Há uma expressão caricata que circula no futebol: só no fim do jogo é que se fazem prognósticos com alguma segurança. Até parece porque enquanto a bola rola podemos misturar dados, emoções e esperança. Depois vem a noite fria dos resultados, e a conversa muda. Aparecem os ‘eu tinha dito’, os sábios tardios que transformam retrospetivamente dúvidas legítimas em certezas tardias.
Neste caso, eu também disse - ou, melhor, escrevi. A 7 de junho, no blog do meu amigo Hermínio Loureiro, e a seu pedido, registava uma expectativa que eu queria ver desmentida. Dizia então: esperava estar enganado, mas julgava que a Seleção nacional não teria sucesso no Mundial. E justificava o essencial: tínhamos um selecionador que, incompreensivelmente, parecia tentar ‘remendar’ a tática ao adversário, em vez de usar o jogo para impor uma ideia. Quando se tem um leque de criativos, com capacidade de decidir, o mais lógico seria a equipa ser ela a determinar o ritmo, o desenho, a ansiedade do oponente. Em vez disso, havia uma sensação persistente de falta de modelo, como se tudo fosse resposta e quase nada fosse plano.
Além disso, apontava carências difíceis de disfarçar: faltava um triângulo mais competente entre centrais e trinco, e Cristiano Ronaldo - por mais mérito que tenha e por mais marca que continue a deixar - já não podia ser tratado como chave mágica de tudo. A minha tese era clara: Ronaldo deveria funcionar como solução para os últimos vinte ou trinta minutos de jogos difíceis e não como muleta permanente. Com limitações destas, eu perguntava: «Com que confiança podemos ir longe?». E a resposta era inevitável: iríamos apenas se houvesse um treinador mais competente, que soubesse escolher os melhores, definir um modelo tático e, sobretudo, alinhar o talento com uma identidade de jogo.
Infelizmente, não estava enganado.
A Seleção saiu cedo do torneio, e até aqui a primeira injustiça foi a sorte - ou, se preferirem, a segunda oportunidade desperdiçada. O dado que pesa é simples: o único jogo em que a equipa dominou claramente foi contra o Uzbequistão. No conjunto, o que realmente falhou foi a consistência das exibições: poucas vezes houve domínio prolongado, poucas vezes houve convicção traduzida em lances, e muitas vezes pareceu que o talento estava ali, mas não estava organizado. Uma coisa é ter futebolistas; outra é transformá-los em equipa.
É impossível ignorar o contexto dos jogadores: tínhamos um lote excelente, com nomes que vinham de vencer a Liga dos Campeões, com figuras dos campeonatos britânicos, com credenciais internacionais que deveriam conduzir a jogos mais seguros. E, ainda assim, conseguimos fazer pior do que no Mundial do Qatar. Numa frase: quando se tem tanto, não se pode desculpar o pouco com a inevitabilidade do destino.
Se a culpa fosse de Ronaldo, então a crítica deveria espalhar-se por quem o rodeou - Bruno Fernandes, Bernardo Silva, e por certo os centrais. Não, a falha teve um rótulo: o selecionador. E também teve assinatura - a de quem o escolheu e, pior ainda, a de quem o deixou continuar. E, se havia sinais, se já se desperdiçara a geração de ouro da Bélgica, então a pergunta desconfortável é porque se manteve o equívoco? Dito de forma direta: deveria ter sido substituído. E se não antes, seguramente depois do jogo com os congoleses e da irresponsabilidade das declarações. Se o selecionador estivesse confiante, então a lógica do compromisso exigia correção imediata. Ao menos para que a equipa jogasse com empenho e alegria. E ver a tristeza no rosto de jogadores que sabem o que têm para dar, quando percebem que os nomes nas camisolas não vencem duelos sozinhos, dá dó. Porque não é só sobre tática: é sobre espírito e confiança, sobre a sensação de que há uma ideia coletiva por trás de cada corrida e cada disputa.
Agora, a pergunta inevitável é: e com Jesus?
Não sei se teremos de esperar pelo milésimo golo de Cristiano Ronaldo como se fosse uma espécie de ritual de salvação. Mas sei uma coisa: vem aí uma nova geração, com fome e com futuro. Até lá, espero que Jesus escolha os que sofrem pelo sucesso - os que não têm ar amuado, os que não jogam como se estivessem a cumprir calendário, os que querem estar no relvado para fazer acontecer. Porque futebol, no fim, não é só talento. É decisão, é modelo, é disciplina, é vontade partilhada. Sem isso, o ’eu tinha dito’ volta a ser apenas o epitáfio do que podia ter sido.