugares muito bem remunerados porque todos sabem que entrar no universo da FIFA (ou da UEFA) corresponde a entrar nos corredores dos melhores empregos do Mundo.
8.Isto é particularmente importante e justifica muitos silêncios e omissões daqueles que deveriam liderar os processos mais fracturantes que acontecem, nomeadamente na Europa e, se quiserem, em Portugal, na jurisdição das Federações. O caso português é muito relevante enquanto exemplo-padrão à dimensão do país.
9.Os conflitos de interesses hoje são coisas para rir. Sempre defendi que há uma incompatibilidade entre a função de árbitro e/ou técnico de arbitragem com a função de dirigente clubístico. A mesma incompatibilidade que encontro na transição de um ex-director nacional da PJ para um cargo governativo. São incompatibilidades que não fazem desonestas as pessoas em causa, mas são situações para evitar, porque provocam facilmente distorções muito difíceis de conter.
10.Não se afastem, na observação, daquilo que aconteceu no Mundial, entre Trump e Infantino. Bastou uma ‘ordem’ de Infantino para um órgão disciplinar (!) legitimar uma recomendação de um presidente, neste caso dos Estados Unidos da América. Já viram se a moda pega e, perdoe-se-me a hipérbole, António José Seguro começa a pedir despenalizações para jogadores na nossa Liga? Ou, em 2030, se lá chegar, pressionar Infantino, se este for reconduzido daqui a uns meses e Trump não conseguir colocá-lo como secretário-geral da ONU? O futebol é isto. Uma elite e as suas marionetas, num jogo de milhões. Como dizia o outro, tudo ligado. Os tanques e os atrelados. Quem pode, pode. E o patego paga.
Exame
MESSI
Nota 15
Passou ao lado da final, mas foi a figura maior do Mundial, acima de Rodri
ESPANHA
Nota 14
A melhor equipa (a jogar em bloco) numa final que não deixa saudades
JORGE JESUS
Nota 14
Primeiras ideias como selecionador: posse em pressão alta. Sim, é isso: atacar (dinamicamente) e defender bem
ARGENTINA
5
Pobre final. Eclipse quase total e atitude miserável de anti-deportivismo quando a Espanha tinha o seu justo momento de consagração