segunda-feira, 09 mar. 2026

O mestre dos afetos

Marcelo é um rockstar. E Portugal continuará a contar com ele, como um ativo sobredotado e incomparável. Esteve sempre connosco, nos dias bons e nos dias maus. Agora, seremos nós a estar consigo. Obrigado, senhor Presidente! 

Vamos ter saudades de Marcelo Rebelo de Sousa. Sem duvidar do empenho e das qualidades do seu sucessor na Presidência da República, sei que comparto este sentimento de orfandade com muitos portugueses.

Sem desprimor para os antecessores, Marcelo assumiu uma relação intensa e afetiva com os portugueses. Tendo vivido em países com regimes monárquicos, Reino Unido e Noruega, sempre vi em Marcelo um rei: quer pelo seu poder de sedução, quer sobretudo pelos laços de confiança que logrou construir, mesmo com pessoas que dele discordaram ou que nunca nele votaram. Depois, porque soube combinar a sua elegância e bom gosto, a sua primorosa educação e a sua sensibilidade cultural com um apurado instinto político. Esse instinto, que exerceu com maquiavelismo, deu-lhe um poder maior do que o que decorre constitucionalmente do cargo. Na relação que com ele mantiveram, António Costa e Luís Montenegro terão certamente entendido Kierkegaard: «Têm vergonha de obedecer ao rei porque ele é rei – então, obedecem-lhe porque ele é inteligente».

Na realidade, Marcelo personificou o regime, com as suas virtudes e com a sua incapacidade para se regenerar. Nos seus discursos, eloquentes e eruditos, deu sempre mais importância às consequências do que às causas. Foi mais severo para com o poder executivo, a quem não poupou remoques e recados, do que com o poder judiciário; raras vezes interagiu com o poder legislativo, que, aliás, desvalorizou quando decidiu dissolver a Assembleia da República após a demissão de Costa.

Como sucedera com os seus antecessores, os seus dois mandatos foram diferentes. Mas isso também se explica pelas circunstâncias. No primeiro mandato, a sua ação foi importante, interna e externamente, para desdramatizar o impacto da ‘geringonça’. O segundo mandato foi mais controverso, com a dissolução da maioria absoluta e, depois, na acrimónia com Montenegro, que nunca escondeu e o condicionou. Sofreu muito quando, de forma indecente e imerecida, o tentaram responsabilizar no ‘caso das gémeas’, o que lhe deixou muita tristeza.

Nestes dez anos, o país viveu várias crises: os incêndios, a pandemia, o fim do bipartidarismo, o regresso da guerra à Europa, as consequências da imigração desregrada, a descrença no Estado, a ascensão da direita radical. Exames exigentes, que passou com louvor na compaixão e na empatia, mas em que a pedagogia que tantas vezes utilizou para nos mobilizar se consumiu aqui e ali na tentação de tudo comentar. Merecia ter terminado a presidência sem passar pelo teste terrível das tempestades, onde tivemos o melhor presidente de sempre nos afetos, essa empatia que nos deixa saudade, e o comentador sôfrego e leviano, característica que vulgarizou a autoridade da palavra.

Tenho para com Marcelo uma dívida de gratidão, institucional e pessoal. Sei como aprecia e entende o Porto, onde tem muitos amigos. Gosta de passear a pé pela cidade. Gosta da nossa cidadania rabugenta e liberal. Gosta de Serralves e da nossa Feira do Livro, a que nunca faltou. Empenhou-se nas nossas causas, sobretudo quando o Tribunal de Contas quis impedir a concretização do projeto do Matadouro, cuja crucial relevância entendeu cabalmente. Nunca esquecerei as suas vindas ao São João, em que mergulhámos juntos na multidão em festa; os seus cuidados e incentivos em momentos difíceis, em que nunca falhou com a sua palavra de conforto; ou os seus conselhos judiciosos, fundados na sua perspicácia e desarmante inteligência.

Sim, tivemos um grande, um fantástico e genial Presidente. O fotógrafo Rui Ochoa, que sempre o acompanhou, tem razão: Marcelo é um rockstar. E Portugal continuará a contar com ele, como um ativo sobredotado e incomparável. Esteve sempre connosco, nos dias bons e nos dias maus. Agora, seremos nós a estar consigo. Obrigado, senhor Presidente! E lembre-se de Mark Twain: «a reforma é um tempo bom para começar a viver».

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