A histórica vitória do Sporting sobre o Bodo/Glimt e a reeleição de Frederico Varandas como presidente foram, conjugados, ‘o acontecimento da semana’, não apenas pelo resultado expressivo nas urnas (89,47%) e também no relvado (5-0), mas sobretudo por duas outras razões: primeiro, porque no plano desportivo a goleada correspondeu a uma reviravolta na eliminatória depois do resultado negativo registado na Noruega (0-3) e, em segundo lugar, porque o futebol exibido pelos leões foi de uma expressão rara nos relvados nacionais, permitindo-lhes jogar os quartos-de-final da Champions, frente ao Arsenal, a primeira mão em Alvalade a 7 de abril e a segunda mão, em Londres, uma semana depois, a 14.
Será o reencontro de toda a estrutura do Sporting, jogadores e equipa técnica, com Gyökeres – e podemos até começar por aqui porque uma das grandes surpresas da época foi a rápida adaptação do seu substituto no Sporting, Luís Suárez, em rendimento e na capacidade de relacionamento técnico-tático com os colegas, uma vez que se pensava, no universo de Alvalade e fora dele, que o ponta-de-lança sueco seria praticamente insubstituível.
Não se podem comparar as Ligas inglesa e portuguesa, nos ritmos, nas dinâmicas individuais e coletivas e também nas vicissitudes (dentro e principalmente fora do campo), mas é inegável que aqui, no pátrio solo, poucos eram aqueles a pensar que não se iria falar quase em permanência de Gyökeres e da sua ausência, sempre que se falasse no Sporting.
E a verdade é que aconteceu, até porque a adaptação de Gyökeres à ‘realidade-Arsenal’ foi difícil e delicada, estando agora num ponto crescente, e Luís Suárez rapidamente deu sinais de que, mesmo sendo um ponta-de-lança com outras características, menos ‘profundo’ mas mais ‘associativo’, sem perda do ‘faro de golo’, poderia ser, como é e como era Viktor Gyökeres, uma pedra angular no Sporting.
Tudo isto confere mais força ao presidente Frederico Varandas, agora reeleito praticamente sem oposição, e depois de um ridículo ‘debate’ (?) com Bruno Sá, que decidiu ir a jogo quando as circunstâncias nem sequer o aconselhavam (foi basicamente para se dar a conhecer e para ‘marcar terreno’ para o futuro), mas se a vitória do reeleito líder do Sporting foi tão expressiva como a goleada sobre o Bodo/Glimt há manifestações ‘varandísticas’ que suscitam algumas interrogações não apenas como presidente dos leões mas sobretudo no seu enquadramento no futebol português em geral, do qual ele foi sempre muito crítico, e bem, porque o peso das lateralidade na periferia do jogo teve sempre um peso absurdamente superior aquilo que era o peso do somatório da ‘coisa técnica’, na bola indígena.
Há uma coisa que ninguém pode negar: Frederico Varandas, como presidente, ajudou e muito a transformar o Sporting, ainda que se discuta, mesmo pelos sócios e sobretudo por quem está nos antípodas dos interesses do clube, quem foi o verdadeiro motor da transformação, se Ruben Amorim e a sua estrutura, se os perdões da banca nas respetivas reestruturações, se a nova roupagem dos Conselhos de Arbitragem, desde que Vítor Pereira deixou de exercer o seu magistério de influência no respetivo setor.
O futebol português correu sempre a duas velocidades: (1) a importância da qualidade dos jogadores e dos treinadores, e todos os candidatos ao título (principalmente FC Porto e Benfica nos seus períodos dominantes) assinalam momentos de acerto e de capacidade indiscutível; (2) a importância das influências externas, que estiveram sempre muito condicionadas – é bom nunca branquear – pela ação das claques e pela presença de Fernando Madureira no eixo central dessas influências.
Houve, portanto, várias circunstâncias que ditaram a afirmação crescente de Frederico Varandas como presidente do Sporting: a decadência de Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira; as fases de transição difíceis protagonizadas por Rui Costa e André Villas-Boas; as mudanças nos Conselhos de Arbitragem, que Varandas apanhou desde 2018-19; a primeira época com VAR em 2017-18, quase simultânea com a primeira vitória nas urnas do presidente dos leões e a eclosão da ‘Operação Pretoriano’ que, numa primeira fase (veremos a partir de agora), reduziu e muito as pressões sobre o setor da arbitragem.
Isto quer dizer que Frederico Varandas não teve qualquer mérito na afirmação do Sporting como bicampeão nacional e agora com a chegada dos leões aos quartos-de-final da Champions? Não, não e não!
Simplesmente é preciso não ter medo das palavras no enquadramento das realidades, custe a quem custar e, na verdade, há dois períodos relevantes que marcam uma grande diferença antes de Frederico Varandas iniciar o seu terceiro mandato à frente do Sporting: primeiro, com rivais como Pinto da Costa no FC Porto (5 anos e meio) e Luís Filipe Vieira no Benfica (cerca de 3 anos); depois, com rivais como Rui Costa no clube da Luz (cerca de 4 anos e meio) e André Villas-Boas (aproximadamente 2 anos) no clube do Dragão.
