Escrevo na cidade da eterna primavera acerca da eterna suspeição. A eterna suspeição a que estão sujeitos em Portugal os políticos ou quem, mais ou menos vezes e por mais ou menos tempo, entra na vida política. A que estão sujeitos e – o que não é menos importante – a que se sujeitaram e sujeitam, pois em grande medida foram os políticos, especialmente de há uns anos a esta parte, que criaram – junto com outros fatores, sociológicos, mediáticos, económicos, judiciários e judiciais, et cetera – este clima, ao usarem suspeitas e processos e afins como arma de luta política e como tema principal, arredando para debaixo do tapete ou adiando para as calendas temas maiores da coisa pública. Parece que cada vez mais o que importa é encontrar traços de Irmãos Metralha em cada político, girando o mundo em redor dessa busca incessante. És um Beagle Boy (um real, não da Disney)? És seguramente, e se ainda não se sabe mais tarde ou mais cedo acabaremos por descobrir. Mais do que diabolização, estamos na metralhização da política (fenómeno, aliás, que quadra muito bem com a desconfiança que marca a vida contemporânea, bem como com a obsessão pela transparência, cujos excessos e perigos podem ser vistos por exemplo na obra de Byung-Chul Han, A Sociedade da Transparência). Creio, aliás, que o fenómeno é óbvio, não carece de alegação e de prova, mas aqui vão três breves exemplos, recentes e, a meu ver, muito sintomáticos.
Estamos em preparação para as presidenciais, não já a muito tempo da primeira volta, e o que tem ocupado o prime time? As ideias dos candidatos para o cargo, a sua visão da função presidencial, ideias sobre o desenho constitucional da República portuguesa, ao menos uma ideia de Estado ou de regime? Não. O que tem ocupado o centro do horizonte é saber se um ganhou isto ou aquilo, se outro trabalhou para terceiros e teve vida profissional, se outro testemunhou neste ou naquele processo, se aquele disse isto a propósito do celerado A ou se aquele outro omitiu ou suavizou a respeito do celerado B ou se este ou aquele favoreceu porventura alguém ou não. E até há um candidato que tem como slogan maior, além de lições sobre Geografia, acabar com a corrupção, qual demiurgo policial – aliás, uma função que se está mesmo a ver que está no coração do que é ser Presidente da República. Outro exemplo, para o qual bastam breves frases: a loucura que foi em redor do fim da averiguação preventiva ou lá o que é («uma coisa em forma de assim», como escreveria Alexandre O’Neill) relativa à sociedade do primeiro-ministro em exercício. O fim do mundo ou, visto de outro prisma, o princípio do mundo. Uma coisa de capital importância, capaz de rivalizar com o deflagrar de uma guerra, com um feito heróico ou com a exploração do sistema solar. Um marciano que viesse a Portugal há coisa de uns dias, acharia que Prometeu tinha voltado a dar ou, visto de outro prisma, retirado o fogo aos homens. Suma importância. E um exemplo final, aparentemente a latere da vida política, mas muito revelador: o suspeito de pedofilia referido insistentemente, dias a fio, como ex-assessor de uma ministra. Mas que raio interessa se foi ex-assessor da ministra, canalizador, escritor, médico, pedreiro ou o que quer que seja? Implícito a isto está, mais uma vez, uma metralhização da política, como se subtil ou inconscientemente os políticos também tivessem culpa, porque escolheram um assessor agora suspeito de pedofilia. Ora, isto não pode ser, viver assim é insuportável, e não nos levará por muito bons caminhos Qualquer dia, só alguém que seja totalmente louco ou totalmente desqualificado é que aceita estar na vida política. Se é que ainda haverá vida política. Assim não dá.