Muitas vezes as coisas estão bem visíveis, mas só damos por elas num dado momento, como se fosse uma revelação, associando ideias ou por outros mistérios do entendimento. Assim foi também comigo há uns dias, quando dei por mim desentendido (em voz alta e com gestos expressivos) com uma senhora a quem dei passagem na passadeira (e não podia ser de outra forma, claro está), mas que, depois de se locomover com calma olímpica até mais ou menos a meio do percurso, se imobilizou de olhos amorosamente postos no telemóvel (aliás, já vinha assim antes de atravessar). Esperei generosamente, talvez até um minuto, e ela nada, nem para trás nem para diante, e eu apitei. Pois bem, destratou-me com furor, e desentendemo-nos. Foi então que a revelação se abateu sobre mim: a pandemia destes tempos e dos tempos futuros não é nenhuma das que por aí se aventam e se temem, nada de hantavírus ou coisa similar, nada de ameaças desconhecidas e por vir; é, isso sim, um problema antigo, que pode ter múltiplas causas, e que dantes era pontual, e agora prolifera rapidamente, em proporção geométrica. Dantes, havia uns casos, aqui e ali, não muitos felizmente. Na vila ribatejana onde vivi dos 4 aos 14 anos, havia uma ou outra pessoa mais velha que sofria disso, costas quase totalmente curvadas, praticamente em ângulo reto, andar difícil, olhar para baixo, dificuldade em encarar com os outros. Lembro-me especialmente de uma senhora, ‘olá, como vai, ‘tá boa?’, e ela, coitada, com esforço, tentava erguer o olhar, esboçar um sorriso e cumprimentar com mal disfarçado sofrimento. Chama-se camptocormia, ou síndrome da coluna curvada, e a IA (não podia faltar) define a coisa assim: «A camptocormia é uma condição em que a pessoa apresenta uma inclinação acentuada do tronco para a frente ao ficar de pé ou caminhar, mas essa curvatura diminui ou desaparece quando ela se deita».
Pois bem, é essa a pandemia que por aí anda e – temo – andará. Os peões não olham em frente nem para os lados, não veem automóveis, nem motos, nem bicicletas, nem trotinetas, e também não se veem uns aos outros. Caminham apenas, curvados sobre o telemóvel; nos passeios, nas faixas de rodagem, nas passadeiras, nas vias para bicicletas e trotinetas (e carrinhos de bebé e corredores matinais ou vespertinos, já agora). Os automobilistas, sempre que podem, nomeadamente no pára-arranca (mas não exclusivamente), não olham, curvados sobre o telemóvel. Os casais (salvas exceções, normalmente no início do acasalamento) não se olham, curvados sobre o telemóvel, e muitas vezes, embora frente a frente, falam-se através do mesmo. Os comensais limitam-se a comer, e não olham, não falam, não escutam, não convivem, curvados sobre o telemóvel. Os irmãos não brincam, não brigam, não pulam, não correm, curvados sobre o telemóvel. Os alunos, muitos deles, se puderem não olham, não escutam, nem querem saber, curvados sobre o telemóvel. Os familiares não se olham, não familiarizam, curvados sobre o telemóvel. E, ao contrário da senhora da minha vila juvenil, perante um ‘olá, como vai?’, muitos nem se dão ao trabalho de olhar para cima ou para o lado, mesmo com esforço, e para um cumprimento ou um esboço de sorriso. E a nova peste vai dizimando um após outro, pondo todos a viver em par, fiel, amoroso e muito dedicado. Eu e o meu telemóvel. Tu também, ele e ela igualmente, nós, vós e eles, cada um com o seu telemóvel. Todos muito sós, mas acompanhados pelo seu telemóvel, de mãos firmemente enlaçadas com ele.
Advogado