Dois vencedores no domingo

A verdade é que tudo vai mudar, não a partir de Belém, de onde não virão turbulências para o regime, mas a partir do Parlamento onde o combate será mais efetivo.

Temos uma campanha eleitoral cancelada devido à tragédia que tocou milhões de portugueses. E há três pessoas que têm estado bem neste momento duro para a nossa comunidade. Em primeiro lugar, Marcelo Rebelo de Sousa, é como se completasse um ciclo fechando-o como entrou. Foi o Presidente dos afetos, cortando com os dias finais abúlicos e alheado da coletividade de Aníbal Cavaco Silva. Foram os abraços que deu em Pedrógão que foram o ponto alto da magistratura do professor e agora volta a estar perto dos portugueses nas regiões assoladas por esta tragédia. Depois, António José Seguro, institucional, sereno, presidencial, também perto das pessoas e sendo o primeiro a falar no prolongamento da aplicação do PRR (perfeitamente justo) e a apresentar medidas que o Governo, e bem, acolheu. Por último, André Ventura no estilo gladiador a criticar severamente uma série de disparates da equipa de Luís Montenegro (que não tem culpa de vídeos para o TikTok, de um ministro que vergonhosamente montou uma tenda com militares só para ficar bem no boneco, ou da gafe de Castro Almeida). Mas não fugindo também a disparar sobre Maria Lúcia Amaral que é um evidentíssimo erro de casting como MAI e que já nem devia lá estar nesse lugar.

António José Seguro, se não houver qualquer surpresa, estará dia 9 de março a tomar posse como Presidente da República. Foi uma corrida sempre em crescendo na primeira volta e que com o corrupio de apoios de ocasião viu perturbada uma mobilização, pois com essa dança de declarações – algumas dispensáveis – criou-se a perceção que a vitória estava certa, que pode conduzir a uma elevada abstenção que só o prejudica. Se ganhar como tudo o indica, sorrirá. Não só por concretizar um objetivo mas porque houve muita gente dentro do seu próprio partido que engoliu sapos de dimensão insólita. Dele se espera o respeitar do funcionamento das instituições democráticas, muita serenidade e bom senso na relação com São Bento, que contribuirão para a estabilidade governativa.

E André Ventura já ganhou. Só a passagem à segunda volta é uma saborosa vitória, porque com uma direita fragmentada armou muito bem a estratégia da fidelização do seu eleitorado. Ora, tudo o que vier no domingo a mais é um engulho para a AD. Igualar os números de Montenegro nas legislativas coloca-o em alerta. Se tiver entre 35 por cento ou mais, a sua influência crescerá exponencialmente e poderá pôr e dispor como bem entender, entalando o Governo e obrigando o PS a ser uma muleta num quase evidente Bloco Central que aprovará o futuro Orçamento do Estado, enquanto semeia com o discurso antissistema e vai recrutando mais bons quadros que sentirão o cheiro a poder.

A verdade é que tudo vai mudar, não a partir de Belém, de onde não virão turbulências para o regime, mas a partir do Parlamento onde o combate será mais efetivo. Portanto, no domingo, haverá dois vencedores claros.

Comentador CNN

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