segunda-feira, 17 ago. 2026

Jesus, ‘O Exterminador’: vital na Seleção Nacional

A responsabilidade do novo selecionador passa por acabar com estatutos, enjoos, birras e afins. Que seja implacável e o treinador corajoso que conhecemos, com o objetivo principal de colocar finalmente os jogadores… a jogar.

1.Como eu disse aqui e nas minhas intervenções públicas, Portugal foi para o Campeonato do Mundo ‘sem treinador’. Era um treinador em fim de contrato, mas era também um treinador sem chão. O chão que havia sido retirado a Roberto Martínez por Pedro Proença, quando – via eleições – substituiu Fernando Gomes na presidência da FPF. Quatro meses após a sua tomada de posse e já no meio de rumores de que Martínez não era o seu selecionador – não deixa de ser normal que, como acontece nos clubes, um novo presidente queira trabalhar com um técnico da sua escolha –, Roberto Martínez levou Portugal a conquistar a Liga das Nações. Conclusão: Pedro Proença tinha poder mas não argumentos para afastar o selecionador contratado por Fernando Gomes, cuja aquisição aconteceu basicamente para, conhecendo-se o perfil do técnico espanhol, fazer a gestão (com mínimo ruído) da reintegração plena de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional, depois dos episódios ocorridos com Fernando Santos e até, antes, com outros selecionadores.

2.Roberto Martínez partiu, portanto, para os Estados Unidos, rumando depois ao Canadá, sob o signo da fragilização e não foi por mero caso que, a certa altura, assinalei a ‘mudança de cor’ (facial) do técnico espanhol que, não obstante ser de facto um diplomata, a partir de certa altura e muito concretamente no período de preparação de Portugal para o Campeonato do Mundo, pareceu ser sempre um peixe fora de água: na comunicação, no ‘não verbal’, e nas opções que foi realizando, tirando um ou outro caso que também assinalámos (nem tudo é negro, quando a negritude domina).

E, para resumir, porque muito já foi dito sobre o tema, inclusive nestas honradas colunas, também neste espaço e sem poupar nas palavras, Roberto Martínez não esteve à altura daquilo que eram as elevadas expectativas dos adeptos portugueses e da generalidade dos observadores (nacionais e internacionais) em relação à participação de Portugal neste Campeonato do Mundo, porque o futebol apresentado, em média, esteve sempre longe daquilo que vale efetivamente cada jogador convocado e o somatório das partes.

3.Se, em termos de responsabilidade, imputo TODAS as culpas a Roberto Martínez? Não! A FPF tem uma responsabilidade crónica, em relação à abdicação da autoridade (Pedro Proença não pode continuar a fazer o papel de ‘mestre de cerimónias’, mais preocupado com os convites e com as relações institucionais convenientes para a sua promoção do que propriamente com as questões que afetaram a Seleção), sendo cúmplice sobre a instalação de poderes e sub-poderes relacionados com a força das marcas, dos patrocinadores e dos empresários.

4.Os jogadores também não devem ser ilibados porque em nenhum momento projetaram uma imagem indómita de vencer, e não foi por acaso que nas redes sociais e replicadas até à exaustão dominou uma imagem de um trenó em que Cristiano Ronaldo puxava a corda com toda força para a frente e alguns jogadores puxavam a mesma corda no sentido contrário, na direção inversa de Messi em que os futebolistas argentinos puxavam com alma o trenó onde o astro ‘celeste’ era transportado confortavelmente para a frente pelos seus colegas de equipa, rumo à vitória. É uma imagem forte que se formou em consonância com a forma de jogar de Portugal: havia sempre alguém que ‘interrompia’ uma jogada prometedora, ou desacelerando, ou fazendo um movimento contrário, ou não assistindo no momento certo e houve, sem dúvida, vários momentos em que as desmarcações de Cristiano Ronaldo não foram correspondidas, independentemente do tema da gestão tática e física do ‘capitão’ que deveria ter sido realizada de forma diferente, se o grupo de trabalho tivesse um líder (acima de CR) que promovesse e fizesse sentir os benefícios dessa gestão.

5.Não foi por acaso que aqui escrevi, durante o Mundial, ao longo da minha estada ou não nos Estados Unidos, que era preciso combater aquele que poderia ser o principal adversário de Portugal: O ‘Portugal…ego’; falei sobre os ‘ficheiros secretos’ (em função de informações que saíam de dentro do grupo de trabalho) e de um ‘cheiro quase irrespirável a boicote’, numa Mensagem que dirigi a Roberto Martínez após o jogo com a Colômbia e antes da partida, a eliminar, com a Croácia. Era preciso mais. Muito mais. Era preciso construir um todo, uma ideia de jogo ambiciosa e uma dinâmica em que todos jogassem com todos e entre todos. Mais do que exibir o talento, era vital uma ideia coletiva de compromisso. E isso só foi conseguido a espaços, mesmo no jogo que ditou a nossa eliminação, frente à Espanha, que está na final, com mérito, sobretudo pela força desse tal compromisso. E o que ficou: a ideia de que os anéis (de ouro) eram mais importantes do que os dedos e o corpo, na sua dimensão total de cabeça, tronco e membros. Os anéis, a soberba, as invejas, os traumas psicológicos, os bloqueios e a falta de solidariedade.

