quarta-feira, 13 mai. 2026

O Benfica-de-sofá anda a ser enganado

Há um problema transversal de mentalidade no Benfica (um império de acomodação) e é preciso cortar nas gorduras e no bem-bom para apostar num novo perfil de jogadores. E não só.

1.Eles não correm.
É o que mais se ouve dizer.
E, de facto, não correm.
E depois ouve-se: o treinador é que os devia pôr a correr.

Pois.

Mas tu dizes: ó homem, não te falta nada, ganhas bem, tens um centro de treino em que nem te falta nem uma máquina para te massajar as pálpebras e os calcanhares, arranjam-te as unhas dos pés e não deixam sequer que sejas incomodado por um único fungo, ó homem, corre lá mais um bocadinho, se for preciso colocamos-te em casa alguém que te trate do teu caniche e arranjamos-te um avião particular para ires dar um beijinho à tua sogra, ó homem, se for preciso até te imploro, mas por favor corre, corre lá mais um bocadinho.

 

2.O Benfica parece estar perante uma encruzilhada ou uma ‘missão impossível’, confrontado com uma floresta de nós górdios que não se consegue livrar das ervas daninhas que geraram o maior dos problemas do Benfica: o enorme império de acomodação que se construiu, como se fossem os dois edifícios mais altos do Mundo. Uma ‘zona de conforto’ edificada sobre uma gigantesca almofada de penas de ganso, que só pode dar sonolência e cada vez mais vontade de dormir.

O Benfica dormiu na primeira parte do jogo com o Casa Pia (a asserção às penas de ganso não foi por acaso…) como já dormiu noutros jogos, demasiados jogos, com ou sem Mourinho.

 

3.O Benfica precisa de acordar para uma realidade muito simples: a equipa de futebol tem de ser a extensão ou o prolongamento de uma cultura de exigência que não existe no clube da Luz. É tudo muito palaciano, é tudo muito fofinho, é tudo muito fácil, não é preciso qualquer esforço porque há demasiados direitos adquiridos. A carne é demasiado tenra, o peixe é demasiado fresco, os tapetes são demasiado macios, as máquinas estão programadas para pedirem licença quando reclamam um bocadinho mais de esforço, o dói-dói é sempre uma dor de cabeça, hoje não me apetece, amanhã é outro dia e daqui a pouco cai-me o dinheiro na conta para comprar mais um Ferrari.

 

4.Ponham-se no lugar do Mourinho. Ele passa a mensagem, internamente, uma vez, dez vezes, cem vezes, mil vezes, um milhão de vezes, não se esquece de colocar o despertador a tocar no balneário, nos corredores, no ginásio, no relvado, os jogos chegam e a sensação que dá é que a equipa, antes de ser ‘chicoteada’ normalmente no intervalo dos jogos em que a dormência domina, leva o pijama de seda para dentro do campo.

O Mourinho, que é um homem de se levantar cedo e de múltiplas exigências, a certa altura deve pensar (cogitação minha): se anda tudo a dormir, se lhes passo a mensagem de que assim não vamos lá ao ponto de comprometer a época (os jogadores foram para dentro do campo no jogo com o Casa Pia com as contas feitas e com a frase colada na testa que perder pontos significaria perder o objectivo principal!) não tenho outra solução se não usar o espaço público para dizer, a este respeito, que o rei vai nu.

 

5.E vai mesmo! Neste aspecto de deixar para amanhã o que podes fazer hoje. O Benfica sofre demasiado com a aquisição da consciência de que, quando faz contratações, não pode contratar apenas para ocupar uma posição descaradamente deficitária. É isso que tem feito. E vamos ser claros: os observadores e quem está, por inerência, habituado a ver jogadores (eram os olheiros; agora são os ‘experts-do-scouting’, elevados a rainhas de Inglaterra do mais alto coturno) não estão a ser competentes ou então o mercado – os empresários – rebolam-se a rir enquanto enganam o Benfica.

O Benfica – mesmo precisando de uma revolução — tem de perceber que está a viver entre a incompetência de pelo menos uma parte da estrutura ou está a ser enganado, traído, ou usado para outros fins, em jogos invisíveis que, valha a verdade, estão a desgastar a sua imagem e reputação.

 

6.O que se vê em campo não pode ficar dentro do campo, como em Las Vegas. É preciso ser denunciado (acho que Mourinho já o faz em desespero, cansado de tantas guerras, como a Teresa do livro do Jorge Amado). O treinador “grita” em público porque, apesar do seu prestígio e do seu discurso, a árvore não abana. E se não abana, peço desculpa, mas o problema não é dele nem do ‘teorema da geriatria’, absolutamente ridículo: é das árvores que se agarram com afinco às suas raízes para não cederem ao vento das dialéticas e das aparadelas das ramagens castanhas, secas, que ainda por cima deitam um cheiro nauseabundo (sim, esse que vocês estão a pensar).

