Não sei se é creolina, amoníaco, lixívia ou outro produto de limpeza. Sei que é preciso usar as mãos - como no andebol - para o aplicar e o mais aconselhável, calculo, é que seja com luvas, e perceber-se-á que não terá de ser um guarda-redes a ser o infetador-mor.
Há demasiadas histórias, no desporto português, agora no andebol mas também no futebol um ror de vezes, em que os balneários das equipas visitantes exalaram um intenso odor a um produto que pode provocar alteração do batimento cardíaco, irritações que levam a condicionar a atividade do aparelho respiratório.
Isto, atente-se, e aqui sem trocadilhos ou ponta de ironia, no Desporto. Sim, no Desporto, que transporta atrás de si (ou deveria transportar) o rótulo de uma atividade saudável.
Ai os rótulos!
Talvez seja um transtorno obsessivo-compulsivo, qualquer coisa como misofobia, que corresponde à mania das limpezas.
Uma coisa eu já sabia: o futebol português precisa de uma limpeza profunda nas suas mentalidades e comportamentos e vem afastando muita gente de bem da modalidade, que - apesar das perdas - vai resistindo a tudo.
Tenho-o dito ao longo dos anos, vejo muita gente crítica a afastar-se mas o poder de atração das manobras laterais tem mais força do que qualquer germicida utilizado de boa-fé, efetivamente para matar os micro ou macro-organismos que não perdem uma oportunidade para poluir o ambiente.
Agora foi no FC Porto-Sporting, em andebol, realizado no Dragão Arena, que os leões venceram por 30-33 e, antes do jogo, começaram a circular informações segundo as quais o balneário da equipa lisboeta havia sido dominado por um odor intenso, descrito pelos visitantes como tendo um efeito adormecedor, o que atrasou o começo da partida entre 15 a 20 minutos, com o Sporting a jogar sob protesto, uma vez que o treinador Ricardo Costa e o pivô Moga precisaram de assistência médica, prestada no local e, ao contrário do que chegou a ser noticiado, estes dois elementos dos leões não chegaram a ser observados no hospital, uma vez que, segundo apurei, ambos - depois de assistidos - ficaram num corredor do pavilhão até final da partida.
Sem absolver nada de criticável que possa acontecer na jurisdição dos principais rivais da liderança de AVB (refiro-me ao ‘Sporting de Varandas’ e ao ‘Benfica de Rui Costa’), esta semana - passa além deste caso do andebol que deveria ser encarado como um caso de polícia e que seguirá os seus trâmites na esfera disciplinar - o atual presidente do FC Porto voltou a colocar-se nas bocas do mundo por algumas declarações que produziu no sentido de se sentir de novo vítima do centralismo, e está a fazê-lo de forma reiterada e crescente a ganhar, num momento em que no futebol comanda a Liga com 7 pontos de avanço sobre o Sporting e o Benfica, embora os leões tenham um jogo em atraso.
Toda a gente percebe que a obrigação de um presidente é defender os interesses do seu clube, mas sempre dentro daquilo que são os limites da intervenção pública, considerando a lei, o enquadramento regulamentar, o estatuto de utilidade pública (aplicado ao Clube propriamente dito) e naturalmente os mínimos que se exigem no âmbito da ética desportiva, perante a qual muitos troçam porque, no seu entendimento e lógica de intervenção, acham a ética uma coisa desprezível e quase inconstitucional.
É neste ponto em que estamos - e o comunicado do Sporting considera mesmo «absolutamente repugnantes» as sucessivas ações que o FC Porto tem vindo a protagonizar nos últimos tempos e solicitou uma reunião com a ministra da Cultura, Juventude e Desporto [Margarida Balseiro Lopes], que se realizou nesta quarta-feira e cujas consequências vamos conhecer nos próximos dias. Serão dias, meses ou o tempo suficiente para o assunto cair no esquecimento, como já aconteceu em tantos outros escândalos? Sirvo-me do que é dito no comunicado dos leões para defender uma ideia que se deve aplicar a todo o movimento associativo: «Não é possível continuar a assistir a esta sucessão vergonhosa, reiterada e deliberada de comportamentos sem que daí advenham consequências imediatas e exemplares».
Diz ainda o comunicado do Sporting: «É essencial que quem regula o desporto em Portugal assuma uma posição firme e implacável e puna, com toda a severidade, estes comportamentos indignos, que já ultrapassam os limites admissíveis num Estado de direito». Se ainda subsistia alguma ilusão ingénua de que as práticas obscuras do passado tinham sido erradicadas, a realidade encarregou-se de a destruir de forma brutal e inequívoca. E diz mais: «O que hoje se verifica não é apenas uma repetição: é uma escalada refinada. Mais vil, mais rasteira e ainda mais inqualificável do que os episódios mais negros que mancharam o desporto português».
O comunicado do Sporting tem outras passagens que merecem reflexão, quando se fala de «desvirtuamento da verdade» e da «subversão absoluta dos valores que devem reger qualquer prática desportiva, protagonizada de forma consciente, reiterada e sistemática pelos mesmos intervenientes de sempre».
Ninguém se pode colocar de fora em relação às práticas do passado (nem o Sporting, com os seus ‘Pereiras Cristóvão’) e não deixa de ser curioso ouvir Paulo Bento dizer, por outras palavras, que o VAR, apesar da sua margem de progressão, que defendo há muitos anos, veio colocar em causa a bipolarização do futebol português, dando a entender que, sem ele, os leões não teriam qualquer hipótese de chegar mais vezes ao título, como aconteceu nas últimas duas épocas.
