segunda-feira, 09 fev. 2026

A cinco

A grande maioria desprezava as hipóteses de Cotrim de Figueiredo. Estavam fixos em Gouveia e Melo, Mendes, Ventura e Seguro, não compreendendo o valor intrínseco de um homem que vale muito mais do que a IL.

Eu sou o principal responsável pelo mantra de uma corrida presidencial a cinco. Porque a verdade é que, no início desta compita, a grande maioria desprezava as hipóteses de João Cotrim de Figueiredo. Estavam fixos em Gouveia e Melo, Marques Mendes, André Ventura e António José Seguro, não compreendendo o valor intrínseco de um homem que vale muito mais do que a base eleitoral do partido onde cresceu para a ribalta política.

Além disso, muitos se basearam no factor da popularidade televisiva de Marques Mendes, conjugada com a popularidade no momento de Luís Montenegro, para percecionarem erradamente que haveria uma osmose total do eleitorado AD com o candidato apoiado pelo primeiro-ministro. Estavam mesmo errados. Se há eleitorado que se fragmentou em múltiplos pedaços foi o da AD, que se foi diluindo também por Cotrim, Seguro e Gouveia e Melo.

A realidade clara é que Marques Mendes não é unânime nesse eleitorado, apenas Pedro Passos Coelho tinha cimento para juntar todas as direitas, aliás, se ele fosse candidato, dou por certo que Ventura e Cotrim não teriam avançado.

Nestes últimos dias, tem havido uma pressão mediática para se falar de uma corrida a três. Quem o faz, basicamente, é João Cotrim de Figueiredo, que com a última carta a Luís Montenegro quer forçar um apoio que foi esmagado pela aparição pública do líder do PSD ao lado de Marques Mendes. Esse voto útil à direita pedido pelo candidato da IL faria sentido antes do erro crasso – reconhecido pelo próprio Cotrim – da admissão do possível apoio a Ventura numa segunda volta. Foi com esse erro que Cotrim perdeu o pé e não com a circulação de um alegado caso de assédio sexual. Foram três dias péssimos para um homem dinâmico , com uma campanha magnífica em redes sociais e que já se afirmava como possível competidor numa segunda volta.

Por isso, para mim, julgo que quem cai na esparrela de uma corrida a três é incauto. Eu julgo que continua tudo em aberto, apesar de eu sentir que Marques Mendes está mais atrás na preferência dos portugueses. André Ventura fez uma campanha ultra-eficaz, com uma posição muito mais à Meloni do que à Salvini. Fugiu do lamaçal e parecia moderado, mas sem perder o léxico e os temas que fidelizam o seu eleitorado, para lá de ser aquele que mais aperta no botão do caos na saúde para chegar a todas os segmentos eleitorais.

António José Seguro fez uma campanha sempre em crescendo, apresentando-se como uma força tranquila bem ao estilo do slogan criado por Jacques Sèguela para François Mitrerrand. Usou a estratégia correta que eu apelidei de tenaz. Namorar primeiro o centro moderado, para depois criar a obrigação moral do voto útil de quem é de esquerda por ser o único capaz de acabar com 20 anos de direita em Belém. E deve-lhe dar um enorme gozo ver algumas figuras do PS que o apoucavam, a correr agora para junto de si.

E confesso-vos a minha incógnita: Gouveia e Melo. Já identifiquei na CNN que a sua base eleitoral não é partidária, é o segmento eleitoral acima dos 55 anos. Há uma maioria silenciosa de portugueses que as sondagens nunca conseguem detetar nas suas decisões. E também há uma massa anónima que tem eterna gratidão ao almirante pelo trabalho competente e eficaz, com liderança clara, no processo de vacinação. A campanha na rua correu-lhe bem e o país real não é a Lapa nem Cascais. É por demais evidente que nada está decidido e há muitíssimos indecisos. É a cinco.

Comentador CNN