Mobilidade integrada, uma promessa adiada

É indispensável quebrar a atual abordagem em silos de funcionamento autónomo e passarmos a gerir a mobilidade e a cidade como sistemas.

A mobilidade é sempre uma cadeia de diferentes modos de deslocação, que vai dos modos ativos aos modos motorizados mais sofisticados. O resultado é a acessibilidade aos locais e às funções onde o cidadão necessita de ir. A qualidade da mobilidade depende da boa articulação entre estas opções modais. É o que chamamos de integração, fator crítico para uma cadeia tensa. Significa integrar os vários modos em cadeias de mobilidade de forma a que a transferência entre modos seja suave, fácil e eficiente.

Dito assim, parece fácil! Ouvimos muitas vezes reclamações de um qualquer cidadão escandalizado: ‘Como é possível que o autocarro ou o táxi não esteja na paragem ao exato minuto em que o comboio chega?’, ou mesmo ‘porque é que não conseguem coordenar os horários de dois comboios, para que a transferência seja fácil e imediata?’.

Há mais de 30 anos que a integração entre modos de transporte é analisada por investigadores de todo o mundo e percebida como um fator-chave para a qualidade dos sistemas de mobilidade. No entanto, continua a ser um desafio para a maioria das cidades. Constatamos que pode ser por falta de gestão da integração, que requer uma visão holística da cidade, das redes de mobilidade e da sua integração.

Na última década, praticamente todas as cidades se debruçaram sobre o impacto da mobilidade nas questões da sustentabilidade, da necessidade de novas tecnologias, na disponibilização de dados, enfim naquilo a que todos passámos a chamar “smart cities”. Mas o sistema de mobilidade continuou órfão, e a integração dos seus elementos ainda mais, já para não falar na necessidade de investir no “smart citizen”, isto é, o cidadão informado e responsável pelas suas escolhas.

Mas voltemos à dificuldade da integração dos sistemas de mobilidade. A integração é um processo complexo que envolve integração física, integração lógica e integração contratual. São três faces do mesmo conceito que têm de ser articuladas para que exista uma entidade única, a que chamamos sistema de mobilidade. Sem estas faces de integração, temos apenas um conjunto fragmentado de modos de deslocação, que funcionam em paralelo, mas não constituem nem uma rede de mobilidade, nem um único sistema. É uma transformação que exige passar do planeamento modal para o planeamento sistémico, e essa mudança começa ao nível de decisão estratégica. A cidade e a mobilidade têm de ser pensadas e decididas de forma integrada.

A integração física exige que as estações de transferência sejam planeadas por forma a permitir acessos fáceis, remoção de barreiras, tempos de transferência entre modos compatíveis com os horários dos diferentes modos, espaços nas estações e paragens com funções úteis que proporcionem tempos de espera agradáveis e eficientes. A mais recente investigação definiu estas condições como características dos “Hubs Inteligentes” (smart hubs), pois toda a plataforma de transferência, da mais simples (uma paragem) até à mais sofisticada (um aeroporto ou uma estação de alta velocidade), deve proporcionar ao utilizador uma experiência segura, agradável e eficiente para a utilização do seu tempo.

Mas a integração física não é tudo; precisamos falar da integração lógica, onde a informação e a sinalização desempenham um papel fundamental nos “smart hubs”, isto é, informação para a integração, informação sobre as várias operações, destinos e horários, oferecidos em cada plataforma e permanentemente atualizados. A informação tem de ser fornecida de forma estática e dinâmica, em tempo real, para que a própria plataforma seja confiável. Isto exige tecnologia adequada e monitorização.

Por fim é indispensável a integração contratual, que vai estabelecer as obrigações de todos os participantes relativamente à integração do sistema de mobilidade. Temos várias entidades públicas e privadas participantes deste processo, e que devem estar contratualmente comprometidas com a qualidade do sistema. A qualidade do sistema de mobilidade urbana emerge da interação entre autoridades públicas, operadores de transportes coletivos e individuais, vários prestadores de serviços terceiros e empresas tecnológicas. Cada um destes agentes é um parceiro crítico do sistema, mas enquanto funcionarem de forma isolada, sem coordenação, a integração não vai existir, e o sistema de mobilidade também não. É indispensável quebrar a atual abordagem em silos de funcionamento autónomo e passarmos a gerir a mobilidade e a cidade como sistemas. Colaboração e decisão integrada são conceitos e palavras-chave que têm de orientar a transformação dos sistemas de gestão integrada da mobilidade.

O problema não é apenas operacional, e também não se trata de falta de inovação. Não nos faltam casos de estudo e experiências-piloto a demonstrar tudo o que aqui se diz, o que não está a acontecer é a transferência destes conceitos para as decisões estratégicas de conceção, desenho e financiamento destes sistemas integrados. Para esta mudança, as cidades têm que querer fazer acontecer, assumindo-se como uma realidade sistémica com implicações desde a decisão estratégica até à monitorização operacional, e reconhecer a necessidade de terem a gestão da integração como peça fundamental da sua governação.

Professora do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa