quinta-feira, 11 jun. 2026

Baile de máscaras na arbitragem

A arbitragem nunca teve tanta influência na estrutura hierárquica do futebol português. O problema é que, apesar do ‘toque a reunir’ e de todos os novos cargos, a qualidade não melhorou. E os próprios árbitros no ativo sabem-no bem.

O jornal Público fez um levantamento exaustivo às avaliações que Pedro Henriques produziu sobre as arbitragens, após cada jornada. A conclusão é curiosa: «FC Porto, Sporting e Benfica novamente empatados nos erros de arbitragem», embora «esta foi uma temporada que, tal como a anterior, teve menos erros face à anterior».

Por clubismo, os adeptos vão sempre divergir sobre se o seu clube foi mais prejudicado ou beneficiado. Mas será muito difícil encontrar alguém que subscreva a tese de Henriques quando nos tenta convencer de que houve menos erros do que no passado, e que a arbitragem não teve interferência decisiva, por exemplo, no desenrolar da Taça de Portugal.

A realidade que se vê no campo é outra: há mais erros e mais graves. O VAR, que nasceu com a promessa de ser um instrumento de justiça para ajudar o árbitro, acabou por piorar as coisas. Ora faz ‘vista grossa’ a lances evidentes, ora decide interferir em jogadas onde não existe razão objetiva que o justifique. A inconsistência tornou-se a regra.

A mudança de discurso de Pedro Henriques é evidente. Até Pedro Proença chegar à presidência da FPF, Henriques criticava a arbitragem com uma severidade quase cirúrgica. Ainda em março do ano passado acusava o Conselho de Arbitragem da FPF de fazer «uma autêntica maquilhagem» e constatava, sem rodeios, que os atuais árbitros eram muito piores do que os do seu tempo.

Porque mudou de opinião? Na mesma entrevista em que disparava essas críticas, deixou-nos uma pista reveladora: «Este novo projeto do Pedro Proença, além do novo Conselho de Arbitragem, inclui uma coisa muito relevante. O Luciano Gonçalves está rodeado de uma equipa que trabalha muito, não aparece ali de paraquedas para projetar a sua imagem (...). O futuro passa pela solução apresentada pelo Pedro Proença, de criar um diretor técnico de arbitragem».

Esse diretor técnico, entretanto nomeado, é Duarte Gomes. Também ele ex-árbitro e comentador televisivo que, até há pouco tempo, era impiedoso nas suas análises à arbitragem. Agora, ao serviço da FPF, Gomes faz as avaliações oficiais dos lances polémicos que ele próprio seleciona a cada jornada. Ao mesmo tempo, Pedro Henriques vai colaborando em eventos da FPF que decorrem na Cidade do Futebol.

De facto, a arbitragem nunca teve tanta influência na estrutura hierárquica do futebol português. O problema é que, apesar do ‘toque a reunir’ e de todos os novos cargos, a qualidade não melhorou. E os próprios árbitros no ativo sabem-no bem. Sabem perfeitamente como são avaliados, promovidos e despromovidos. Pedro Henriques pode ter tido razão quando falava na maquilhagem do passado. Sucede que hoje a tática é mais exótica: um verdadeiro jogo de cadeiras, onde quem não alinha com o sistema acaba invariavelmente por ser afastado. É por isso que os nossos árbitros internacionais nem sempre são os melhores e já não estão entre os melhores da Europa.

É verdade que acusar a arbitragem serve muitas vezes de muleta aos dirigentes para justificar maus resultados. E é inegável que a proliferação de programas desportivos, alguns deles mal frequentados por comentadores que se vendem a criar suspeitas, gera um clima explosivo e perigoso. Esse ruído permanente alimenta a convicção, junto dos adeptos, de que cada erro é batota. Mas, retirando todo o folclore, é ineludível que existe um problema crónico com a arbitragem em Portugal.

Pedro Proença prometeu valorizar o futebol e trabalhar a transparência. Tem Duarte Gomes e Pedro Henriques como aliados públicos nessa missão. No entanto, existe um défice de credibilidade estrutural que nem com o auxílio da indignada APAF conseguirá resolver. A auto-regulação não resiste ao corporativismo. Não basta comunicar bem, se o problema de base persiste.

Para quem realmente gosta de futebol, são os jogadores os únicos artistas que devem decidir o jogo dentro das quatro linhas. Não precisamos de outros artistas que, de apito na boca, inclinam o campo. Por isso, e tal como já sucede em Inglaterra com a PGMOL, o Conselho de Arbitragem não pode ser dominado pela APAF, que é uma estrutura corporativa de defesa da classe, nem pode continuar a fazer parte da FPF. Tem de ser uma estrutura autónoma, verdadeiramente independente, onde a Liga de Clubes - que gere o futebol profissional - tenha uma participação determinante. Só assim se quebra o baile de máscaras.