1.A Liga 26-27 começa debaixo de um ambiente que não é bom para o futebol português e esta época promete elevar o ruído a níveis indesejáveis, por tudo o que se tem passado nos últimos tempos, agravado com a ameaça de boicote dos árbitros e do conhecimento dos áudios que, colocados na praça pública, adensaram a convicção de que há uma influência demasiado significativa e determinante de agentes que não têm nada a ver com o jogo propriamente dito – e isso deveria ser suficiente para se criar, de imediato, uma espécie de alerta geral e agir-se em conformidade.
2.Dirá o leitor: mas onde está a novidade? Pois: essa é a grande questão. Em quase todas as épocas e durante décadas, o futebol vive mergulhado num ambiente de instabilidade e fraquíssima confiança nos principais atores, entre os agentes desportivos. É, de facto, um problema crónico e o que se assiste agora, com uma ameaça de greve dos árbitros entretanto aparentemente resolvida debaixo de promessas que o presidente da FPF teve de fazer para mitigar situações que são da sua responsabilidade, pelas promessas que fez quando passou da Liga para a Cidade do Futebol, é uma extensão de um padrão sistémico que não se altera porque a raiz do sistema não se altera e isso tem a ver com estatutos e a base eletiva de entidades que deveriam apoiar a independência e a credibilidade dos agentes que ocupam lugares de decisão, mas que, ao contrário, são escolhidos a dedo para reforçar posições e para fortalecer certos poderes.
3.O futebol é um desporto popular e de milhões, movimenta muito dinheiro, tem uma componente afetiva e de paixão clubística fortíssima que faz com que os presidentes dos clubes, pressionados pelos adeptos e pelos resultados, tomem decisões, às vezes, muito pouco racionais, e, num país pequeno como o nosso, em que todos se conhecem, é muito fácil criarem-se zonas cinzentas e zonas de bloqueio às quais aqueles que deveriam ser os verdadeiros líderes do futebol português, como o presidente da FPF e da Liga, acabam por se acomodar. Porque, acham eles, o que ganham com os seus silêncios e omissões – considerando que o valor da reputação e credibilidade continua a ter um valor residual – é sempre superior ao que perdem, se tomarem decisões corajosas, fundamentais para a regeneração de um sistema, porque quem tiver uma atitude de procurar atacar os problemas crónicos estará quase sempre condenado a ser marginalizado, principalmente pela elite da corporação.
4.Isso vê-se muito na forma como os lugares são ocupados e a política condescendente e permissiva também tem premiado alguns dos seus atores. Veja-se o que tem acontecido com as presidências da AG da FPF e particularmente a atração que Pedro Proença tem exercido relativamente a algumas figuras governativas, como aqui já acentuei e é muito mau sinal quando o rodízio é farto, através da troca de cadeiras para ficar tudo na mesma.
Quando se levam 30 funcionários da Liga para a FPF; quando se deixa a Liga com um encargo anual pesadíssimo (esforço financeiro de 3M€/ano) em razão da megalomania da construção da nova sede (com custos totais de 26,5M€, com um orçamento inicial de 17,5), subjaz a conclusão de que a FPF se quer tornar mais forte à custa da complexidade da gestão da Liga.
5.O poder de atração e a dificuldade de impor ruturas relaciona-se muito com um poder paralelo que é o poder de captura. Na lógica das relações interpessoais, é tudo muito pequenino, muito mesquinho, em função da grandeza que deveria estar subjacente à liderança de uma instituição de utilidade pública como a Federação Portuguesa de Futebol. Já assinalei, mas é bom que o pulsar dos dias e a dinâmica dos calendários desportivos e os debates mais mediáticos em cima de tudo e de nada, não deixem passar os perigos resultantes da instauração de um regime presidencialista muito perto do absolutismo do ‘Rei Sol’ (L’État, c’ést moi, de Luís XIV, que se pode adaptar ao ‘proençismo’ de acordo com a ideia de que ‘a FPF sou eu’), mesmo que esse absolutismo choque com o livre funcionamento dos órgãos decisórios que têm de agir consoante a Lei, e não por influências de quem quer exercer o mando a todo o custo, mesmo sob ameaça, no caso da famigerada reunião com responsáveis do Benfica, como ficou evidente através daquilo que se sabe do ‘caso dos áudios’.
