Há 100 anos, a 1.ª República chegou ao fim. O regime, vigente de 1910 a 1926, é frequentemente apresentado como democrático e sua queda associada a um ensaio de modernização institucional que não resistiu a pressões sociais díspares. Recomendo a leitura de Portugal: Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, para desfazer este mito. A obra ajuda a questionar a ideia de uma República moderna, estável e progressista que se desfez por contradições internas.
A 1.ª República foi, na prática, uma ditadura de um único partido, que impôs a sua bandeira e marginalizou monárquicos e dissidentes. Na ‘pequena Bastilha’ em que Afonso Costa transformou o país, o voto foi restrito: em 1890 havia 950 mil eleitores; em 1913, na eleição constitutiva, restavam 650 mil, pois o direito de voto foi retirado aos analfabetos, limitando o sufrágio rural. A política parlamentar foi marcada por crises, gabinetes curtos e alianças oportunistas entre moderados e radicais, resultando em governabilidade frágil e menor previsibilidade fiscal e administrativa. A instabilidade impediu reformas estruturais, especialmente na educação.
Quanto à legitimação, o regime lidou com um mosaico sociopolítico assimétrico. A mobilização republicana ficou restrita aos meios urbanos, levando líderes radicais, sobretudo Afonso Costa, a reprimir setores rurais, religiosos e conservadores que temiam a secularização acelerada e mudanças de ordem social. Em tempos de crise, as respostas políticas eram frequentemente autoritárias ou improvisadas, não se conseguindo regular conflitos sem recorrer à repressão. Por outro lado, a participação na 1.ª Guerra Mundial expôs as fragilidades da República e alimentou debates sobre nacionalismo, mobilização e custos humanos.
Do ponto de vista económico, a República enfrentou uma transição marcada por atraso estrutural e vulnerabilidade a ciclos internacionais. O regime herdara uma base industrial emergente, forte precariedade agrária e dependência de setores exportadores sensíveis a choques externos. Ao procurar modernizar o país, a ação estatal mostrou-se mal calibrada entre recursos disponíveis e metas de longo prazo. Institucionalmente, a promessa de descentralização acabou por concentrar geograficamente o poder.
Culturalmente, apesar da retórica de emancipação cívica, o poder foi marcado por clientelismo, personalismo e escalada de conflitos. A violência política, os assassinatos e as tentativas de rutura institucional mostraram a fragilidade de um regime que, embora defendesse a modernização e a inclusão, não conseguiu institucionalizar canais estáveis de pluralismo e responsabilidade pública. A crise de 1926, culminando na intervenção militar, não se resume a um golpe isolado: nasceu de tensões sociais e ressentimentos políticos, somados à descrença da população na eficácia do regime em promover o bem-estar comum.
Citando Pulido Valente, «entre 1919 e 1926, a República enfrentou o dilema clássico dos movimentos revolucionários: sem o terror não podia sobreviver; com o terror não podia governar. Em nome da ordem, entregou a segurança institucional aos militares, que aproveitaram para liquidar o que ficou de relevante. Posteriormente, Lisboa aplaudiu Gomes da Costa na Avenida da Liberdade».
A visão romântica, defendida por alguns historiadores, não corresponde à realidade. O fracasso da 1.ª República não resultou apenas do choque entre modernidade e tradição, mas da dificuldade de institucionalizar um pluralismo democrático estável numa nação marcada por profundas desigualdades, geografia de poder dispersa e crises que não respeitam calendários.
Ao assinalarmos o centenário, devemos refletir não apenas sobre o que falhou mas, sobretudo, sobre os ensinamentos que se mantêm relevantes: o impulso de modernizar sem enfrentar estruturas arraigadas, o foco em políticas públicas com resultados e a necessidade de instituições que resistam às oscilações políticas. A lição pode ser simples: a República não foi apenas um ideal de progresso – foi um teste de convivência cívica que expôs, com clareza, as limitações de uma democracia nascente sem alicerces institucionais estáveis. Se houver um resumo, é este: a História não se escreve apenas com idealismo, mas com a paciência de criar regras que sirvam a todos, inclusive aos que discordam.