O decimo mandamento (Êxodo 20:11) parece ser um ponto de partida apropriado para este ensaio, que aborda o desejo dos EUA de controlar tanto a Groenlândia quanto os Açores.
Em termos de área territorial, a comparação é como a de um rato com um elefante: os Açores medem 2.346 km² com uma população de 242.000 habitantes e a Gronelândia 2.160.000 km² com 57.000 habitantes, na sua maioria de ascendência inuíte. Ambos são considerados de importância estratégica para a NATO e são administrados por dois dos menores países da UE, Portugal e Dinamarca.
Foi em 1867 que o secretário de Estado americano, William H. Seward, negociou com sucesso a compra do Alasca por um preço irrisório, mas foi impedido de adquirir terras de tamanho semelhante no lado leste do Canadá. Daí em diante, a Groenlândia permaneceu sob domínio dinamarquês como colónia até abril de 1941, quando o embaixador dinamarquês no exílio assinou um tratado de defesa com o secretário Cordell Hull. Este tratado concedeu aos EUA exclusividade para a construção de diversas bases militares.
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA ofereceram-se para comprar toda a ilha por 100 milhões de dólares, pagáveis em barras de ouro, mas optaram por um novo e extenso acordo de segurança, após o qual foram construídas mais bases. A maior delas ficava no porto de Thule, onde bombardeiros B-52 eram mantidos em prontidão quase permanente para combate. Em 1968, um deles caiu perto da costa. Das quatro bombas nucleares que continha, uma nunca foi recuperada, apesar de os navios de guerra da Marinha dos EUA possuírem sofisticados sistemas de sonar projetados para localizar submarinos.
Apesar do fim da Guerra Fria e da dissolução da União Soviética, a força militar dos EUA na Groenlândia não diminuiu. No entanto, as bases agora são chamadas de Observatórios Espaciais e os bombardeiros foram substituídos por mísseis e um sofisticado sistema de defesa conhecido como Iron Dome. Por sua vez, a Rússia possui 300 mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) obsoletos. Destes, cerca de 100 estão localizados no norte da Rússia e, teoricamente, ainda são capazes de atingir a costa leste dos EUA, sobrevoando a ponta sul da Groenlândia.
Portanto, as alegações americanas de que deveriam anexar a Groenlândia por razões de segurança nacional não são infundadas. O que está em disputa é a cobiça do presidente Trump pela exclusividade na exploração da riqueza mineral que se acredita estar pronta para ser explorada agora que a calota polar está a recuar e que possui um enorme valor potencial, totalizando muitos bilhões de dólares.
Por coincidência, foi também em abril de 1941 que os EUA, numa reunião com os seus Aliados na Flórida, decidiram unilateralmente que necessitavam do controlo total dos Açores devido à sua localização estratégica no meio do Atlântico. Apesar da alegada neutralidade de Portugal, o regime de Salazar considerava-se livre para vender (com grande lucro) tungsténio e outros bens essenciais à guerra à Alemanha Nazi e para disponibilizar instalações nos seus portos para os seus submarinos.
O exército americano recebeu instruções para adaptar o Plano de Guerra Gray de forma a tomar as ilhas pela força, o que teria permitido a fortificação com bases navais e de aviação. Essa intervenção planeada quase foi colocada em prática como Operação Alacrity, mas a intensa atividade diplomática dos embaixadores de Churchill (em parte utilizando o antigo Tratado de Windsor) persuadiu Salazar a assinar um acordo que permitia a construção de tais bases sob controle conjunto britânico/americano, acordo esse que foi posteriormente estendido à NATO. Isso levou à criação da grande base das Lajes, comparável à de Thule, na Groenlândia.
A motivação do plano dos EUA para adquirir os Açores “por um meio ou outro” tem menos a ver com segurança militar. É a abundante existência de nódulos minerais na vasta zona económica atlântica dos Açores que representa um ativo valioso para os bilionários proprietários de empresas mineiras americanas. As perspetivas para este efeito foram analisadas no meu ensaio “Portugalidade - Uma Moratória à Mineração em Alto Mar” (SOL 06-04-2025).
Desde então, os EUA têm realizado extensas prospeções no fundo do mar Atlântico. No Oceano Pacífico, foram muito além, concedendo licenças a empresas mineiras americanas e canadianas para exploração em águas que estão exclusivamente sob a jurisdição da Autoridade Internacional do Mar (ISA), afiliada à ONU. Tal flagrante desrespeito demonstra como os EUA, com o seu comportamento desonesto, se tornaram uma lei em si mesmos e é um mau presságio para os Açores.
Conclusão:
A estratégia precoce do presidente Trump para se tornar o líder de uma nova Ordem Mundial depende, a curto prazo, da capacidade dos seus oligarcas de criar a arquitetura económica que beneficiará de todas as inovações surpreendentes esperadas da Inteligência Artificial. Fusões e aquisições implacáveis e mudanças de regime clandestinas devem alterar as alianças existentes e descartar tratados comerciais em favor de um sistema tarifário global que recompensará os seguidores e punirá os rebeldes.
Ele prevê para a UE e para a Grã-Bretanha uma decadência contínua e o afastamento precoce para as margens da economia mundial de países outrora poderosos, com histórias irrelevantes de pretensão imperial de que "a força faz o direito".
É isso que torna o acordo do Mercosul absurdo e impraticável, pois inclui nações que já foram persuadidas a transferir a sua lealdade para os EUA ou para os blocos chinês e russo. Outras seguirão o exemplo quando a trégua comercial entre a China e os EUA terminar em outubro de 2026.
Ensaio de Roberto Cavaleiro. Tomar 21 de janeiro de 2026