terça-feira, 21 jul. 2026

A nova guerra

A guerra contemporânea obriga a compreender como as tecnologias e procedimentos mudam o arsenal, mas também o comportamento das organizações e das pessoas – o modo como se movimentam, o que consideram aceitável, quando arriscam e quando recuam.

Observando a guerra na Ucrânia e as tensões que a acompanham, percebe-se que a força ‘quantitativa’ já não determina o destino dos conflitos, questionando o senso comum militar fundado em métricas estáveis: número de soldados, volume de armamento, capacidade industrial, presença de tanques e artilharia. 

Estes fatores continuam relevantes, mas perderam o estatuto de determinantes. O desenlace passa a depender da capacidade de sobreviver sob pressão, de manter a iniciativa e de improvisar num ambiente em que o tempo e a informação valem tanto quanto o fogo.

Um dos aspetos mais marcantes é o paradoxo da concentração. Reunir tropas e consolidar posições, duas operações que antes podiam significar coordenação e poder, permitem hoje que as forças militares sejam muito mais visíveis e vulneráveis à deteção pelo inimigo. Num contexto de vigilância constante, as concentrações tornam-se mais fáceis de identificar, prever e atingir. A vulnerabilidade cresce porque a destruição já não precisa de procurar um alvo ‘por acaso’ ou depender exclusivamente do mérito de uma grande ofensiva. Com sensores e sistemas que processam dados em tempo quase real, cada deslocação pode converter-se numa oportunidade de ataque. Assim, o novo campo de batalha valoriza mais a dispersão tática, a mudança rápida, a redundância logística e a capacidade de o sistema continuar funcional mesmo quando partes dele são interrompidas.

É por essa razão que as cadeias logísticas assumem um papel central. Se, no imaginário clássico, a logística sustentava a batalha, na prática recente a logística é, muitas vezes, a própria batalha. Se o reabastecimento falha, o ritmo quebra; se a mobilidade se degrada, a linha que parecia sólida transforma-se em armadilha. O poder militar mede-se tanto pela capacidade de atacar como por negar continuidades ao adversário.

O motor desta transformação é a era dos drones e da guerra orientada por imagem e dados. Mais do que novas armas, são plataformas de perceção que ampliam o olhar, tornam o terreno constantemente observável e transformam locais e instantes em potenciais alvos, enquanto a utilização de satélites, sensores e inteligência artificial acelera a automatização de tarefas que antes exigiam tempo e interpretação, correlacionando padrões de circulação, movimentos recentes e sinais operacionais recorrentes. Identificar rapidamente o que é normal e o que é exceção reduz a margem de erro e aumenta a pressão sobre quem atua. Quando o ciclo perceção-ação encurta, as condições do combate alteram-se. Se as estratégias baseadas em ritmos longos tendem a perder eficácia, o mesmo parece acontecer com a confiança em rotas fixas, em janelas de tempo previsíveis e em concentrações estáveis. A vantagem é conseguida por quem vê primeiro e decide melhor, logrando desencadear efeitos desproporcionados. O que pesa cada vez mais é ‘como’: como o sistema deteta, como resiste, como comunica, como se oculta e como se recupera.

Há sempre a tentação de reduzir a complexidade a narrativas simples. Só que os sensores e os algoritmos alteraram o tempo do conflito e os drones tornaram a ameaça difusa. Por isso, a guerra contemporânea obriga a compreender como as tecnologias e procedimentos mudam o arsenal, mas também o comportamento das organizações e das pessoas – o modo como se movimentam, o que consideram aceitável, quando arriscam e quando recuam.

Em síntese, se o desfecho das guerras era largamente determinado pelo volume de forças e pelo desenho de grandes ofensivas, o conflito na Ucrânia demonstrou que depende, agora, da capacidade de sobreviver sob observação, da resiliência logística, da agilidade decisória e da vantagem na disputa informativa. É por essa razão que muitos comentadores militares se enganaram nas suas previsões, continuando a Ucrânia a resistir e podendo até ganhar uma guerra que parecia impossível de vencer.