terça-feira, 21 jul. 2026

A conta que falta

Mesmo que a mobilidade automóvel global aumente 5%, as emissões de CO2 deverão diminuir 10%. É um paradoxo do qual a política raramente entrega o mérito: mais energia em circulação, menos carbono no fim do trajeto.

Chegam as baterias baratas e, desta vez, com uma promessa sedutora, quase provocatória, de carregamento rápido – tão rápido quanto o tempo que ainda levamos a atestar um carro a gasolina. Mas as promessas tecnológicas não eliminam a realidade, apenas a deslocam no tempo. E é aí que começam as filas, os gargalos e a ‘conta’ que ninguém quer ver.

A Agência Internacional de Energia prevê que, até 2035, os pontos de carregamento público na UE sejam multiplicados por três. Só que a procura raramente se comporta como um gráfico confortável. O número de veículos crescerá mais depressa: prevê-se que se multiplique por sete. Em vez dos atuais 15 veículos por ponto de carregamento público, caminharemos para 25. Mais infraestrutura, mas também muito mais pressão sobre cada tomada. 

Há um outro pormenor que desmonta qualquer otimismo fácil. O carregamento privado – em residências e empresas – é a espinha dorsal do abastecimento e continuará a representar cerca de 70%. Ora, para resolver o gargalo, o número de pontos privados teria de ser multiplicado por nove ou dez, o que não parece exequível em Portugal, onde a percentagem de garagens privadas é inferior à média europeia e a promessa de ‘resolver tudo na via pública’ parece uma fantasia. Se do lado do utilizador o objetivo é reduzir a espera, do lado da energia o desafio é maior. O consumo dos veículos elétricos, que hoje representa menos de 2% do total da capacidade elétrica, decuplicará em dez anos, o que exige maior oferta de energia e uma gestão inteligente. Não basta ‘ligar mais carros’: é preciso que o sistema aguente, sem colapsar.

Entretanto, com a transição limpa, a competição global acelera. No sudoeste asiático, por exemplo, a oferta de carros elétricos chineses baratos e sem gadgets conquistou terreno que antes era dominado por marcas japonesas, menos competitivas na viragem tecnológica e comercial. Ou seja: a revolução avança, mas nem sempre para onde diz avançar. Avança para onde há capacidade industrial, custos mais baixos e escala.

Há, claro, motivos para celebrar. Mesmo que a mobilidade automóvel global aumente 5%, como se prevê, as emissões de CO2 deverão diminuir 10%. É um paradoxo do qual a política raramente entrega o mérito: mais energia em circulação, menos carbono no fim do trajeto. Mas a virtude não se automatiza. Para reduzir emissões é preciso produzir energia limpa, distribuí-la de forma inteligente e garantir que a tecnologia evolui. É também necessário enfrentar a dependência de minerais raros e assegurar que a produção de veículos, baterias e infraestruturas respeita uma lógica coerente de sustentabilidade. Se hoje há cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos que podem chegar ao fim da sua vida útil em 2030, em 2040 esse número pode atingir 14 milhões. Não é um detalhe logístico: é uma dimensão industrial, ambiental e económica que exige planeamento. Não há transição séria sem a cadeia de reciclagem.

A dificuldade, porém, não é apenas técnica. É sobretudo distributiva: fazer chegar o essencial onde é essencial. Se a UE insiste em proibir a venda de veículos com motores a combustão em 2035, ainda há muito terreno físico e organizativo por preparar. E enquanto se constroem cabos, é preciso preparar também o terreno fiscal, porque a conta muda de sítio.

Como a eletricidade não é tributada como os combustíveis fósseis, a transição implicará, nos países da UE, um custo em receitas fiscais estimado em 80 mil milhões de euros num horizonte de dez anos. Não é apenas contabilidade: é uma escolha de modelo, com possíveis compensações – eventualmente a incidir na compra de veículos elétricos ou na intensidade do seu uso –, mas que pode e deve ser desenhada com um consenso que garanta, a longo prazo, a equidade, sem surpresas e com seriedade.

Ou seja, que se avance já com um plano nacional e municipal para o carregamento (com calendário, financiamento e prioridades que reforcem o acesso privado) e que se garanta transparência sobre o impacto fiscal, para que a transição seja justa e não seja paga com frustração. A transição limpa só ganha a confiança da população quando ninguém fica para trás.