Ninguém pode negar que, desde que Varandas chegou à presidência do clube de Alvalade, o Sporting ganhou três campeonatos e o FC Porto e o Benfica dois cada qual.
É factual.
É indesmentível, o que leva a concluir que Frederico Varandas é um presidente vencedor, depois de ter passado por uma fase inicial muito difícil, fruto da profunda instabilidade em que o Sporting estava mergulhado.
Há que reconhecer que Frederico Varandas aproveitou-se não apenas da decadência daquilo que foram as ideias e as posturas defendidas, nos seus rivais, por Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, nunca lhes dando muita confiança, e fez algo que não era fácil – gerar oposição e denunciar algumas situações que feriam gravemente a integridade das competições – como soube rodear-se de gente profissional na área do futebol (Ruben Amorim e Hugo Viana, sem desprezar os efeitos da equipa-sombra desta dupla) para crescer como presidente.
E agora beneficia disso e não apenas disso.
Beneficia de um Benfica que não sabe posicionar-se perante o seu amorfismo, isto é, não sabe muito bem como se afirmar perante situações estratégicas (interna e externamente), confundindo posições inflamadas quase sempre sobre lances de arbitragem (dos seus jogos e dos rivais) com posições de princípio que estão sempre muito distantes de uma posição central de liderança.
O Benfica devia ser, pela sua dimensão e recursos, um clube-líder e não é. E não é por causa do Sporting. É por culpa própria.
O Benfica já revelava essa dificuldade no ‘vieirismo’ e, agora, com Rui Costa, não consegue abandonar a posição de charneira para liderar sem sofismas, medos ou outros constrangimentos, o futebol nacional.
E Varandas beneficiou também, no FC Porto, da transição que chegou a parecer molecular entre o largo período de Pinto da Costa e a chegada de André Villas-Boas, mas que hoje se funde em procedimentos do tempo de antanho, com os quais Varandas faz os possíveis para não mostrar qualquer tipo de empatia.
Provavelmente, porque sendo o presidente mais longevo dos três ‘grandes’ achava que iria, num novo contexto, liderar o futebol português, até com a indiferença (ou impotência?) de António Salvador. E seria assim se, recentemente, Varandas não se tem aproximado demasiado de práticas que sempre condenou, nomeadamente quando se envolveu numa ‘luta de lama’ com André Villas-Boas. Não lhe ficou nada bem retirar-se de uma abordagem junto da comunicação social a chamar ‘cobarde, cobarde, cobarde (!)’ ao presidente do FC Porto, apesar deste também ter perdido a coerência nalgumas das suas últimas intervenções, o que pode representar uma desgraça para o sempre adiado processo de credibilização do futebol português, através da postura e do discurso dos seus mais altos dirigentes.
Não confundamos os êxitos recentes do ‘Sporting de Varandas’ de indiscutível valor com outra realidade: neste momento, e se não quiser ir apenas pelas aparências, é apenas um falso líder com pretensões a ser líder. E com uma ambição elitista que já se viu ser desmesurada.
A coisa até lhe estava a correr bem, na relação com a Federação e a Liga e com os seus órgãos decisórios (nomeadamente o Conselho de Arbitragem, primeiro com Fontelas Gomes e agora com Luciano Gonçalves/Pedro Proença), mas a súbita maior competitividade revelada pela equipa de Francesco Farioli deu-lhe cabo do sistema nervoso, protagonizando situações que mete o elitismo na rua dos Fanqueiros.
O SC Braga-FC Porto na luta pelo título (já neste domingo) e o Sporting-Benfica (daqui a um mês), provavelmente para a definição do segundo classificado, serão as ‘chaves’ da época.
Em suma: os últimos resultados conseguidos por Varandas (nas urnas e no campo, sob a orientação técnico-tática de Rui Borges) não o dispensam de clarificar o tipo de intervenção no tecido futebolístico nacional enquanto presidente/dirigente.
Se quer ser, como parece querer, o ‘novo líder’ do futebol luso vai ter de se decidir, sem sofismas ou golpes de aparência, por uma presidência com nível ou vai provar-nos a todos nós que, afinal, para se ganhar campeonatos, não é suficiente dizer-se que se é diferente; é preciso baixar ao nível do argumentário de outros agentes desportivos e fazer tudo para controlar os órgãos decisórios, a partir da Federação?…
Por outras palavras: parecer é uma coisa; ser é outra.
Sinceramente, mesmo depois de tomar posse para um terceiro mandato como presidente do Sporting numa atmosfera positiva, sinto que ainda não atingiu o grau de maturidade e independência que chegou a prometer.
Não precisa de ser ‘Marcelista’,
Não tem de ser nem como Marcelo Rebelo de Sousa nem como Marcelo Caetano. Tem de se aproximar dos sócios (e aí Bruno Sá esteve bem) e mostrar, com verdade no verbo, que o rei vai nu, como dizia aqui, nestas colunas, no artigo da semana passada.
Sem disfarçar, sem copiar, sem-criticar-os-outros-e-fazer-o-mesmo-que-outros-fazem.
Romantismo no lodo?!…