terça-feira, 08 set. 2026

O Mundial da FIFA

A credibilidade de um campeonato depende da confiança que inspira. Quando se perde, perde o futebol. Mas o problema não termina na FIFA. Também a UEFA tem razões para refletir.

Terminou o Campeonato do Mundo. A Espanha venceu a final, pouco competitiva e indigna, com inteira justiça.

Gianni Infantino tratou de felicitar a Argentina pelo vice-campeonato. É um gesto revelador de uma hierarquia de afetos. Por momentos, parecia que quem tinha ganho o Mundial era outra seleção.

Não fiquei indiferente ao que a FIFA nos ofereceu. O fair play nunca foi a imagem de marca deste desporto mas uma coisa é aceitar que haja simulações ou perdas de tempo, e outra, muito diferente, é terminar um Campeonato com a sensação de que o protagonista principal foi sempre a terceira equipa em campo.

Os críticos de Cristiano Ronaldo, sempre prontos a apontar-lhe o dedo, fariam bem em olhar para Lionel Messi. Ninguém discute o seu talento extraordinário mas os grandes campeões também são julgados pela forma como saem de cena.

Entretanto, ficámos a saber que a intervenção de um chefe de Estado para permitir que um jogador castigado pudesse disputar um encontro decisivo era aceitável e acatável. A UEFA protestou. A FIFA explicou que tudo estava em ordem. E o assunto ficou encerrado.

Ou melhor, fingiu-se que ficou.

Não há provas para afirmar que alguém manipulou a competição mas seria ingénuo ignorar a sucessão de episódios que deixaram milhões de adeptos com a suspeita de que algumas equipas beneficiaram, demasiadas vezes, do benefício da dúvida.

Talvez tenham sido apenas coincidências e o acaso tenha resolvido distribuir os erros sempre para o mesmo lado. Talvez os árbitros tenham atravessado um período particularmente infeliz. O problema é que as suspeitas se alimentam da repetição. De critérios que mudam de jogo para jogo. De intervenções do VAR que aparecem quando convém e desaparecem quando deixam de convir. De cartões que uns veem e outros não. De faltas iguais avaliadas de forma diferente. De silêncios que substituem explicações.

Nunca houve tanta tecnologia ao serviço da verdade desportiva e nunca tantos adeptos terminaram um Campeonato do Mundo convencidos de que a verdade desportiva continua a depender, demasiadas vezes, de quem sopra o apito.

Quem não viu o golo espanhol limpo, que colocaria um ponto final na discussão ainda durante o tempo regulamentar? Quem não reparou na diferença de critérios disciplinares? Quem não teve a sensação de que o campo estava inclinado? Não afirmo que assim tenha sido. Digo apenas que demasiadas pessoas ficaram convencidas disso. E, numa competição desta dimensão, essa perceção é uma derrota institucional.

A credibilidade de um campeonato depende da confiança que inspira. Quando se perde, perde o futebol. Mas o problema não termina na FIFA. Também a UEFA tem razões para refletir. Há muito que as arbitragens das competições europeias deixaram de suscitar consenso. 

Em função de tudo isto, deveremos embarcar na euforia de ‘organizar’ um Campeonato do Mundo? Organizar é uma forma curiosa de descrever aquilo que acontece. Não escolhemos o regulamento, os árbitros, os patrocinadores, o modelo da competição e nem sequer organizamos verdadeiramente o torneio. Limitamo-nos a disponibilizar estádios, mobilizar agentes de segurança, adaptar infraestruturas, suportar encargos públicos, trazer adeptos numa época em que o país já está cheio de turistas, e receber alguns jogos de um evento cuja propriedade, exploração comercial e receitas pertencem quase integralmente à FIFA. É um modelo de negócio notável. Os países disputam o privilégio de pagar para participar, enquanto uma organização privada conserva o controlo da marca, das receitas e das decisões.

Naturalmente, ouviremos falar de projeção internacional, de legado, de oportunidades únicas e de visibilidade global. É a liturgia habitual dos megaeventos. Quanto custa esse prestígio? E quem beneficia dele?  

Podemos convencer os contribuintes de que estão a organizar um Mundial quando, na realidade, apenas alugam o palco para um espetáculo cujo guião, protagonistas e receitas pertencem a outros? 

O futebol continuará a ser o desporto mais apaixonante do planeta. A FIFA tornou-se uma extraordinária máquina de negócios. Não confundamos uma coisa com a outra.