Rita Rato, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, foi deputada do PCP à Assembleia da República. Tinha apenas 26 anos em 2009, mas nada a distinguia dos velhos estalinistas. Confessaria em entrevista acerca do Gulag: «Não sou capaz de responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso». Questionada ainda sobre a política contemporânea chinesa, os atropelos aos direitos humanos e os presos políticos, alegou não conhecer essa realidade.
Tudo isto, que passaria despercebido porque condescendemos com o negacionismo do PCP, viria a ser recordado em 2020, quando foi nomeada diretora do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade. Rui Tavares, insuspeito politicamente e um historiador respeitado, resumia nas páginas do Público as objeções que outros tinham levantado e lhes valera a habitual acusação de anticomunismo: «É claro que se pode ser uma pessoa que negue ou minimize a realidade histórica do Gulag. Ou pode ser uma diretora do Museu do Aljube que dignifique a instituição. Não se pode ser as duas coisas».
A verdade é que a nomeação prevaleceu. Rita Rato cumpriu dois mandatos. Não mudou de opinião e fez do museu e da sua biblioteca seletiva um espaço sectário, sem diversidade ou contraditório, ao sabor da sua ideologia. Sucede que Rato não foi reconduzida para um terceiro mandato. E isso inflamou as suas clientelas: a esquerda radical, alinhada com alguns comentadores de direita que, com os seus salamaleques, olham pela vida mesmo se fazem de idiotas úteis. Dizem que foi um ‘saneamento político’, coisa que os comunistas exercitaram bravamente em 1975. E teriam sido os mesmos, e com razão, a exigir o saneamento se, como aconteceu a tantos dos seus antigos correligionários, Rita Rato se tivesse convertido à extrema-direita e se lembrasse de dizer que o Tarrafal era um colónia de férias tropical…
Por experiência, considero que a rotação de dirigentes e programadores em equipamentos culturais, que é de resto recorrente, constitui uma prática saudável. Os projetos curatoriais, depois de amadurecerem, dificilmente se reinventam com os mesmos protagonistas. Nessa altura, há circunstâncias que justificam que se abra concurso, mas é igualmente legítimo fazer escolhas criteriosas. Tal como foi legítimo, há três anos, a decisão do executivo de Moedas de renovar o mandato de Rita Rato sem então abrir concurso.
Acredito que tenha havido a intenção de impedir que o museu continue a ser uma coutada da extrema-esquerda, a pretexto da celebração da resistência que representa apenas metade da sua vocação. Admito que se queira exaltar a liberdade, num tempo em que está tão ameaçada. O discurso museológico não pode ficar refém de uma versão nostálgica, sectária e distorcida do que foi a resistência, e muito menos da narrativa branqueadora sobre os atentados à liberdade que a programação do museu revela.
Bem sei que a extrema-esquerda acredita que tem ‘direito de pernada’ sobre a cultura. Esta prerrogativa subsiste pelo paradoxo: quem quer destruir a democracia parece lutar por uma reivindicação legítima, enquanto quem a quer defender é tratado como artífice de uma qualquer repressão.
Entretanto, o museu tem uma nova diretora. É socialista, grã-mestra da Grande Loja Feminina de Portugal, com uma carreira marcada por um compromisso inabalável com os valores maçónicos. Pode ser que a interessante história da Maçonaria não se torne o tema dominante. Pode ser que, se Isabel do Carmo continuar a ter lugar reservado na programação, chamem Zita Seabra para a confrontar e questionar. E, como sou crente, ainda acredito que o magnífico livro do meu irmão Tomás – O Terramoto de 1975, ao qual dedicarei a minha próxima crónica – possa integrar a biblioteca da instituição e, quem sabe, justifique uma troca livre e participada de testemunhos sobre o gonçalvismo e os seus abusos. Não sei se o que defendo será apelidado de ‘política cultural de direita’. Sei, contudo, que não podemos condescender com a sobranceria da esquerda.