6.O arranque da Liga 26-27 começa com a desconfiança sobre a arbitragem (esta época promete ser um sarilho dos grandes, porque o setor está frágil e os clubes não vão perdoar nada), eis mais um momento em que, como tenho defendido, se justificaria uma exposição à UEFA por parte da FPF, explicando os contornos da situação existente e solicitando ajuda no sentido de apoio para a disponibilização de árbitros estrangeiros. É claro que é, a nível doméstico, uma situação impopular para o setor, mas o que mais interessa é a defesa da integridade das competições e se uma medida destas deveria ser avançada num contacto macro, isto é, com os árbitros de todas as Federações poderem rodar por todas as Ligas, em contextos de excecionalidade passíveis de serem executados, a verdade é que, mesmo sabendo que Luciano Gonçalves não é a favor da medida (não se alcançando que uma solução destas poderia ter, até, um bom impacto financeiro), não haveria melhor desenlace para sossegar, em Portugal, os espíritos mais inquietos e a potencial conflitualidade que aí vem.
Infelizmente, o interesse maior fica sempre soterrado nas capelinhas lusas. Os clubes continuam amarrados à ideia do poder de influência.
7.Esta Liga 2026-27 começa também com o jogo Benfica-Académico de Viseu… sem público nas bancadas, por força de uma decisão administrativa da APCVD (Autoridade para a a Prevenção e Combate à Violência no Desporto) proferida… em 2024, cujo processo contraordenacional resultou de infrações praticadas em 5 jogos distintos e em conexão processual com jogos disputados em Agosto de 2022 (Midtylland e Arouca) e Janeiro de 2023 (dérbi com o Sporting). A decisão foi de aplicar uma coima de 150 000€ e da sanção de 1 jogo à porta fechada. As sanções foram imputadas ao promotor do espetáculo desportivo (Benfica), resultantes do incumprimento de deveres próprios.
8.A SAD do SLB recorreu para o Tribunal da Relação, mas este não deu provimento e a decisão transitou em julgado. Quer dizer: os clubes/SAD, responsabilizados pelo comportamento dos adeptos, têm de ser menos brandos com aqueles que prevaricam e que colocam em causa o bem-estar e a vontade da maioria cumpridora e, neste particular, a SAD do Benfica não se pode limitar a fazer apelos em forma de comunicado, porque é preciso agir contra aqueles que colocam em causa a imagem, a reputação e também os interesses da equipa (no apoio) e os financeiros. Basta! E isto é válido para todos…
A pirotecnia tem de ser evitada em todos os estádios e os clubes têm mecanismos para atacar este flagelo de uma forma muito mais rigorosa, em forma de controlo. Todos conhecem as técnicas de intrusão dos prevaricadores nesta questão da política de relacionamento com as claques. É urgente acabar com os paninhos quentes.
9.Voltando ao tema das responsabilidades da FPF (sem esquecer a Liga) e de Pedro Proença: não se pode ser tão ambicioso no processo de centralização de poder e de distribuição de mordomias e apresentar-se um relvado como aquele que acolheu a Supertaça em Coimbra. A bota não dá com a perdigota.
10.A forma benevolente como se olha para o palácio tem muito a ver com o facto da FPF ser uma entidade empregadora que exerce um fascínio enorme entre muita gente do futebol que ambiciona ter acesso às mordomias que podem ser proporcionadas. Há diretores que não fazem praticamente nada a não ser viajar e dar a cara. Os acenos ficam caríssimos. Esse fascínio gera silêncios e cumplicidades. Enquanto estivermos neste estádio de mentalidade, o futebol não evoluirá. E Proença ficará cada vez mais parecido com Infantino. Em dimensões distintas.
Exame
LUÍS FIGO
15
Corajoso no seu manifesto anti-Infantino, apesar do latente interesse em posicionar-se
PALHINHA
14
25M€ é muito?! Parece, mas… o que parece nem sempre é. Vejo como aposta certa, mas o Benfica não quer pagar mais do que 15…
G. INFANTINO
0
Expôs-se demasiado, ainda terá apoios importantes, mas perdeu a credibilidade toda, quando está a olhar para interesses próprios e dos amigos