A ação militar dos EUA na Venezuela mereceu inúmeras interpretações e justificações. Sim, Maduro foi um ditador que impôs um regime corrupto, cruel e antidemocrático, com ligações ao narcotráfico e a grupos terroristas. Trump, de resto, tentou justificar o rapto como uma operação de combate ao narcoterrorismo, crime de que Maduro é acusado nos EUA. Mas essa justificação, independentemente da questionável legitimidade quer em termos do direito internacional quer da ordem institucional americana, não é compatível com declarações que, entretanto, ouvimos da Casa Branca.
Se a operação fosse meramente de caráter policial, não se justificavam as ameaças feitas à vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu o poder e não é alvo de nenhuma acusação por parte da justiça dos EUA. Parece claro que Trump está interessado em que o regime bolivariano sobreviva sem Maduro, tutelado por condições impostas sob ultimato. O Presidente americano não irá criar condições para que a oposição democrática chegue ao poder, tanto assim que descartou a representatividade de María Corina Machado, a quem não perdoará ter-lhe ‘roubado’ o prémio Nobel da Paz. Ou seja, Trump não teve problemas em abdicar do discutível argumento da legitimidade democrática, que poderia invocar se a deposição de Maduro coincidisse ou fosse o início de um golpe de estado destinado a empoderar quem, de facto, ganhou as últimas eleições na Venezuela.
Não nos iludamos: a operação não teve como móbil combater o narcotráfico ou repor a democracia. E a questão das reparações à indústria do petróleo é lateral, servindo apenas para convencer os americanos de que a operação beneficiará a sua economia. Trump tem uma visão imperial e quer aperfeiçoar a Doutrina Monroe, dando-lhe um cunho expansionista. Já ameaçou Cuba e a Colômbia e reafirmou o seu interesse na Gronelândia, tendo Katie Miller (mulher do conselheiro presidencial Stephen Miller) publicado nas redes sociais uma fotografia da ilha (que faz geograficamente parte da América do Norte) com a bandeira americana. Isto significa que, para a Administração Trump, os países do Hemisfério Ocidental devem ser tratados como colónias.
Não falta quem veja nesta ambição imperialista a fuga em frente de um Presidente acossado e cada vez mais impopular. Curiosamente, poucos se questionaram sobre o encolher de ombros da Rússia e da China, que têm grandes interesses e uma aliança estratégica com a Venezuela. Podemos, pois, estar a sentir as consequências de um pacto de partilha entre EUA e Rússia, a que a China poderá não ser alheia. Pode parecer uma teoria da conspiração, mas importa interpretar os acontecimentos na Venezuela e as recentes declarações de Trump sobre a generosidade de Putin relativamente à Ucrânia à luz da National Security Strategy – um documento publicado pelo presidente dos EUA em novembro, cujas 33 páginas merecem ser lidas com atenção.
É muito provável que Trump e Putin tenham decidido uma partilha de esferas de influência, e que esta já esteja em curso. Uma espécie de Tratado de Tordesilhas selado no Alasca, ou ainda antes, em que americanos e russos conjugam as doutrinas Monroe e Primakov, com vista ao reconhecimento mútuo dos lebensraum das duas potências. Sendo quase inevitável que a China tenha anuído e exigido o seu quinhão, que pode não se limitar a Taiwan. Há muito que este alinhamento de forças parece evidente. Os russos deixaram cair a Síria, ignoraram a blitzkrieg no Irão e desinteressaram-se do resto do Médio Oriente como parte do preço a pagar para poderem concentrar a sua estratégia na Europa.
Neste cenário, os populistas e nacionalistas europeus funcionam como idiotas úteis, ora defendendo e aplaudindo Trump, ora contestando a unidade da UE face à ameaça russa. Enquanto isso, os dirigentes europeus abstêm-se de denunciar o que é evidente na política americana e tardam em fazer as urgentes alianças com o resto do mundo. O fracasso das negociações com o Mercosul, a ausência de diálogo com a Índia e as hesitações estratégicas impedem que a Europa responda às sucessivas ameaças de Trump, explicando-lhe que é diferente não ser amigo de ser inimigo.
A titubeação da Europa é uma lástima, pois a única coisa que o Presidente dos EUA respeita é a força. Além disso, a opinião pública americana entenderia melhor uma posição veemente dos europeus, mesmo que fosse apenas retórica.