quinta-feira, 14 mai. 2026

… E o ‘manto verde’ vai para Rui Borges!

Onde se fala, a propósito de ‘manto(s) verde(s)’, que é muito difícil ficar calado no futebol em Portugal.

1.No futebol português é muito difícil ficar calado, sobretudo quando o ruído é Rei.

Em Portugal, no entanto, as entidades com capacidade de decisão foram sempre muito suscetíveis ao ruído. O problema não pode deixar de ser apontado a quem faz esse ruído, obviamente, ainda por cima quando há a convicção de que o ruído é mesmo pelo ruído, mas sobretudo a quem o consente.

2.Nenhum português adepto de futebol terá a convicção de que a autoridade da bola indígena está na FPF e na Liga. Não se ouve uma posição firme quando o ruído é gratuito e intencionalmente feito para pressionar os órgãos decisórios federativos, com incidência especial para os setores da arbitragem e da disciplina e, por isso, há muito que a opinião pública gerou a sensação de que não será por ali que o dirigismo clubístico será refreado nos seus excessos, como tem sido evidente ao longo desta temporada.

Ninguém tem dúvidas de que, durante anos, as pressões feitas de diversas formas, principalmente sobre o setor da arbitragem, geraram pontos. E este é o ponto – e a razão pela qual não se abandona esse procedimento tão real quanto identificado e devidamente criticado.

3.A autoridade no futebol em Portugal não está onde devia estar, porque, se estivesse e fosse exercida, muitos dirigentes e até alguns treinadores não agiriam como têm agido, no exercício das suas funções nos respetivos clubes.

Há um padrão crónico de alijar responsabilidades – e isso torna-se muito evidente quando os três ‘grandes’ não ganham.

A regra é fazer ruído. Devia ser a exceção, até por uma questão de defesa de reputação e credibilidade, perante as quais já quase ninguém liga.

O presidente da Federação, Pedro Proença, já anunciou a vontade e o reconhecimento da importância do endurecimento das medidas disciplinares, mas bem sabemos que entre as declarações de intenção e a concretização dessas medidas, tantas vezes anunciadas, há sempre qualquer coisa que falha. Ou os ‘miasmas’ da autorregulação (que atravessam corredores demasiado compridos e com muitos obstáculos no seu caminho) ou outra coisa qualquer, por exemplo meros estados de alma.

4.O silêncio em excesso também é ruído. E, portanto, o futebol português vive nesta ambivalência entre o ruído e

o silêncio.

Neste quadro, fica muito difícil estabelecer o equilíbrio.

Foi aquilo que Frederico Varandas tentou fazer após o Aves-Sporting, em cujo jogo assistimos a um erro clamoroso de arbitragem, um dos maiores desta Liga, uma vez que foi cometido depois de o juiz de campo ter contrariado uma indicação (certa) dada pelo VAR.

5.O presidente dos ‘leões’, perante a dimensão do erro e das suas possíveis consequências, e provavelmente porque, não obstante a ‘violência’ das suas palavras em 25-26 atiradas sobre André Villas-Boas (principalmente) e Rui Costa, tem tentado impor a ideia de que o Sporting é um clube diferente, decidiu não reagir ‘a quente’ – e, de facto, esse é o procedimento correto, num quadro geral de normalidade que não existe. É muito difícil ficar calado no futebol em Portugal, mas ficar calado (perante o erro) tem de ser uma regra assumida voluntariamente no plano institucional, ou através dos regulamentos ou através de pactos de regime.

Não falou Frederico Varandas; falou Rui Borges. E falou, ironicamente, do ‘manto verde’, para além de ter falado, ao intervalo, com o árbitro, quebrando um hábito de contenção que sempre quis protagonizar.

Era difícil ficar calado? Era. Mas também acho que é – como dizer? – ‘inconstitucional’, os árbitros não terem a liberdade de criticar os erros de treinadores, jogadores e dirigentes. É a democracia do futebol com as suas nuances muito particulares.

