Resiliência é uma palavra que está na moda, ainda que muitas vezes seja usada sem que se tenha plena noção da sua extensão. A comunicação social é um dos principais veículos de transmissão de conhecimento ao cidadão em geral e, por isso, a sua importância numa sociedade é indiscutível. No entanto, nem sempre essa transmissão é feita com clareza suficiente. Se hoje passarmos rapidamente em revista um conjunto de jornais, rádios, páginas de internet, há uma elevada probabilidade de que o entendimento geral dos leitores e ouvintes seja que a resiliência é o que se faz depois de uma calamidade. Mas não é. E, como diz o povo, aí já vai tarde.
Portugal foi recentemente assolado por um conjunto de tempestades que evidenciou várias fragilidades no nosso território. A maioria é consequência clara de decisões tomadas há várias décadas, como é o caso da rede da infraestrutura elétrica aérea, da interação entre várias barragens, etc., e associado a todo esse conjunto está sempre um problema de acessibilidade aos vários locais, para resgatar pessoas, animais e bens.
Três questões estão na raiz de qualquer preparação para melhorar a nossa resiliência: o planeamento e ordenamento do território; a monitorização da probabilidade de ocorrência destes fenómenos; e a familiarização da população com estes fenómenos e com a necessidade de cada cidadão estar preparado para executar o seu próprio plano de contingência.
O planeamento e ordenamento do território estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento das infraestruturas básicas. É necessário que cada município tenha um mapa de localização dos vários graus e categorias de risco. Nas zonas novas, saber onde se pode ou não construir, com que rácio de densidade de construção, e os impactos no solo, quais riscos existem em cada zona e quais acessibilidades estão garantidas para a evacuação de pessoas e animais dessas zonas, em caso de emergência. Na verdade, esta mesma análise deveria estar associada à própria valorização do imobiliário. O desconhecimento destes riscos faz com que se transacionem a preços elevados imobiliário de luxo, em zonas urbanas de elevado risco, enquanto que se essa informação fosse divulgada iria certamente ter influência no mercado das transações. As zonas antigas são um bom exemplo desta reflexão sobre a disponibilidade das acessibilidades para atuação em situação de contingência. Como todos sabem, em muitas ruas nem mesmo um equipamento de bombeiros consegue aceder. É por isso indispensável manter um plano de contingência atualizado para as diversas possibilidades de risco.
Mas a resiliência começa ainda mais a montante, onde é necessário manter uma capacidade analítica prospectiva com cenários de possíveis futuros em permanente atualização, sobre as potenciais alterações climáticas, e outras fontes de risco, sejam de origem natural ou de ação humana. Como todos os domínios relacionados com a condição de resiliência de um local, região ou país, esta capacidade prospectiva obriga a manter equipas multidisciplinares de caráter técnico-científico em contínua interação e aprimoramento dos modelos de previsão, e dos processos de monitorização que vão permitir melhorar planos e ações a nível operacional, e também reajustar estratégias de desenvolvimento.
Não menos importante é a sensibilização da população, com ampla divulgação e preparação, envolvendo a sociedade com o objetivo claro de capacitar o cidadão para ações de contingência, que funcionam como um plano de emergência em que cada cidadão tem de saber o que fazer nas várias circunstâncias de risco que podem ocorrer, e para onde deve ir ou onde deve esperar o socorro, e com quem deve contactar.
Assegurar resiliência é um desafio de enorme complexidade e responsabilidade, que exige decisões e ações de longo-prazo. A resiliência não evolui no curto-prazo, estamos perante sistemas de grande complexidade, onde têm inevitavelmente de interagir vários agentes de diferentes hierarquias do universo da governação. Por isso, há ainda dois outros ingredientes indispensáveis: informação e
comunicação. A análise de risco não dispensa informação rigorosa, e hoje temos sobretudo dados dispersos ou pequenos agrupamentos de dados, de tão fraca maturidade que não podemos sequer chamar de sistema de informação para contingência. Outra realidade é a comunicação, que tem obviamente relação com a qualidade da informação, mas trata-se de um domínio diferente. A informação alimenta a análise e apoia a decisão, enquanto a comunicação influencia e tenta assegurar comportamentos.
Atingir resiliência não é fácil, como se vê, e é sobretudo um resultado de decisões e ações de longo-prazo. De facto, a construção da resiliência tem três componentes distintos com competências bem diversas. A primeira componente é analítica, prospectiva e com análise das condições do território, a segunda componente é eminentemente operacional, atua no momento da contingência, e a terceira componente é de recuperação e eventual transformação.
É certo que não vamos ser resilientes amanhã, mas se começarmos agora teremos boas possibilidades de preparar um futuro resiliente para os nossos territórios.
Professora do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa