terça-feira, 18 ago. 2026

Por que não falta agua

A distribuição de água não se improvisa. Depende de planeamento, do modo como se estima a evolução do consumo e de como se adapta a capacidade, de como se gere a rede.

Enquanto em Almada não há agua, no Porto ela corre nas torneiras, apesar do aumento de consumo provocado pelo turismo ou por ocasião das vagas de calor.

A distribuição de água não se improvisa. Depende de planeamento, do modo como se estima a evolução do consumo e de como se adapta a capacidade, de como se gere a rede.

No início investiga-se onde é que a agua não é faturada, onde as tubagens pedem atenção, onde a pressão oscila, e como variam as necessidades ao longo do tempo. A manutenção tradicional não é suficiente. É necessário investir na prevenção, com reparações antes das ruturas, nas inspeções antes das falhas e implementar melhorias na resiliência dos sistemas antes de ocorrer um problema. .

Define-se o que fazer quando alguma coisa corre menos bem, procura-se equilibrar a eficiência com a continuidade do serviço.

A confiança que depositamos no serviço é a soma de rotinas técnicas, de planeamento e de responsabilidade.

Porque será que nem todos os municípios fazem estas opções? Desde logo, porque estas estratégias não dão votos. Além disso, as obras são sempre impopulares. Se é preciso intervir prudencialmente nas condutas causa-se sempre um incómodo. A notícia só surge se há uma rutura e uma quebra no abastecimento. Há municípios que, por essas razões, ou por preferirem concentrar o investimento noutras necessidades, optam por comprar mais água ou aumentar as captações, refletir a ineficiência no preço do produto, ou subsidiando a tarifa.

No Porto, a aposta na sustentabilidade foi feita no tempo certo, e não se alterou com os ciclos políticos.

A empresa municipal que nos assegura o serviço tem bons técnicos e trabalhadores que vestem a camisola e, ao longo de 20 anos teve sempre bons gestores, escolhidos pelo seu conhecimento e mérito, como Poças Martins, Matos Fernandes ou Frederico Fernandes, que tiveram capacidade de, garantir a sustentabilidade técnica e financeira, de inovar e de motivar sucessivos executivos municipais a mobilizarem recursos para o investimento que, por ser invisível, é sempre menos popular que outras medidas. Desenvolvido entre 2006 e 2012, o Projeto Porto Gravítico reorganizou o funcionamento hidráulico do sistema de abastecimento de água do Porto, tirando partido da topografia da cidade e da pressão da água fornecida em alta, reduzindo a dependência de bombagem e permitindo desativar quatro estações elevatórias. O projeto gerou uma poupança acumulada de 65,2 GWh de energia e mais de 4,2 milhões de euros, constituindo uma referência de eficiência energética e otimização operacional. Se em 2006, a água não faturada era superior a 50%, e em 2013 era ainda de 23%, é hoje de menos de 12%. Isto foi possível porque houve um combate contínuo às perdas de água, e se implementou a setorização da rede, a gestão inteligente de pressões, a telemetria dos contadores que chega a 84 por cento dos clientes e a sensorização. O numero de zonas de medição e controlo na rede aumentou de 6 para 126, detetando precocemente todas as anomalias. Assim, no ano passado, o Porto alcançou o maior índice de reabilitação de condutas entre as cidades mais populosas (1,3%/ano enquanto Almada teve 0,3%/ano).

Nestes 20 anos, a redução nas perdas não faturadas poupou 109 milhões de euros na compra de água. A estratégia não foi interrompida por ciclos políticos, e ao que tudo indica, vai ter continuidade com o atual presidente que manteve em curso os planos de abastecimento alternativo, contingência operacional e comunicação de emergência para dar resposta a situações críticas, permitindo a manutenção dos elevados níveis de continuidade do serviço e reduzir a incidência de falhas.

É por essa estratégia pensada e teimosamente continuada por sucessivos executivos que, no Porto temos sempre água barata e de qualidade nas nossas torneiras.