quarta-feira, 22 jul. 2026

E pronto: o Benfica (não) tem dois treinadores!

Mourinho ainda debaixo de contrato (mas já sem carro). Marco Silva já está a trabalhar (invisivelmente) para os ‘encarnados’, sob a saga de um conflito de interesses que tem Jorge Mendes no ‘centro do furacão’.

1.Tudo claro, no essencial, a partir de agora: José Mourinho ainda tem contrato com o Benfica, mas será o treinador do Real Madrid, se Florentino Pérez vencer as eleições deste domingo. Marco Silva foi o técnico escolhido por Rui Costa para começar, OFICIALMENTE, a trabalhar para o Benfica logo que o Real deposite os 15M€ correspondentes à cláusula de rescisão. No entanto, INVISIVELMENTE, Marco já começou a preparar a próxima época, mas - como diz o outro - ‘ninguém pode saber’. Pelo menos até que sejam conhecidos os resultados das eleições madridistas. Quer dizer: entre esta terça-feira e o próximo domingo, o Benfica tem dois treinadores principais. Mas só tem um. Confuso? Nem por isso. A partir de agora, tudo claro. Excepto se Enrique Riquelme vencer as eleições do Real, o que é tão improvável quanto encontrar um português em Marte a assar sardinhas.

2.O mais caricato de tudo é que o Benfica chegou à ‘solução-Marco’ no meio de uma tempestade transformada em mar chão. A tempestade de um manifesto conflito de interesses que o Benfica decidiu relativizar e que já referi, nestas colunas, relacionado com o posicionamento do empresário Jorge Mendes, que vai ganhar do Real Madrid e do Benfica, uma vez que, na qualidade de representante de José Mourinho e Marco Silva, intermediou as duas operações (Mourinho-Real e Marco-Benfica), já para não falar do momento em que finalizou formalmente o momento em que o ‘Special One’, ex para muitos, entrou na Luz para fazer aquilo que supostamente era necessário e cujo desfecho - não poupemos nas palavras - foi um flop.

3.A meio do mês passado, aliás, eu já tinha dado os parabéns a Jorge Mendes, que considerei sempre e ainda considero o grande vencedor deste insólito e inusitado processo. Recordo o que escrevi aqui: «Parabéns, caro Jorge. Ganhou em toda a linha!».

Vamos ser muito claros, agora que vai começar a fase de rescaldo e a ‘era Marco Silva’.

Como já disse publicamente, e valendo o que vale, estou muito à vontade para falar deste tema - vamos chamar-lhe o tema Mourinho - porque (alínea a) apoiei a contratação do treinador português mais titulado de sempre e achei que, com ele, noutro pressuposto, era mais fácil o Benfica mudar de patamar, através de um treinador-líder que o ‘mundo do futebol’ identifica, não apenas pelo número de proezas mas também pela sua capacidade de agir e reagir perante o sucesso e o insucesso. Como observador, a convicção de uma aposta feliz com ele na Luz nasceu daquilo que sempre considerei uma prioridade para o Benfica: investir numa inabalável cultura de exigência, que fosse plasmada desportivamente através de cuidados muito rigorosos com a escolha dos jogadores e dos treinadores e com a forma de lidar com o mercado. E pensei que Mourinho era o portador dessa exigência necessitada urgentemente no Benfica, sob a supervisão óbvia (mas consentindo a ‘Mourinhização’ do futebol encarnado) de Rui Costa. Isso terá feito confusão a muita gente.

4.Nunca se pode pedir a um presidente que seja uma lesma. Pede-se a um presidente que saiba agir de acordo com as características do treinador que contratou. E, como sempre disse, Mourinho nunca poderia ser tratado como um boneco dos desenhos animados. Agora sabemos: diplomaticamente, a incompatibilidade afirmou-se, mesmo que ninguém, por ora, o queira assumir.

As relações entre presidentes e treinadores ‘maduros’ no futebol são como os dióspiros: se não são tratados com cuidado, desmancham-se.

Pensei que era possível estabelecer esta ligação, uma ligação forte, com proveito para o Benfica. Mas não foi.

5.Entra aqui a alínea b) porque, de boa fé, e sempre com o desejo de ver tudo o que se relacione com o futebol português num patamar cada vez mais elevado, quer no plano da qualidade de jogo, quer no plano da transparência e da verdade desportiva, estando à vontade com a ideia de ver Mourinho a contribuir para aumentar os níveis de visibilidade da Liga portuguesa, também estou à vontade no âmbito da interseção de Mourinho com a presidência de Rui Costa, uma vez que, valendo o que vale, repito, dei ao atual presidente dos ‘encarnados’ - no contexto de ninguém se ter afirmado como alternativa durante a campanha eleitoral - o crédito necessário para ser reeleito e poder cumprir o quadriénio 2025-2029.

