sexta-feira, 07 ago. 2026

A perda de confiança e autoridade

Ninguém diria que a oposição atacaria tão ferozmente (e a comunidade levantaria o sobrolho em tom de dúvida) os ministros da Educação e daAdministração Interna. Contudo, os problemas foram originários neles próprios.

É um momento complicado para qualquer primeiro-ministro quando duas das estrelas do seu elenco governativo estão debaixo de fogo cerrado. Há duas semanas ninguém diria que a oposição atacaria tão ferozmente (e a comunidade levantaria o sobrolho em tom de dúvida) os ministros da Educação e da Administração Interna. Contudo, os problemas foram originários neles próprios.

Fernando Alexandre tinha pacificado o setor, reformulado as carreiras dos professores, tinha um caminho e um objetivo claro de romper o status quo, num ímpeto reformista tão apreciado por Luís Montenegro. Luís Neves, apesar de várias críticas (incluindo Pedro Passos Coelho) não contra o homem mas ao movimento de passar diretamente da PJ para o MAI, José tinha estabelecido como o mais popular dos ministros. A sua capacidade de liderança e planeamento, vista na primeira semana de fogos e ao deitar por terra a situação caótica no aeroporto de Lisboa, para lá da sua capacidade na arena mediática, fazia antecipar que tínhamos homem naquela pasta depois das tragicomédias de Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral.

No caso da Educação foi o mantra da digitalização que causou o transtorno e hoje é completamente cristalino que essa opção política correu mal. Apesar do ministro ter estado na crista da onda na defesa da sua decisão e na procura de ultrapassar o problema, a verdade é que houve alarme social que atingiu centenas de milhares de famílias e o dossier está longe de ser resolvido. O Presidente da República já deixou o alerta em nota branda mas conclusiva de que há um problema de confiança no rigor das avaliações e na situação de equidade para todos os alunos. Como vai reabilitar essa confiança perdida? É difícil. Precisa que tudo a partir de agora corra bem, porém, ninguém mete as fichas todas de que não vai haver mais pedras no seu caminho.

O caso de Luís Neves é mais bicudo. Porque há menos informação e tudo remonta ao seu tempo de diretor nacional da PJ, logo, em São Bento há menos capacidade para identificar o busílis da questão. Este dossier faz lembrar aquela célebre frase de Winston Churchill sobre a Rússia. Dizia ele que «era uma charada, envolta em mistério, dentro de um enigma». Ninguém compreende uma série de situações inusitadas que retiram autoridade numa pasta que é de lei e ordem e onde o seu titular só pode respirar autoridade à prova de bala. Como se compreende que um indivíduo faça 500 quilómetros para proceder a obras; como é possível que a dita empresa de Barcelos num Estado tão amplo só tenha conseguido contratos com a PJ; como não se comunicou à Câmara de Odemira a construção de uma piscina que naturalmente tem efeitos no IMI; já nem para falar da questão do atrelado com produtos para fabricar droga que foram parar armazéns do dito empresário amigo de Luís Neves. É um misto de amadorismo, ingenuidade, desconhecimento, mas também de sobranceria quase imperdoáveis para um homem que liderou uma instituição que colocou como a mais respeitável para os portugueses.

É um rombo de confiança e de autoridade difícil de lidar para qualquer timoneiro. Compreende-se a decisão de Luís Montenegro não tirar férias, porque nestes dois casos caminha-se num pântano que não se sabe muito bem o que vai dar.

Comentador CNN