6.Saiu imediatamente Roberto Martínez e, numa operação-relâmpago (porque na verdade já estava tudo apalavrado), entrou Jorge Jesus. Com um discurso forte: «A Seleção tem de jogar o dobro», recusando a ideia de que não faz sentido de que tudo fique igual em termos de aceitação do rendimento que se viu durante o Mundial. Ele quer uma equipa mais dominante e intensa. E, na verdade, é isso que essencialmente faltou e tem faltado a Portugal: que não tenha receio em apostar num estilo dominador e que altere profundamente os níveis de intensidade competitiva. E isso Jorge Jesus fez, em todas as equipas por onde passou. Um jogo mais pressionante, mais agressivo (no bom sentido) e mais ambicioso, sempre na direção da baliza contrária, tentando acautelar naturalmente os equilíbrios táticos que qualquer equipa deve promover.

7.Jorge Jesus também disse – e esse é um ponto particularmente sensível – que «Cristiano nunca será um problema para a Seleção». E, de facto, não pode ser. Solução enquanto for solução e, neste Mundial, apesar da má gestão em termos de utilização, percebeu-se que poderia ser solução, gerida de outra maneira. É essa «outra maneira» que Jesus tem nas mãos, quando começar a campanha do Europeu. E Jesus está numa posição ótima: não é ‘ab initio’ hostil a Ronaldo, já o treinou, ganhou dinheiro com ele como ‘promotor’, mas Jesus não é submisso a ninguém, tem sentido de gratidão mas vê as coisas com a distância necessária para colocar os interesses da Seleção acima de outros interesses…

8.… E Jesus tem outra coisa: 71 anos de idade e um contrato de quatro anos, durante os quais vai participar na Liga das Nações 2026/27, no Euro 28 (com a respetiva fase de apuramento) e o Mundial de 2030. Quer dizer: no final do Campeonato do Mundo, que se realiza uma parte em Portugal (e também em Espanha e Marrocos, sem esquecer que Uruguai, Argentina e Paraguai receberão jogos da fase inicial, um em cada país), Jesus terá todas as condições para colocar ponto final na sua carreira, ao lado de uma geração que, em parte, também se despedirá da Seleção. Portanto, Jesus terá um ciclo como selecionador com Ronaldo (que vai gerir de maneira diferente em relação a Martínez) e outro sem Ronaldo. E um contexto diferente, desafiante para ele e para todos os que o acompanham. É um contexto em que não precisa de fazer concessões.

9.Portugal precisa, passe a expressão, de um ‘Exterminador’. Alguém que, no bom sentido, extirpe tudo o que sejam ervas daninhas do terreno da Seleção. Custe o que custar. Doa a quem doer. Jesus já ganhou dinheiro suficiente para não ter de pensar na carreira. O fim da carreira na Seleção Nacional é um cenário excelente. Com e sem Ronaldo. Mas com a noção de que não há lugar para amuos, sabotagens ou falta de compromisso.

10.Por um Portugal (a partir da FPF) finalmente ‘livre e independente’. Livre das influências de empresários, comerciais e de outros agentes especialistas em pressões, que têm de perceber o seu lugar. Não podem entrar na cabina. E, na cabina, ninguém manda mais do que Jorge Jesus, como ele próprio expressou dando o exemplo de Neymar. E, se bem conheço Jorge Jesus, ele é capaz de reduzir o contrato de 4 anos a 4 meses, se não for feito dentro e fora do campo aquilo que ele quer: sem contemplações. É disso que precisamos e se houver hesitações cá estaremos para as assinalar. Vitinha, Bruno Fernandes, João Neves são grandes jogadores? Sem dúvida! Eles e outros têm de jogar o dobro na Seleção. Tão simples quanto isso!

O Exame

MESSI – 17
Joga e faz jogar, num Mundial em que é principal figura

ESPANHA – 16
Equilíbrio a defender e a atacar. Uma ‘maquinazinha’ eclipsou a França

ARGENTINA – 16
Não tem sido só mérito (’muito colo’), mas impecável na eliminação da nada esperta Inglaterra

LUÍS NEVES - 0
Uma deceção. A forma como defendeu F. Gomes (FPF/CO) não foi bom prenúncio. Amizades e conflitos de interesses não se podem confundir com a integridade do Estado