Mesmo que seja possível um acordo de paz que garanta a segurança e o livre trânsito em Ormuz, a vulnerabilidade do estreito, a que se somam os problemas com os hutis no Mar Vermelho, terá consequências duradouras e sistémicas. A disrupção e a incerteza geradas nas cadeias de abastecimento vão causar um impacto que transcende o custo do petróleo.
A crise demonstrou que há uma fragilidade inerente às cadeias logísticas a nível global. Em consequência, resta aos países, principalmente os que não têm produção endógena de combustíveis fósseis, acelerar a transição energética, através do desenvolvimento de projetos que garantam a produção sustentável de energia.
A escassez de recursos não pode induzir uma agenda de desindustrialização: é indispensável articular a política energética com a transformação digital e a atratividade industrial, avaliando o custo de oportunidade subjacente a cada decisão. As indústrias tradicionais necessitam de tempo e de políticas públicas ativas para investirem na sua eletrificação, garantindo a estabilidade e previsibilidade do custo da energia.
Simultaneamente, é recomendável – até para países que já atingiram alguma autonomia neste domínio – que se reavalie o interesse comparado de projetos industriais, nomeadamente daqueles que dependem de fornecimento intensivo de energia, como é o caso dos data centers. Na avaliação custo-benefício de tais projetos, é indispensável fazer uma análise macroeconómica que transcenda a viabilidade financeira. Há o risco de esses projetos, independentemente da sua sustentabilidade financeira, esgotarem parte da produção de energia renovável, reduzindo o stock necessário para a transição no uso doméstico, industrial e de transportes. Ou seja, podem gerar externalidades negativas ao adiarem a independência energética de um país.
Em qualquer caso, esta crise, ao evidenciar as fragilidades da segurança energética, irá acentuar a transição que está em curso acelerado também em países como a China e a Índia, que continuam a ser os maiores consumidores de combustíveis fósseis. Se, até há pouco tempo, o motor da transição era a questão ambiental, agora são fatores securitários e também económicos que a induzem. Acresce que o custo de armazenamento em baterias (que atenuam a intermitência da energia fotovoltaica) teve uma redução de mais de 93% desde 2010 – 8% só no ano de 2025 – e, com a entrada de baterias de sódio no mercado, terá uma redução adicional de 30%, reduzindo a dependência do lítio e do cobalto que também comportam riscos de fornecimento.
O mesmo imperativo coloca-se à Europa, que já estava prevenida para a necessidade de garantir a sua independência energética, colocada em causa com a agressão russa à Ucrânia. Há países, como é o caso de Portugal, que têm reduzido a sua dependência externa. Mas são poucos aqueles que estão a cumprir as metas nesta matéria e há até quem tenha regredido. É o caso da Alemanha, a maior economia europeia, que está a pagar caro ter abandonado precipitadamente o seu programa nuclear sem ter acelerado a produção de renováveis, ficando, imprudentemente, na dependência de fornecimentos da Federação Russa.
Em suma, a transição energética para fontes renováveis, ao estar a ser impulsionada a nível global por questões de soberania e segurança económicas, sobrepõe-se às ideologias negacionistas e gera um incentivo novo e uma urgência que podem ser determinantes e vitais. Como acontece em todas as crises, esta que estamos a viver pode ter virtudes ao criar, por novos fatores indutores da mudança, uma oportunidade para a sustentabilidade do planeta.