1.Apesar de um Grupo (K) relativamente acessível, composto na primeira fase por Congo, Uzbequistão e Colômbia, este insólito Campeonato do Mundo disputado em três países, Estados Unidos, México e Canadá, e dominado até agora pela dificuldade de algumas seleções favoritas não se conseguirem afirmar no jogo inaugural, como foi o caso de Espanha e Brasil, para além das dificuldades sentidas pela Suíça, Bélgica e Países Baixos, também colocou Portugal no centro das atenções da imprensa internacional, e isso deve-se ao facto de contar nas suas fileiras – diga o que se disser – com Cristiano Ronaldo, que antes da sua estreia frente à equipa congolesa viu o seu ‘rival’ Messi fazer uma exibição de encher o olho frente à Argélia, com um hat-trick de se lhe tirar o chapéu, e o astro argentino já é, com 16 golos, o melhor marcador de sempre desta prova, ao lado do alemão Miroslav Klose.
2.Messi entrou em campo ‘mais cedo’ em relação a Portugal e no duelo eterno com Cristiano Ronaldo. colocou pressão extra sobre o nosso ‘capitão’, que precisava de tudo para a sua estabilidade menos de um hat-trick de Lionel Messi antes da sia estreia com o Congo. Isso iria motivar o nosso ‘capitão’ ou criar-lhe uma pressão supletiva capaz de o condicionar?
3.A resposta não é inequívoca, em função do desfecho do jogo com o Congo (empate a uma bola) e da exibição global de Portugal. A desinspiração coletiva foi evidente, apesar do golo madrugador de João Neves e do começo prometedor da equipa das quinas. E, portanto, perante o rendimento insuficiente da maioria dos jogadores, fica difícil isolar Cristiano Ronaldo do contexto dominante.
4.Acresce que se confirmou aquilo que se sabia e fui dizendo nos últimos dias. Era preciso não menosprezar o potencial da equipa congolesa, que na sua fase de qualificação conseguiu alguns resultados interessantes (nomeadamente, frente aos Camarões e à Nigéria) e a exteriorização de um estilo de jogo que era preciso considerar. E a verdade é que as estatísticas dizem alguma coisa sobre o que foi o encontro. Portugal foi uma equipa de posse (75% contra 25%), mas esse, contraditoriamente ou não, foi um dos problemas da seleção nacional. Demasiada posse, excessiva lateralização e pouca velocidade e profundidade. A escassa dinâmica foi lateral e não vertical e o Congo criou dificuldades porque tentou esticar o jogo no contra-ataque. Os africanos fizeram mais um remate e isso diz muito de um adversário (luso) que teve 75% de posse de bola.
5.É um drama o empate no jogo inaugural? Não! Também a Espanha e o Brasil empataram o jogo inaugural, com exibições igualmente muito incompletas. Mas há muita coisa que não está a bater certo, e isso nem sequer é de agora. Tudo começa no estilo de jogo: a preocupação de ter a bola gera um dinamismo contraproducente. Ter bola é importante desde que ela seja utilizada debaixo de um principio técnico-táctico ao contrário daquele que Portugal exibiu com o Congo.
6.O golo da equipa africana foi um momento inquietante, porque Wissa explorou um ‘buraco’ inacreditável na defesa e deu o estímulo de que o Congo precisava. Tomás Araújo mal colocado, má relação entre a marcação à zona e as marcações individuais. Esse golo fez com que a equipa africana acreditasse que povoar o seu meio-campo e apostar no contra-golpe iria ser uma fórmula de sucesso. E foi. Porque empatar com Portugal teve sabor a vitória.
