sexta-feira, 07 ago. 2026

O fiasco dos amuados

Agora, a pergunta inevitável é: e com Jesus? Não sei se teremos de esperar pelo milésimo golo de Cristiano Ronaldo como se fosse uma espécie de ritual de salvação.

Há uma expressão caricata que circula no futebol: só no fim do jogo é que se fazem prognósticos com alguma segurança. Até parece porque enquanto a bola rola podemos misturar dados, emoções e esperança. Depois vem a noite fria dos resultados, e a conversa muda. Aparecem os ‘eu tinha dito’, os sábios tardios que transformam retrospetivamente dúvidas legítimas em certezas tardias.

Neste caso, eu também disse - ou, melhor, escrevi. A 7 de junho, no blog do meu amigo Hermínio Loureiro, e a seu pedido, registava uma expectativa que eu queria ver desmentida. Dizia então: esperava estar enganado, mas julgava que a Seleção nacional não teria sucesso no Mundial. E justificava o essencial: tínhamos um selecionador que, incompreensivelmente, parecia tentar ‘remendar’ a tática ao adversário, em vez de usar o jogo para impor uma ideia. Quando se tem um leque de criativos, com capacidade de decidir, o mais lógico seria a equipa ser ela a determinar o ritmo, o desenho, a ansiedade do oponente. Em vez disso, havia uma sensação persistente de falta de modelo, como se tudo fosse resposta e quase nada fosse plano.

Além disso, apontava carências difíceis de disfarçar: faltava um triângulo mais competente entre centrais e trinco, e Cristiano Ronaldo - por mais mérito que tenha e por mais marca que continue a deixar - já não podia ser tratado como chave mágica de tudo. A minha tese era clara: Ronaldo deveria funcionar como solução para os últimos vinte ou trinta minutos de jogos difíceis e não como muleta permanente. Com limitações destas, eu perguntava: «Com que confiança podemos ir longe?». E a resposta era inevitável: iríamos apenas se houvesse um treinador mais competente, que soubesse escolher os melhores, definir um modelo tático e, sobretudo, alinhar o talento com uma identidade de jogo.

Infelizmente, não estava enganado.

A Seleção saiu cedo do torneio, e até aqui a primeira injustiça foi a sorte - ou, se preferirem, a segunda oportunidade desperdiçada. O dado que pesa é simples: o único jogo em que a equipa dominou claramente foi contra o Uzbequistão. No conjunto, o que realmente falhou foi a consistência das exibições: poucas vezes houve domínio prolongado, poucas vezes houve convicção traduzida em lances, e muitas vezes pareceu que o talento estava ali, mas não estava organizado. Uma coisa é ter futebolistas; outra é transformá-los em equipa.

É impossível ignorar o contexto dos jogadores: tínhamos um lote excelente, com nomes que vinham de vencer a Liga dos Campeões, com figuras dos campeonatos britânicos, com credenciais internacionais que deveriam conduzir a jogos mais seguros. E, ainda assim, conseguimos fazer pior do que no Mundial do Qatar. Numa frase: quando se tem tanto, não se pode desculpar o pouco com a inevitabilidade do destino.

Se a culpa fosse de Ronaldo, então a crítica deveria espalhar-se por quem o rodeou - Bruno Fernandes, Bernardo Silva, e por certo os centrais. Não, a falha teve um rótulo: o selecionador. E também teve assinatura - a de quem o escolheu e, pior ainda, a de quem o deixou continuar. E, se havia sinais, se já se desperdiçara a geração de ouro da Bélgica, então a pergunta desconfortável é porque se manteve o equívoco? Dito de forma direta: deveria ter sido substituído. E se não antes, seguramente depois do jogo com os congoleses e da irresponsabilidade das declarações. Se o selecionador estivesse confiante, então a lógica do compromisso exigia correção imediata. Ao menos para que a equipa jogasse com empenho e alegria. E ver a tristeza no rosto de jogadores que sabem o que têm para dar, quando percebem que os nomes nas camisolas não vencem duelos sozinhos, dá dó. Porque não é só sobre tática: é sobre espírito e confiança, sobre a sensação de que há uma ideia coletiva por trás de cada corrida e cada disputa.

Agora, a pergunta inevitável é: e com Jesus?

Não sei se teremos de esperar pelo milésimo golo de Cristiano Ronaldo como se fosse uma espécie de ritual de salvação. Mas sei uma coisa: vem aí uma nova geração, com fome e com futuro. Até lá, espero que Jesus escolha os que sofrem pelo sucesso - os que não têm ar amuado, os que não jogam como se estivessem a cumprir calendário, os que querem estar no relvado para fazer acontecer. Porque futebol, no fim, não é só talento. É decisão, é modelo, é disciplina, é vontade partilhada. Sem isso, o ’eu tinha dito’ volta a ser apenas o epitáfio do que podia ter sido.