sexta-feira, 17 abr. 2026

Convergências e confluências

Esta experiência prévia de intercâmbio com culturas diferentes tornou-nos mais abertos à diversidade cultural. Acresce que a vocação mercantil deu prioridade às relações comerciais e não se concentrou apenas na exploração intensiva de recursos.

A propósito de uma crónica recente, em que escrevi que «o acesso à cultura se constitui como um elemento de ligação mas também de desligação, na medida em que permite descortinar que há mais mundos – o que inspira a confiança na nossa herança e o respeito pela diferença», houve quem descortinasse nessa minha opinião uma ameaça à ‘portugalidade’. 

O conservadorismo não é coisa recente. Nos séculos XVII e XVIII criticavam-se os ‘estrangeirados’ que, depois de viajarem para conhecerem o Iluminismo, quiseram modernizar o país e combater o atraso cultural. O mais ilustre destes foi o Marquês de Pombal…

Para Eduardo Lourenço, Portugal foi um país «importador» de cultura europeia e, paradoxalmente, um «exportador» invisível através da colonização. E, de facto, a cultura portuguesa, ou a portugalidade, não é uma imutável Magna Carta. Resultou de uma troca constante a partir de uma estrutura composta por influências cristãs, romanas e europeias. A nossa identidade foi moldada por contaminação. Há, de resto, um aspeto que nos distanciou dos outros colonizadores: ao contrário de muitos europeus e com menos soberba, percebemos que os povos com quem nos cruzámos – em particular no Oriente – não eram bárbaros: eram civilizações com outras culturas. 

Enquanto os holandeses construíram nas suas colónias ‘pequenas Amesterdão’, inadaptadas aos climas tropicais e imunes aos usos e costumes nativos, nós tivemos a capacidade de adaptar e incorporar elementos culturais das regiões por onde passámos, especialmente durante os Descobrimentos. Antes disso, já fôramos influenciados por mouros e africanos, porque a nossa localização geográfica facilitou esse contacto. 

Esta experiência prévia de intercâmbio com culturas diferentes tornou-nos mais abertos à diversidade cultural. Acresce que a vocação mercantil deu prioridade às relações comerciais (em particular no Oriente), e não se concentrou apenas na exploração intensiva de recursos. A evidência disso é abundante: a abordagem de Vasco da Gama na Índia, quando estabeleceu relações diplomáticas e comerciais com os governantes locais; a descrição de povos africanos e asiáticos por cronistas como João de Barros e Fernão Mendes Pinto, que destacaram a sua cultura; a criação de feitorias no Oriente, que, para além de centros de comércio, serviram o intercâmbio cultural.

Por outro lado, Lisboa foi, nas palavras de António Filipe Pimentel, «o caleidoscópio do Renascimento», o que despertou a curiosidade por novas culturas. Recomendo o seu texto – vertido no catálogo da exposição A Cidade Global – Lisboa no Renascimento, que esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga em 2017 – e também uma visita à exposição Fluxo. Objetos, Pessoas e Lugares, visitável no espaço do Museu do Porto – Alfândega do Porto, prólogo do futuro Museu das Convergências.

Foi por essa abertura ao mundo que a nossa língua e a sua fonética – ‘dulce y agradable’, como a caracterizou Cervantes – evoluiu e se enriqueceu. Foi pela influência africana e asiática na culinária que adotámos o uso de especiarias e ingredientes como o coco e o arroz. Foi pelo contacto que a nossa arquitetura se diferenciou da europeia, com elementos como os azulejos, as janelas manuelinas e o estilo colonial. Foi com confluências africanas e brasileiras que o fado nasceu.

António Ferro – que, influenciado pelas correntes artísticas e culturais da época, como o Modernismo e o Futurismo, se empenhou na preservação e promoção da nossa cultura, mostrando uma imagem moderna e dinâmica do país em contraste com a visão tradicional da época em exposições, conferências e eventos culturais em diferentes países – procurou, em conflito com a ala marialva do Estado Novo que acabaria por o neutralizar, incorporar essas tendências na cultura portuguesa.

A capacidade de absorção evolutiva é, pois, uma característica genética e distintiva da cultura portuguesa. É precisamente por termos uma forte identidade cultural, e pela confiança que nos deve merecer, que a devemos entender como um património vivo e sempre inacabado, que se enriquece pelo diálogo com outras culturas.