Segunda-feira: debati com os meus alunos a necessidade de equilibro entre firmeza e cortesia no mundo forense (mas poderia ser na vida em geral), tendo-lhes dito que poderia servir como ideal a ideia antiga de divina proporção ou número áureo, tão bem representada por exemplo no célebre desenho Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci; e o debate serve também para outros binómios relevantes, como sejam ousadia e prudência ou segurança e dúvida. E equilibro não significa sacrifício de nenhum dos termos do binómio, significa apenas duas coisas bastante simples, embora igualmente difíceis (até porque a simplicidade custa muito): primeiro, reconhecer o valor dos dois termos e, depois, procurar não puxar de mais num sentido ou noutro. Saí satisfeito da aula, mas depois ao longo do dia e da semana não conseguir evitar sentir-me um pouco fora de moda.
Terça-feira: continuei a sentir-me um pouco (ou mais) fora de moda, ao tentar explicar a um colega, a respeito de umas eleições, como tinha debatido longamente com familiares acerca da ideia deles de que um determinado candidato não merecia o voto porque era, e cito, ‘um choninhas’; defendendo eu que o candidato apenas era moderado, o que é uma coisa bem diferente, e, a meu ver, uma grande virtude (há quem a diga mesmo cardeal). Moderado no sentido de evitar excessos, no sentido do comedimento e da prudência; alguém capaz de controlar a intensidade, de agir com temperança, de evitar extremismos, sem prejuízo de acreditar no que acredita e de procurar agir em conformidade. Mas não sei se levei a melhor no debate com familiares, nem sei se consegui convencer o meu colega das minhas razões. Talvez tenha, afinal, vencido a ideia (popular atualmente) de que quem não extrema e não grita é ‘um choninhas’ e, portanto, um imprestável.
Quarta-feira: dei comigo – ui, tão fora de moda – a pensar que o liberalismo clássico (no sentido fundador de proteção dos direitos individuais face ao Estado, e também face à turba), construído a partir do século XVII, foi uma das maiores conquistas da humanidade, e que a maior ameaça ao mesmo – e que o vem erodindo já há tempo – vem precisamente do extremismo, seja ‘à esquerda’ seja ‘à direita’, ambos portadores de um desejo de ortodoxia(s) asfixiante(s) (o super-eu ou o super-nós). E nenhum dos extremos propõe uma boa alternativa ao liberalismo clássico – continuo eu, teimosamente, a pensar, até que eu dia um dos extremos me dará uma boa cacetada, quando se acabar de cumprir o caminho que vem trazendo a moderação do terreno da virtude para o campo do pecado.
Quinta-feira: olhei, ainda que um pouco de lado para não me deixar encandear, para alguns ecos da discussão à paulada sobre temas de identidade de género, que, aliás, se prestam muito à total ausência de moderação, quando são precisamente temas que, pela sua importância e pela sua delicadeza, a exigem, quer no conteúdo, quer na forma. O que não quer dizer que cada um não tenha as suas ideias, e ainda menos quer dizer que seja obrigatório (ou sequer possível) situar as coisas exatamente a meio. Mas que é possível, e desejável, baixar um pouco o tom e tentar aliviar, ao menos ligeiramente, a corda, isso acho que é.
Sexta-feira: continuei a sentir-me fora de moda, e cansado entre tanta gritaria e tantos repelões a puxar a corda com força ora para um extremo ora para outro. Tão longe que estamos, crescentemente, do ideal da proporção divina. E não posso evitar nem o desgosto, nem a nostalgia.
Advogado