Natura abhorret vacuum; et mens similiter

Todos precisamos de saber o que é bom e o que é mau, quem condenar e quem admirar, que tipo de vida devemos ter. Sem isso, isto é, sem conotações que nos orientem, sentimo-nos vazios, perdidos, moléculas à deriva. 

Todos conhecem esta frase: «À natureza repugna o vazio». Poder-se-lhe-ia acrescentar: «et mens similiter», isto é, «e à mente também». Vem isto a propósito de um tema que tem sido glosado por vários pensadores e que deve ser evidente a quem quer que dê atenção ao mundo: no passado havia religiões que nos estruturavam a mente; davam-nos princípios, rumos de ação, uma visão ética do comportamento, nosso e alheio. As religiões foram perdendo força e as ideologias substituíam-nas: antes era impensável o casamento entre católico e protestante; depois foi impensável o casamento entre conservador e esquerdista, mas não um casamento entre pessoas de duas religiões. Mas agora? Nos extremos da política sem dúvida: não imagino uma pessoa da direita populista casada, ou sequer ‘andando’ com outra da esquerda woke. Mas é perfeitamente possível um casamento entre católico conservador e ateu de esquerda.

Não é que haja mais tolerância: é apenas que as convicções se esboroaram.

Não estou, repito, a afirmar nada de novo. Quero apenas chamar a atenção para um fenómeno interessante. É ele o seguinte.

Pensou-se que a ausência de ideologias explícitas seria uma boa coisa – eu próprio o pensava em jovem, recordando-me do nazismo e do estalinismo. Na minha mente jovem, o engenheiro concentrar-se-ia nos seus projetos, o médico nos seus casos, o universitário nas suas investigações, o padeiro na panificação e, desde que fossem razoavelmente bem pagos, não ligariam nem a Deus nem à política.

Creio ter-me enganado. Tal como à natureza, à mente repugna o vazio; por mais equações que o engenheiro tenha, por mais receitas que o padeiro invente, por mais casos complicados que o médico tenha de resolver, por mais complexas que sejam as investigações do académico, isso não chega para ‘encher a mente’ exceto dos monomaníacos.

Todos precisamos de saber o que é bom e o que é mau, quem condenar e quem admirar, que tipo de vida devemos ter. Sem isso, isto é, sem conotações que nos orientem, sentimo-nos vazios, perdidos, moléculas à deriva.

Dir-me-ão que esse é o grande desafio do Iluminismo: que cada um encontre sentido. Mas se há coisa que o Iluminismo não tenha compreendido é a natureza humana. Quase ninguém – é, estatisticamente, uma percentagem residual – consegue formular princípios para si próprio. Os princípios (e, de novo, não estou a ser original) vêm, quase sempre, de fora: são-nos impostos pela cultura em que vivemos. Não são apenas papéis impostos, são atitudes interiorizadas (a ideia de habitus de Bourdieu é precisamente essa); e é essa interiorização de princípios comuns que faz de uma coleção de indivíduos uma sociedade cooperativa (a ideia, de resto, vem de Durkheim). É essa participação nos valores que gera a cooperação social: todos, ou quase todos, tendo os mesmos princípios orientadores, rumam ao mesmo tempo o seu próprio caminho e o caminho da sociedade a que pertencem.

Essa comunhão de valores desapareceu, como disse. Mas, como disse, tal como «à natureza repugna o vazio» também à mente repugna a falta de estruturadores éticos e morais (princípios de conduta, mas interiorizados). E por isso procuramos, desesperadamente, um qualquer sistema de valores. Aquele que é mais visível (o que aparece nos jornais, nos noticiários, nos filmes, nos romances) é o que primeiro nos povoa a mente. Não interessa que seja absurdo, que não faça sentido, que leve à destruição da coletividade: é um sistema de valores e o indivíduo deixa de se sentir perdido.

Somos como uma motherboard (a placa mãe de um computador) desesperadamente à procura de um sistema operativo (Mac, Windows...); e estando o sistema operativo instalado, apenas corremos os programas compatíveis com ele.

Com uma diferença relativamente aos computadores: não pararemos depois de querer impor as vantagens do nossos sistema operativo aos outros e de afirmar que corremos esse sistema operativo («tudo em minha casa é Mac» = «creio no wokismo, no relativismo e nos programas que disso derivam»). Já vi, mesmo, escrito, um ‘credo’, explicitamente designado como tal, com os princípios wokistas, de resto cheio de redundâncias. Mas seria igualmente possível escrever um ‘credo’ populista ou neoliberal. De resto, basta ler os programas dos partidos ou falar com pessoas – algumas delas inteligentes, de resto – formatada – pelas novas ‘ideologias’.

O grande problema – que não é novo, data, pelo menos, do Renascimento – é que a Europa, agora o ‘Ocidente’, tem demasiados ‘sistemas operativos’ ao mesmo tempo. E se na minha juventude e início de idade adulta não impediam amizades, nem cooperação, nem, até certo ponto, relações amorosas, agora defrontam-se nas ruas das cidades, gerando mortos.

É que mens abhorret vaccum (a mente odeia o vazio), e por isso foi buscar as ‘ideologias’ (mesmo, ou sobretudo, sem as compreender) disponíveis, e interiorizou-as. Pena foi que sejam de tão má qualidade. Mas foi sempre assim: um argumento complexo não ‘colhe’. Quem, nas guerras da religião, sabia o que realmente distinguia protestantes e católicos? Quem, nas guerras liberais, sabia realmente o que estava em causa? Quem, dos republicanos, sabia realmente o que o republicanismo implicava?

A mente odeia o vazio, sim, mas o que escolhe para a preencher não interessa realmente. É a destruição do sonho iluminista de autodeterminação e não temos outro projeto. Pelo que se vê poderá ser o fim do Ocidente’.

Etólogo, Professor da U. Lisboa