No dia 8 de fevereiro, a escolha é única e exclusivamente entre dois candidatos à Presidência da República. Haverá quem decida o seu voto por razões ideológicas, quem prefira o mal menor ou quem confie num dos candidatos. Mobilizamo-nos pelo impulso de votar contra ou a favor. Não faltará quem se abstenha, por preguiça, desinteresse ou indecisão. Donde, o candidato que perder não será líder da direita ou da esquerda, seja qual for a sua expressão eleitoral. Na segunda volta das eleições de 1986, que tantas vezes têm sido recordadas, Freitas do Amaral conseguiu 48,8% dos votos e nem por isso conseguiu ser o líder da direita.
O PSD, que venceu as duas últimas eleições legislativas, perdeu as europeias, venceu as autárquicas e agora viu o seu candidato ser derrotado nas presidenciais. Não é a primeira vez, nem será certamente a última, em que um partido que está no governo não consegue que o seu candidato seja o eleito. São vicissitudes normais numa democracia adulta em que os partidos políticos e os seus dirigentes nem sequer aos seus militantes conseguem impor disciplina de voto, e em que a escolha recai sobre uma personalidade. O desenlace das presidenciais é desfavorável mas não se antevê dramático para o primeiro-ministro, porque a sua legitimidade para governar não ficará ameaçada. Tanto mais que a tendência para ‘não pôr os ovos todos no mesmo cesto’ pode ter tido influência.
Também não é verdade que Ventura se tenha transformado no líder da direita: esse é o discurso do Chega e aquele que interessa às carpideiras de esquerda. Ambos gostariam de bipolarizar o país, destruindo o centro-direita. Essa ‘santa aliança’ não é original e contribuiu, em muitos países europeus, para a destruição dos moderados.
Analisando as eleições, Ventura teve o mérito de fixar, na primeira volta, os eleitores do partido que lidera. Na segunda volta, terá mais votos do que na primeira, mas esses não serão do Chega. São os votos de muitos eleitores que fizeram outras escolhas na primeira volta e que nele votarão porque rejeitam o seu adversário, por ser socialista. Seguro também teve o mérito de fixar e unir o voto da esquerda e terá mais votos do que na primeira volta. Mas esses votos não passam a ser do PS e os eleitores que conseguir agora atrair não são nem passarão a ser socialistas.
De acordo com as sondagens, se ocorressem eleições legislativas, a AD voltaria a vencer e teria votos de pessoas que nas presidenciais votaram num ou noutro candidato, ou optaram pela abstenção. Não há eleitores da AD, do Chega ou do PS. Cada um de nós vota livremente em cada eleição, em função das circunstâncias e das alternativas que nos são oferecidas por cada uma das candidaturas. Quando votamos nas presidenciais, não estamos a referendar o governo ou a escolher um partido. Estamos a votar numa pessoa, no árbitro em quem confiamos.
Montenegro sabe que terá de coabitar com o novo Presidente e de continuar a governar sem maioria, com um Parlamento que o seu partido partilha com dois outros blocos. Se o seu candidato não teve sucesso, não tem de apelar ao voto em nenhum dos finalistas, que têm ligações a esses blocos. Desde logo, porque a primeira volta demonstrou que o seu apoio não é decisivo junto do eleitorado que tem votado na AD. Mas, também, porque o que se espera de um primeiro-ministro é que se empenhe na coabitação com a Presidência e em procurar que as oposições, no Parlamento, lhe permitam governar.
A única coisa que poderia projetar Ventura seria, exatamente, a dicotomia do ‘nós e eles’, que interessaria também à ala esquerda do PS, cuja fraca influência junto do eleitorado contrasta com uma presença ainda muito relevante no comentariado político.