7.As críticas voltaram-se outra vez para Cristiano Ronaldo, aqui em Portugal o bombo da festa. São pessoas de todo o Mundo para ir ver Cristiano Ronaldo atuar, ou para tentar um autógrafo ou um mero contacto visual, cujo fenómeno não tem comparação com mais nenhum ‘astro da bola’, mas a intolerância perante movimentações mais apertadas é brutal. Já repeti a ideia de que o uso da fórmula 1+10 ou 10 +1, considerando o ‘isolamento’ de CR7 nas manobras técnico-táticas dentro do campo ou nas dinâmicas no intervalo dos jogos e das competições, é a pior coisa que pode acontecer à seleção portuguesa. Mas… o selecionador acha alguma coisa? Não foi ele contratado para dar sustentação ao estatuto de CR7, depois da fricção que aconteceu com Fernando Santos no Mundial do Qatar? O ex- selecionador nacional na altura colocou Cristiano no ‘banco’ e isso criou uma clivagem que acabou com a saída de Fernando Santos da FPF. Para manter CR7 ativo na seleção nacional, o ex-presidente Fernando Gomes foi à procura de um perfil de selecionador capaz de gerir as expectativas do ‘astro’ e ‘capitão’ português. Admitiu-se que Martínez fosse capaz de usar a sua autonomia para fazer uma gestão de utilização de acordo com a ‘resposta’ técnica, tática e física de Cristiano Ronaldo. Contudo, a marca e o poder que CR7 construiu à sua volta, acima da sua qualidade de futebolista, diminuíram progressivamente a capacidade de intervenção deste selecionador.
8.Sempre fui a favor da ideia de que este Campeonato do Mundo deveria servir, primeiro, para Portugal materializar a ideia de ser uma grande seleção à escala global, pelo facto de muitos dos seus jogadores competirem na Europa ao mais alto nível, mas também para consagrar Cristiano Ronaldo, em final de carreira. Nunca defendi que o ‘capitão’ deva ser sempre titular mas, sem omitir as suas responsabilidades nas exibições menos conseguidas, também não alinho no critério manifestamente diferente que é utilizado na avaliação do rendimento de outros jogadores – e muito mais jovens. No jogo com o Congo, Ronaldo não esteve muito em jogo, mas… quem é que esteve? Bernardo Silva? Bruno Fernandes? As dinâmicas de jogadores de indiscutível qualidade como são Vitinha e João Neves (belo golo… de cabeça!) foram no sentido de potenciar um jogo de maior volume ofensivo? Não me parece, mas a questão está no perfil de jogo que Martínez desenha: demasiado lateralizado, sem apelo ao remate e à presença mais forte na área e nas suas imediações.
9.Parece-me evidente que Martínez já deve estar a fazer contas à sua vida e também ele me parece preocupado com certos equilíbrios relacionados com o mercado, que podem estar dependentes ou não de… Cristiano Ronaldo. Isso não invalida que seja selecionador até ao fim. E, nessa qualidade, fazer o que tem a fazer para mudar aquilo que precisa de ser mudado com vista ao jogo com o Uzbequistão, que de repente assumiu uma importância que à partida não seria tão decisiva.
10.Não me fez sentido ver Trincão e João Félix fora das opções para o jogo inaugural, pelo menos para poderem ser solução durante a partida, saídos do ‘banco’ e houve um tempo em que, nomeadamente João Felix, não estava em condições para ser convocado e, agora que atravessa um bom momento de ‘forma’, não ser utilizado quando podia ser, até, um elemento de melhor ligação com Cristiano Ronaldo. Os laterais precisam de ser mais ativos, Bruno Fernandes subir de rendimento e haver um espírito coletivo que não existiu com o Congo.
Há razões para preocupação em relação ao apuramento para os dezasseis-avos de final? Era o que faltava, porque a chave de apuramento está muito facilitada. Nos jogos a eliminar, contudo, não podemos repetir a exibição do jogo com a equipa africana. Martínez não pode voltar a ser o aspirador que suga o talento e a liberdade dos jogadores mais criativos. É preciso reformular a mentalidade e a capacidade de empolgamento. Se a orquestra tem ‘violinos’, por que razão só se fazem ouvir os ‘ferrinhos’.
Esta Seleção tem tudo para se empolgar, para dar espetáculo, mas para isso há que apostar numa dinâmica de simplificação de processos. Há muita informação tática e os jogadores parecem todos muito condicionados na relação entre o espaço e o tempo. E não pode ser ‘apenas’ a humidade. Com humildade, mas com iniciativa e ambição, Portugal pode e tem de ser muito melhor. É nisso que acredito, apesar de tudo.
Portugal não esteve bem no seu jogo de estreia do Mundial, com o Congo, e, se repetir a ‘dose’ com o Uzbequistão, mais vale chamar Jorge Jesus em antecipação… Uma ‘chicotada’ durante o Mundial é de evitar mas, se for necessário, Proença deve estar preparado para isso, em… SOS!