 

7.…E depois há teorias para tudo: que o treinador não devia falar em público porque rouba a confiança aos jogadores, porque eles depois ficam amuados e não correm. Quer dizer: não correm porque o treinador é mau. É o lobo mau e não se pode tratar os jogadores como se fossem bonequinhos de peluche, porque não se lhes pode tratar do pelo com sabão próprio de lavar escadas de pedra.

Coitadinhos!

 

8.E é esta bonomia e a mania de achar que no próximo fim-de-semana vai correr melhor e que uma vitória em Alvalade vai calar as críticas e dar razão a quem acha que não há um problema de mentalidade transversal no Benfica, que existe e é o seu maior problema, o motivo principal de adiar o que é inadiável. Atacá-lo é uma ‘decisão política’, que tem de partir de Rui Costa, e nada disto tem a ver, principalmente, com o ruído em redor das arbitragens. Tem a ver com a definição do ‘núcleo duro’ que, juntamente com um treinador como José Mourinho, não está disposto a fazer concessões de mudanças permanentes de edredão. Têm custado centenas de milhões de euros em decisões tomadas por uma emocionalidade longínqua deste propósito.

Provavelmente é preciso fazer mais alterações na estrutura nuclear, talvez seja tempo de cortar e poupar muito dinheiro com funções palacianas que não adiantam um chavo em relação ao objectivo primacial, porque todo esse dinheiro pode ser canalizado para a construção de um plantel comprometido, duro, capaz de lutar pela camisola que envergam como se os jogadores se tivessem de comportar como ‘comandos’.

 

9.Provavelmente o Benfica terá de reformular as suas lógicas de mercado, das relações que estabelece com os empresários, não sei se tem de passar a recrutar no exército, na marinha ou na força aérea, é claro que estou a hiperbolizar, mas alguma coisa tem de ser feita para mudar esta ideia de modorra que se instalou no futebol dos ‘encarnados’. Também pode ser um certo vazio que se estabeleceu entre o presidente e o treinador, gente que não está a fazer lá nada de verdadeiramente importante, provavelmente alguém que da confiança do presidente e do treinador possa protegê-los, fazer a despesa de alguma comunicação central – porque este é outro dos macro problemas a comunicação tem de ser mais esperta, mais selectiva e sobretudo mais eficaz, e, repito, nada disto se relaciona com a questão da contabilidade dos erros contra o Benfica e a favor dos rivais no tema da arbitragem Tem de ser uma comunicação mais directa e mais concisa sobre temas estratégicos e de planeamento.

 

10.Chegamos, pois, a um ponto essencial: é possível chegar a este ponto de coesão com Rui Costa e José Mourinho? É esta a conclusão que tem de ser rápida e muito objectiva.

É preciso cortar mais nas gorduras de todo o ‘Grupo Benfica’ para se efectivar esta ‘revolução de mentalidades’? Que se corte! É preciso engolir alguns sapos para que a operação avance? Que se engulam! É preciso ter a coragem de identificar onde está o ‘mercenarismo’ ou algo que justifique diversas apatias, incompatíveis com a ambição de um clube tão grande como o Benfica? Que não se hesite!

 

11.O número recorde de 93.891 sócios do Benfica que foram às urnas há quase meio ano votaram em maioria (mais de 65%) em Rui Costa, porque percepcionaram que não havia melhor alternativa. Foi um momento importante e não se pode dizer que a reeleição se baseou no facto da abstenção ter contribuído para isso. Pelo contrário: foi recorde do Mundo em afluência! Rui Costa contratou José Mourinho e essa do “trunfo eleitoral” também é coisa de somenos (em argumentário) porque, na verdade, quem está na posição ou quem está na oposição têm o dever de apresentar soluções que pareçam credíveis aos olhos dos sócios.

Portanto, das duas, uma: ou Rui Costa e José Mourinho percebem que estão condenados a entender-se (sinceramente, não estou a ver Mourinho a querer sair do Benfica sem conseguir o objectivo principal de ser campeão nacional com um plantel desenhado, dominantemente, por si próprio) ou então mais vale reconhecer que, sem ambos, o Benfica precisa de começar do zero. Mas a contradição é que, sem querer exagerar, é nesse ponto que se encontra, repito, em matéria de mentalidade global.

E ‘recomeçar de novo’ com quem? Com os milhões de quem? E de novo para se chocar com a realidade da tal mentalidade que não existe?

É o tempo do Benfica agir. Com o que tem, com o que deve passar a não ter e com a aquisição de gente que venha para suar. É isto que tem de soar.

Custe o que custar (com contas certas)!