terça-feira, 21 jul. 2026

O sprint necessário

Quanto mais o país produzir e gerir energia de forma limpa, mais se reduz a exposição a choques externos e à volatilidade dos mercados.

A crise energética tem a virtude perversa de nos obrigar a pensar - e, sobretudo, a recordar. Quando a luz falha, quando o preço do kWh sobe e a indústria hesita em investir, o debate deixa de ser académico e passa a ser uma questão de sobrevivência económica e de soberania. É nesse limiar entre desconforto e urgência que a Europa está agora: quer segurança energética sem voltar ao tempo em que energia era sinónimo de complacência.

Há um erro do passado do qual se retiram importantes lições. A Alemanha encerrou centrais nucleares e acabou por ficar dependente de fornecimentos externos, em particular do gás russo. Não é preciso discutir, em abstrato, se a decisão ‘era a correta’. Importa, sim, reconhecer o padrão: ao desarmar uma capacidade estável e relativamente previsível, e ao substituí-la por dependências geográficas e contratuais frágeis, cria-se vulnerabilidade. Em questões energéticas não se perdoam ingenuidades: a geopolítica cobra sempre juros, mais cedo ou mais tarde.

Daqui nasce a pergunta incómoda: se a lição é não trocar uma dependência por outra, então faz sentido a Europa ficar agora dependente do gás americano? Pode até haver um uso do gás como ‘ponte’ em fases de transição, sobretudo quando se reduzem emissões face ao carvão. Mas ficar dependente como estratégia prolongada repete o problema de base: a segurança energética deixa de ser uma característica do sistema e passa a ser refém de cadeias externas e de preços que não controlamos. Se aprendemos com Berlim, devemos insistir numa via europeia que combine diversificação real, resiliência interna e aceleração das alternativas.

É aqui que Portugal tem de afirmar o seu protagonismo. A transição energética e a eletrificação industrial e doméstica estão em aceleração: mais projetos de substituição de calor fóssil, mais eletrificação de processos, mais adoção de bombas de calor, melhorias de eficiência e modernização de equipamentos. A eletrificação não é apenas um caminho climático; é um mecanismo de proteção económica. Quanto mais o país produzir e gerir energia de forma limpa, mais se reduz a exposição a choques externos e à volatilidade dos mercados.

Mas há um risco que Portugal conhece bem: a burocracia no licenciamento. A transição exige escala, e escala exige velocidade e previsibilidade. Se os processos se arrastam, se há sobreposição de etapas, prazos incertos e exigências que mudam durante o percurso, o resultado é inevitável: atrasos. E atrasos têm custos duplos. Primeiro no tempo perdido para reduzir as emissões e aumentar a capacidade de abastecimento. Depois, no custo económico de continuar preso a soluções antigas durante mais anos do que seria necessário.

O problema não é regulamentar; é regulamentar bem. As licenças devem proteger ambiente, ordenamento, segurança e participação pública. O que não pode acontecer é a transição ficar refém de ‘labirintos’ administrativos que não acrescentam valor técnico, apenas prolongam o caminho. O que não podemos é permitir que estruturas intermédias incompetentes transformem o sprint numa corrida de obstáculos. Em crise, a previsibilidade é quase uma forma de energia: sem ela, o investimento trava; sem investimento, a capacidade não cresce; e sem capacidade, a conta chega com juros.

Em suma, a crise energética não é um desvio do caminho: é um espelho. Mostra-nos como dependências mal geridas podem custar muito caro e confirma que a eletrificação em Portugal pode ganhar tração e transformar a atual vulnerabilidade em resiliência. Cabe agora garantir que as políticas públicas não atrasam aquilo que na realidade já começou. A luz que queremos acesa não pode depender da arbitrariedade de pequenos poderes ou dos seus formulários intermináveis. Deve, sim, depender de decisões rápidas, coordenadas e consistentes.