«A guerra tem duas dimensões. A dimensão física, que tem os domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial e ciberespacial. É aí que estão os militares. E tem a dimensão cognitiva, com o domínio das perceções. E aí os combatentes são os jornalistas. Aí os combatentes são os influencers. Aí o espaço de combate são os estúdios da televisão e da rádio, os jornais, o ciberespaço, os blogs. E o objetivo a conquistar são as nossas mentes, as perceções».
Quem o disse? O major-general Agostinho Costa, numa sessão organizada pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação. O CPPC representa, em Portugal, o Conselho Mundial para a Paz (WPC, na sigla em inglês). Nos tempos gloriosos da URSS, o WPC – organização criada em 1949 de que Costa Gomes foi vice-presidente depois de deixar a Presidência da República, em 1976 – era visto como uma organização de vanguarda do comunismo internacional.
Nos congressos do WPC, as tentativas de discutir ações militares soviéticas, como a invasão do Afeganistão, eram bloqueadas com o argumento de que constituíam uma «ingerência nos assuntos internos» da URSS ou mera «propaganda antissoviética». O WPC condenava as ações militares dos EUA e da NATO, mas racionalizava ou endossava todas as ações da URSS. Hoje, o WPC e o seu instrumento português, tutelado pelo PCP, faz o mesmo ao serviço da Federação Russa, quando justifica a invasão da Ucrânia.
Quanto às declarações do major-general, elas equivalem a uma confissão. Nas suas intervenções na CNN Portugal, Agostinho Costa faz o papel de influencer, inspirado e iluminado pelo oráculo de Moscovo. Quase diariamente e com galhardia, defende as posições da Federação Russa. E apesar da perplexidade que causam, as opiniões de Agostinho Costa são aplaudidas pela Associação 25 de Abril, na qual o militar/comentador é membro ativo. Vasco Lourenço disse estar «orgulhoso pela maneira como os meus camaradas se têm comportado. Considero que têm prestigiado as Forças Armadas portuguesas, na missão de esclarecimento público que vêm realizando!».
Ainda há dias, ao sintonizar a CNN Portugal – o que continuo a fazer desde que resido em Paris –, tive uma estranha sensação de déjà vu ao ouvir o omnipresente e omnisciente Agostinho Costa explicar ao jornalista, tal como faz há quatro anos, que a Ucrânia está a perder a guerra. Na verdade, a Ucrânia tem sofrido com a agressão russa. Perdeu o controlo de 8% do seu território desde 2022. Sofre violentos ataques russos, que causam pesadas perdas militares mas também muitos mortos entre os civis, alvos deliberados do conflito. No entanto, não há sintomas de desalento entre a população nem nenhuma evidência de que esteja a perder a guerra. Pelo contrário, a Rússia está em apuros.
No ano passado, a Rússia teve baixas de 400.000 homens e só ganhou 0,8% do território ucraniano. Apesar das bravatas de Putin, a guerra deixou de ser uma ação externa, desde que os drones e mísseis ucranianos passaram a atingir alvos no interior da Federação Russa, destruindo refinarias e outras instalações petrolíferas e perturbando o tráfego aéreo. Além disso, a Rússia perdeu o seu aliado europeu, Orban, a quem de nada valeu ser o favorito de Putin e Trump.
Na frente de batalha, o armamento pesado e as grandes concentrações de tropas russas nunca foram tão vulneráveis aos ataques dos drones ucranianos. A guerra mudou nestes quatro anos: o preço a pagar pelos russos, para além de 1,3 milhões de baixas, é um profundo dano à sua economia, o que vai causando crescente desconfiança interna quanto à possibilidade de Putin atingir os seus objetivos. Os estrategas militares russos sabem que um invasor pode ser derrotado: foi o que sucedeu a Napoleão e Hitler quando invadiram a Rússia.
Putin tem tido sorte, enquanto os seus azarados adversários internos sofrem acidentes inexplicáveis. Ainda assim, a guerra que parecia fácil complicou-se e é hoje menos popular entre os russos. Não sei como Agostinho Costa explicará a eventual débacle russa, mas, como estudioso da história militar e russófilo que é, conhece a frase que escolhi para título. É atribuída a Napoleão e pode ser interpretada como «comecemos a batalha e depois veremos». Terá sido este o erro de Putin, que iniciou uma guerra sem avaliar as possíveis consequências? Provavelmente, sim. No domínio das perceções, os influencers de Putin são capazes de mascarar o fracasso. Mas já não o conseguem esconder…