A Bárbara é a minha sobrinha mais velha, adolescente ainda, madura para a idade, atenta, e, como acontece hoje com os miúdos (e os graúdos), todos os dias bombardeada com informação (resumida) sobre tudo e mais alguma coisa. E agora anda na fase «o que vou estudar» e põe a hipótese de Direito, o que deve explicar que ultimamente me tenha interpelado algumas vezes sobre temas da área, guiada pelo que vai surgindo na espuma dos dias. Na semana de vintes e poucos de abril, perguntou-me «tio, o que é o DCIAP?», e eu – antes de responder o melhor que pude sobre tal tropa de elite ou vanguarda da classe investigadora – perguntei-lhe a razão da pergunta, ao que ela retorquiu com aquele ar de espanto que os miúdos põem quando são miúdos e estão donos da clarividência: «Tio …, então o tio não sabe da inspeção ao DCIAP que concluiu que tem tido muitas falhas, muita demora, muitos problemas?». Sei, disse eu, e pensei ‘ora, pois sei’, mas não disse mais nada, limitei-me a ouvir o resumo do resumo que ela tinha visto, lido ou ouvido não sei onde, e não acrescentei mais nada, que não se deve traumatizar adolescentes, muito menos quando lhe queremos o bem que eu quero à minha sobrinha. Ela também não precisava de mais informação, já estava suficientemente impressionada com inquéritos (perguntou-me o que era exatamente um inquérito, e eu expliquei) que duram muitos anos, alguns oito, dez ou até quinze. E revirava os olhos, a miúda, e eu não tive coragem de lhe dizer que também podia haver, por exemplo, congelamentos e apreensões de bens anos a fio, sem conclusão do inquérito, ou outras coisas que tais. Madura, mas não exageremos, não vamos matar a miúda com demasiada informação. Como nos filmes, há coisas que são só adequadas a partir de certa idade.
Os dias passaram, e não muitos depois, ainda estávamos em abril, perto do fim, volta ela a interpelar-me, toda animada, como se tivesse caído pelo buraco do coelho e tivesse visto a Rainha de Copas. «Tio?», e eu «Sim?…», e ela «Agora já percebi tudo! Afinal as demoras não são culpa do tal DCIAP, são culpa de um conjunto de coisas que um grupo de trabalho do MP propôs mudar, por exemplo, a falta de sanção adequada a manobras dilatórias, serem os juízes de instrução a analisar os emails apreendidos, os incidentes de recusa de juiz, os recursos para o TC, e muitas mais coisas». Eu fiquei a olhar para ela e pensei em qual seria o melhor modo de lhe explicar que uma coisa nada tem que ver com a outra e que ela estava confundida pela superficialidade dos títulos e dos resumos nas notícias e nas redes e, sobretudo, pela proximidade temporal entre a revelação das desgraças feita pela inspeção e o anúncio das muitas propostas de reforma – pois, por mera mas feliz coincidência, o grupo de trabalho, depois de meses e meses de reflexão, deu precisamente à luz poucos dias depois dos vintes e poucos de abril. Mas, antes de lhe dizer, eu mesmo, talvez um tudo nada confundido também, fui dar uma vista de olhos nalguns processos, dos tais atrasados para lá das calendas gregas, e fui verificar, por exemplo, se no tal dos 15 anos estamos à espera que o JIC veja alguns emails, ou se houve manobras dilatórias (arguidos falecerem não conta e não dá multa, espero), ou se houve incidentes de recusa ou até se os malandros dos arguidos ou algum visado ainda no limbo de saber se é arguido ou não se puseram a incomodar tentando bater à porta do Palácio Ratton. Mas não encontrei. Irra, malditas e precipitadas confusões.
Advogado