6.Não posso ter contemplações para o árbitro Pedro Ramalho que dirigiu o Aves-Sporting e, ao mesmo tempo, não posso deixar de sublinhar o comportamento do VAR, João Casegas, que sinalizou a infração evidente mas que o seu colega, depois de ver as imagens no ecrã, entendeu não validar.

Não sei se foi apenas incompetência, se foi apenas teimosia ou outra coisa qualquer.

Sei que Pedro Ramalho traiu não apenas João Casegas, que estava na Cidade do Futebol, mas sobretudo traiu o espírito do VAR e a verdade desportiva. E é isso que, perante situações evidentes, não pode ser tolerado, e esperamos que o Conselho de Arbitragem tenho aprendido a lição de que há árbitros que, à partida, não reúnem condições para dirigir jogos em que podem estar associados ganhos ou perdas de dezenas de milhões de euros. E os erros grosseiros, como foi este de Pedro Ramalho, têm obviamente o mesmo valor, se estivessem em causa prejuízos para o FC Porto e/ou para o Benfica.

7.Isto iliba o Sporting das suas próprias insuficiências e debilidades?

É preciso dizer, com todas as letras, que não. O Sporting teve enormes culpas no desfecho da partida e não vale a pena invocar o argumento do desgaste. Porque o desgaste gere-se e, quando não se gere, é porque algo não foi bem feito. Sim, as lesões também contam, mas todas as equipas estão sujeitas a cansaço e lesões, sobretudo aquelas que, como o bicampeão Sporting, se querem manter no patamar mais elevado.

O Sporting, apesar de ter eliminado o FC Porto da final da Taça de Portugal, saiu muito machucado do Dragão e a gestão de Rui Borges para o jogo das Aves foi um misto de necessidade e excesso de confiança, a aferir pelo onze inicial apresentado.

Não esteve bem Pedro

Ramalho como não esteve bem Rui Borges como não esteve bem a esmagadora maioria dos jogadores do Sporting.

8.Os ‘leões’ começaram a época com a aspiração de conquistar o ‘tri’, foram dividindo favoritismos com o FC Porto, passaram depois a ser favoritos na luta pelo segundo lugar com o Benfica e apesar de se apresentarem muito bem colocados para vencer a Taça de Portugal (sem menosprezo pelas hipóteses do Torreense) estão debaixo de pressão para não acabarem o campeonato na terceira posição – algo que chegou a parecer mais do que improvável.

9.Apesar disso, Frederico Varandas entendeu renovar o contrato de Rui Borges até 2028. É uma decisão – como dizer? – ‘à Varandas’. Uma decisão fria, preparada com tempo e não totalmente dependente dos resultados. Apesar do comportamento e das palavras mais recentes, Rui Borges protagonizou um registo que agrada ao presidente do Sporting. Varandas viveu um tempo longo (e bem sucedido) na sombra de Ruben Amorim. Talvez não queira mais sombras para impor um Sporting definitivamente presidencialista. E até 2028 terá tempo para isso e ainda contará com mais 2 anos até ao fim de mandato.

10.O Sporting fez (e está a fazer) coisas boas ao longo da época – até na Champions –, mas, na fase mais importante, perdeu-se. A começar pelo treinador, que veio falar do ‘manto verde’ quando, antes, eram só rosas, libelinhas, fadas-madrinhas (acompanhadas dos seus padrinhos) e duendes na terra da fantasia. O Sporting está a um passo de voltar, também, à terra do quase. É um drama? Não. Mas, às vezes, aquilo que parece ser… não é.

Frederico Varandas deu o ‘manto verde’ a Rui Borges, acrescentando mais um ano ao contrato (até 2028). É um voto de confiança, sem dúvida. Varandas fez com Rui Borges aquilo que Rui Costa (ainda) não fez com Mourinho.

Tenho poucas dúvidas de que ambos os presidentes estão a falhar os ‘timings’.

Veremos.