Há décadas que quem governa Portugal assume uma posição de indiferença e até de patrocínio sobre situações que adulteram a verdade desportiva. Tudo se tem perdido na dialética entre os clubes dominantes e as turbas que, pressionadas por dirigentes pouco preocupados com pedagogia e outras ‘excrescências educativas’, geram uma atmosfera de bloqueio em que os governos não se querem meter, a não ser quando é para medalhar ou participar em galas.
É neste passo que, sempre que se apela à intervenção do Estado, normalmente isso dá-me vontade de rir. Porque eu próprio, como analista do fenómeno desportivo há uns anitos, já disse que a vergonha instalada no desporto português já deveria ter tido uma intervenção estatal firme e indiscutível sobre o não acatamento de práticas que ferem o espírito desportivo e a integridade das competições, mas o Desporto é o parente pobre das tutelas políticas e são a sua base de divertimento e, como não conheço a ministra Margarida Balseiro, não quero deixar de lhe conceder o benefício da dúvida, mas tenho a certeza de que, na sua dependência, ou os secretários de Estado não têm qualquer força ou se apresentam esvaziados pelo poder da Federação. E são usados e ignorados sem dó nem piedade. Por culpa própria, acrescente-se. Onde tem andado o secretário de Estado Pedro Dias, que só agora aparece na esfera pública e por solicitação dos clubes envolvidos num caso (andebol) e quando o Ministério Público instaura um inquérito criminal, considerando que os factos noticiados podem configurar crimes de natureza pública.
E, repito, é neste ponto de decadência em que estamos. E é bom que os que se mantêm de braços cruzados tenham noção das suas responsabilidades, porque a situação é séria e merece ação urgente e determinada.
Villas-Boas coloca-se no centro de todas as atenções (até porque o FC Porto nega o que, apesar da documentação fotográfica, se passou no balneário do Sporting), porque o caso do andebol vem na sequência de outros casos do futebol - e é o futebol que está na base de uma dirigismo clubístico que não pode deixar de ser uma extensão dos seus presidentes.
Chegados aqui, e considerando que André Villas-Boas até acusou esta semana a Direção da Liga de «influir no desfecho do campeonato», o que não deixa de ser surpreendente porque é o FCP que está a liderar a prova mais importante do calendário futebolístico nacional (o que poderão dizer os rivais no final se AVB for campeão?), o que importa compreender e tentar desconstruir é aquilo que muitos ainda não entendem sobre a aparente transformação (terá sido afinal uma encenação?) do atual presidente portista e cuja desmontagem pode estar contida nas seguintes 10 importantes perguntas:
1. Não é verdade que, há 15 anos, quando era treinador do FCP, AVB já falava, embora mais moderadamente, em ‘força mediática concentrada em Lisboa’ e - volto a citar - ‘o FCP está habituado a vencer contra tudo e contra todos, independentemente do contexto médiático’?
2. Há ou não uma ligação muito estreita entre AVB e Adelino Caldeira que sempre foi muito próxima e se cimentou depois do treinador ter saído para o Chelsea?
3. Caldeira é, ou não, a pessoa que mais influência possui junto de AVB, mesmo acima de Antero Henrique (com ligações a Tiago Madureira) e Raul Costa, os artífices do seu poder e forma de atuar?
4. Adelino Caldeira e Antero Henrique (principais motores da candidatura de AVB) são, ou não, as duas faces da mesma moeda?
5. Caldeira continua, ou não, a ter o expediente jurídico do FCP e testemunha em processos judiciais?
6. Caldeira era ou não o administrador responsável pela bilhética no FC Porto?
7. Nestas condições, o que se pode esperar do processo judicial que envolve a bilhética?
8. Quando 80% dos sócios que votaram em AVB sabiam que estavam a votar também, indiretamente, em Adelino Caldeira?
9. A fórmula que encontrou (há 25 anos) para desanuviar o clube financeiramente cria-lhe uma pressão acrescida?
10. Em que ponto ficam as promessas de não pactuar com quem nos últimos anos prejudicou a imagem e o património do FC Porto e em que ponto está a promessa de não perdoar quem lesou o FCP?
São as respostas a estas perguntas que podem ajudar a explicar não apenas o comportamento de André Villas-Boas e, sobretudo, quem é, realmente, André Villas-Boas. Há quem diga que é uma extensão com aparência mais sofisticada em relação a Pinto da Costa. Mas o que talvez seja interessante refletir é no facto de AVB ter dado a entender que o FCP não podia continuar a assentar a sua gestão nos alicerces que sustentavam o edifício de Pinto da Costa e afinal pode estar ligado a eles de uma forma que ninguém imaginaria.
Será que afinal André Villas-Boas é mais passado do que futuro? Eu via o FCP com futuro sob a influência de Pereira da Costa, por exemplo. Não via o FCP nem AVB presos à bilhética.
De que limpeza estamos então a falar?
Não era preciso o ‘caso do andebol’ para se perceber que o movimento desportivo não pode ser deixado à solta, porque não se consegue regular a si próprio.
Frederico Varandas e André Villas-Boas disseram aquilo que entenderam dizer nesta quarta-feira, a ministra Margarida Balseiro serviu de recetora das narrativas de ambos, mas há uma coisa que, a partir de agora, tem de acontecer: mais vigilância, mais responsabilidade e mais Estado… neste estado de pouca-vergonha que atingiu o futebol/desporto nacional.
Os adeptos não se podem perder nas suas fúrias de defender o indefensável. E isso tem a ver com eles, mas sobretudo com as lideranças. É isto que está em causa e são estas lideranças, se for necessário, que têm de ser chamadas à razão. E, se não ouvirem, haver a consciência de que há mecanismos para colocarem certos dirigentes no plano da inaptidão.
Quem ultrapassa os limites no dirigismo desportivo tem de ser considerado inapto. E para isso é preciso haver coragem. Coragem política que é algo que ninguém vislumbra.