Num tempo em que as cidades procuram soluções para reduzir emissões, cortar dependências externas e gerir melhor os seus recursos, continuamos a ignorar uma das matérias primas mais abundantes e subvalorizadas que produzimos todos os dias: os resíduos orgânicos (lixo doméstico). Cada português gera aproximadamente 1 kg de resíduos orgânicos por dia. Restos de comida, efluentes pecuários, ou subprodutos agroflorestais, que normalmente encaramos como lixo, constituem afinal uma oportunidade energética e económica. O biometano é a prova disso.
O biometano não é uma promessa futurista. Produzido a partir da digestão anaeróbia, um processo que decompõe a matéria orgânica na ausência de oxigénio, transformando-a em energia e fertilizante, é uma tecnologia madura, usada há décadas em vários países europeus, mas que Portugal insiste em tratar como curiosidade. Em toda a Europa existem já em operação cerca de 1600 digestores anaeróbios: 675 em França, 254 na Alemanha, 79 na Holanda, 74 na Suécia, 133 em Itália, 119 no Reino Unido e 58 na Dinamarca.
O biometano reúne todas as condições para ser uma das peças mais importantes da transição energética urbana e rural. Primeiro, porque resolve dois problemas ao mesmo tempo: a gestão de resíduos das localidades e a produção de energia renovável local. Em vez de enviarmos toneladas de matéria orgânica para aterro, onde libertam metano para a atmosfera, agravando o aquecimento global, podemos captá-lo, purificá-lo e transformá-lo num gás renovável com qualidade idêntica ao gás natural. Segundo, porque o biometano é um forte aliado da descarbonização das cidades: pode ser injetado na rede de gás, usado em frotas municipais, transportes públicos, indústrias locais ou até no aquecimento de edifícios.
Cada metro cúbico de biometano substitui gás fóssil importado, reduz a fatura energética e mantém o valor económico dentro do território. É energia produzida localmente, a partir de recursos que já existem e que hoje desperdiçamos. Mas há mais: além do biometano, a digestão anaeróbia gera também um fertilizante orgânico de elevada qualidade - o digestato - que pode substituir fertilizantes químicos intensivos em emissões e dependentes de mercados internacionais voláteis. As bactérias estão aí a fazer a decomposição há milhões de anos, de forma incansável, reciclando matéria orgânica morta, que consomem como alimento, e gerando metano, dióxido de carbono, vapor de água e fertilizante orgânico. Tudo produtos com valor numa economia circular.
Atualmente, os 10 milhões de kg de resíduos orgânicos diários dos portugueses poderiam gerar, via digestão anaeróbia, o equivalente em biometano ao consumo de energia em gás natural fóssil de 2025. Poderia ainda gerar 3,35 milhões de toneladas/ano de biofertilizante para a agricultura, além de evitar a emissão de 951.291 toneladas/ano de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera (o que permitiria receber créditos carbónicos de 70-90 €/tonelada). Estes valores excluem resíduos agrícolas e pecuários de 3,8 milhões de animais, que poderiam ser também aproveitados.
Uma central média típica de biometano na Europa custa entre €1,5M a €2,5M (inclui digestores e sistema purificação) e permite receber em resíduos entre 20 e 40 toneladas por dia. A venda do biometano anualmente permite arrecadar uma receita de até 440 mil euros (garantias de origem adicionais até 120 mil euros), uma receita até 120 mil euros com a venda do biofertilizante, até 65 mil euros pela venda do CO2 liquefeito e receitas até 70 mil euros das taxas de CO2 evitadas. Com 20 anos de operação prevista, a central pode gerar 815 mil euros/ano, recuperando o investimento em seis a oito anos.
Num país com forte tradição agrícola e florestal, este círculo virtuoso deveria ser encarado como uma vantagem competitiva. Transformamos resíduos em energia e energia em produtividade agrícola. E a verdade é que o biometano tem potencial para criar emprego qualificado, dinamizar economias locais e reforçar a autonomia energética das cidades.
Municípios com visão estratégica já perceberam que a valorização dos seus resíduos é uma forma de gerar receita, reduzir custos operacionais e cumprir metas ambientais, sem depender exclusivamente de soluções importadas ou de tecnologias ainda imaturas. No entanto, continuamos presos a uma visão antiquada da gestão de resíduos, centrada no transporte e deposição, em vez da valorização e produção.
Falta ambição política, clareza regulatória e, sobretudo, a coragem de assumir que a sustentabilidade não se faz apenas com painéis solares e eólicas. Faz-se também com aquilo que deitamos fora. O biometano não é uma solução milagrosa, mas é uma solução inteligente. É uma tecnologia que aproveita o que já existe, que reduz emissões reais e imediatas, que cria valor económico local e que contribui para cidades mais resilientes.
Num país que importou em 2025 cerca de 66% de energia primária, ignorar esta oportunidade é um luxo que não podemos continuar a pagar. Se queremos uma economia verdadeiramente descarbonizada, sustentável e baseada nos nossos recursos endógenos, então o biometano deve deixar de ser um tema de nicho e passar a ser uma prioridade nacional.
As cidades do futuro não serão apenas mais verdes: serão mais eficientes, mais circulares e mais capazes de transformar problemas em soluções. E o biometano é a solução imediata para os municípios com aterros sanitários no limite da capacidade.
Investigador do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa / Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+)