Por isso, estou à vontade.

6.Tão à vontade para dizer a Rui Costa algumas coisas, outra vez sem poupar nas palavras.

1.ª coisa: por mais que os adeptos se possam manifestar, nas bancadas ou à porta do centro de estágio no Seixal, um presidente tem de estar acima dessas pressões, não as ignorando;

2.ª coisa: por mais respeito que possa existir pelas opiniões de quem o cerca, a opinião do presidente tem de prevalecer sobre todas as outras, mesmo que num determinado momento se sinta isolado ou sinta o desconforto de alguém que lhe manifesta apego, cumplicidade, solidariedade, e não estou a referir-me a ninguém em particular;

3.ª coisa (muito relevante no processo como assinalei nesta tribuna): por mais força que um agente de jogadores e treinadores pode ter, neste caso Jorge Mendes, o presidente nunca pode ficar nem aprisionado nem apanhado numa ratoeira. E disso já trataremos, um pouco mais à frente.

7.Posto isto, podem dizer-me que, a ser concreto o interesse do Real Madrid (houve gente internamente a achar que não existia e que era puro bluff), a saída de Mourinho seria sempre inevitável. Talvez. Mas o Benfica não soube nem passar esse ónus para o lado de Mourinho e de Jorge Mendes para poder ficar por cima publicamente sobre a forma como conduziu o processo e ficou numa espécie de masmorra, à espera que Mourinho, Mendes e sobretudo Florentino Pérez lhe dessem a chave (leia-se 15M€) para o tirar da cela e da prisão.

8.Este é o ponto: o Benfica deixou-se manietar e prender, numa teia montada por Jorge Mendes, com a luz verde (neste caso, a luz branca) de Florentino e, claro, de José Mourinho e é claro que houve um momento em que ambas as partes fizeram constar que estava tudo alinhavado, numa dança que se iria transformar na ‘Última Tanga da Luz’ numa readaptação do polémico Último Tango em Paris dirigido por Bernardo Bertolucci (neste caso dirigido por Jorge Mendes) e interpretado por Marlon Brando (neste caso José Mourinho) e Maria Schneider (neste caso Rui Costa), em ambas as películas com um desfecho trágico.

Depois de ver Jorge Mendes, Mourinho e Florentino Pérez tomarem conta do processo, num casamento à espanhola em que o noivo se casara com o padrinho da noiva (que iniciou a boda, incluindo banho turco e tudo), dei comigo a pensar: então o meu caro Rui foi enganado pelo ‘padrinho da noiva’ e ainda vai deixar que esse padrinho seja outra vez a estrela de um segundo casamento, cedendo à tentação de trocar alianças com Marco Silva?!…

Confesso que pensei: como é possível? Marco Silva - independentemente do seu valor como técnico - outra vez no tapete vermelho da cerimónia de união, a levar com quilos de arroz e rosas vermelhas escolhidas para a ocasião?

9.Pensei que Rui Costa depois do jeito que lhe deu o nome de Mourinho, não se queria aprisionar com a ‘Mourinhização’ e que tinha iniciado um processo de libertação para impor o seu presidencialismo. Tese negada, obviamente, a partir do momento em que não cortou com a dependência do ‘padrinho’, mesmo que tivesse de escolher um treinador estrangeiro. Sem vícios e com vontade de se impor.

Não sei, sinceramente, até que ponto isso irá afetar o resto da sua presidência, mas confesso que o vejo ‘em perigo’.

10. Muitos podem pensar que a época está outra vez perdida. O futebol - para manter a linguagem cinematográfica - recorda-me um outro filme, dirigido por Fernando Arrabal, com cenas, até, de canibalismo: Irei Como um Cavalo Louco. Talvez a ‘loucura’ possa ajudar alguma coisa, porque para trágico-comédia já chega o que chega. E o Benfica não merece tanta instabilidade - o seu problema maior. Trocar a ‘Mourinhização’ pela ‘Mendização’ do Benfica não sei se vai ser bom ‘negócio’ para o clube da Luz. Agora há Marco Silva. Vamos ver a diferença que vai conseguir estabelecer. Rui Costa tem agora a derradeira oportunidade para provar que nasceu para ser presidente do Benfica, depois de ter sido absolutamente magnífico como jogador de futebol.