A canícula de 2026 não é notícia de meteorologia. É uma notícia de História. Quando Portugal registou 40°C em maio e a Europa bateu recordes de temperatura com 10 a 15 graus acima do normal, não vimos apenas ‘tempo quente’: vimos o futuro a instalar-se mais cedo do que prevíamos.
A World Weather Attribution foi categórica: a onda de calor de junho teria sido «virtualmente impossível» em 1976, ou seja, sem as alterações climáticas provocadas, entretanto, pela Humanidade. O mesmo sistema de alta pressão que sempre existiu produz agora dias 3,5°C mais quentes e noites 2,4°C mais sufocantes. Não mudámos o padrão atmosférico – quebrámos o termóstato do planeta.
O problema é a velocidade. O mais extraordinário de 2026 não são só os recordes, mas a margem por que caem. A Organização Meteorológica Mundial confirma: estamos em 11 anos consecutivos como os mais quentes da História. Há 91% de probabilidade de ultrapassarmos o limite de 1,5°C entre 2026 e 2030. Não é uma curva suave de aquecimento. É uma aceleração vertiginosa.
Para Portugal, as consequências são concretas e imediatas. O verão antecipado implica, para a agricultura, repensar calendários; para o turismo, gerir alertas vermelhos; e para o Serviço Nacional de Saúde, preparar noites tropicais que não deixam o corpo recuperar. Só em junho, a Organização Mundial de Saúde registou mais de 1300 mortes em excesso na Europa atribuídas ao calor. O interior alentejano, com 42°C, deixa de ser exceção de agosto e passa a ser risco já em julho. E, com o solo seco, cada faísca pode tornar-se um inferno.
Há quem diga que ‘sempre houve ondas de calor’. É verdade, ou melhor, é uma meia-verdade perigosa. Ondas de calor sempre existiram, sim. O que não existia era um padrão em que essas ondas começam em maio, duram semanas e quebram recordes por 4 ou 5 graus.
Não se trata de alarmismo. Os oceanos, o ‘ar condicionado do planeta’, estão a absorver a energia que a Humanidade consome. Mais de 90% do calor extra causado pelos gases de efeito estufa vai parar ao mar. A água armazena calor melhor do que o ar. E esse calor não desaparece, fica e vai sendo libertado aos poucos. É esse desequilíbrio que acelera o aquecimento. Com o oceano mais quente, aumenta a evaporação e fortalecem-se os sistemas de alta pressão, resultando em ondas de calor como a de maio/junho de 2026, com 40°C em Portugal.
Esta canícula enterra a ideia de que as alterações climáticas são um problema para 2050. É um problema para hoje: para esta tarde, para a próxima colheita, para o turno da noite num lar de idosos em Évora. Já não é herança; é realidade presente. Podemos continuar a discutir se o ‘copo’ está meio cheio ou meio vazio, mas o copo está a aquecer e, a este ritmo, vai transbordar antes de nos entendermos sobre a dimensão do problema. Adaptar as cidades, repensar a água e proteger os mais vulneráveis não é apenas política ambiental. É política de sobrevivência.
E começa por chamar as coisas pelo nome: isto é a crise climática a acelerar, aqui e agora. Vai piorar seguramente. Negá-la não nos vai refrescar. Só nos vai deixar mais expostos ao próximo recorde.
Numa nota irónica, muitos dos que se queixam são os que escolhem Punta Cana ou Cancun como destino de férias.