terça-feira, 18 ago. 2026

Resilientes a quê?

O problema começa quando deixamos de tratar a resiliência como uma virtude extraordinária e passamos a desenhar a sociedade como se todos a possuíssem.

Algumas palavras têm uma estranha tendência para melhorar a realidade sem a alterar. Tornam suportável, na linguagem, aquilo que continua insuportável na vida.

Resiliência é uma delas.

Hoje chamamos resiliente ao trabalhador que suporta horários impossíveis, à mãe que cria três filhos sozinha sem qualquer rede de apoios, ao jovem que salta de estágio em estágio até aos 30 anos, ou ao doente que espera meses por uma consulta sem perder a esperança.

É um elogio, mas talvez devesse ser um alarme.

Porque há uma pergunta que fazemos cada vez menos.

Resilientes a quê?

Durante muito tempo, a resiliência era convocada apenas pelo extraordinário: uma doença grave, uma guerra, uma semana debaixo de escombros após um sismo. Era uma capacidade rara, necessária quando a vida fugia violentamente ao guião.

Hoje é um requisito para sobreviver a uma terça-feira normal.

As ofertas de emprego procuram pessoas resilientes. Os manuais de liderança ensinam resiliência. Os psicólogos ajudam-nos a desenvolvê-la. É curioso, mas nunca vemos uma empresa anunciar que procura colaboradores tranquilos, emocionalmente estáveis e sem particular vocação para sobreviver ao caos. Procura resilientes.

Mas a pergunta incómoda persiste: resilientes a quê?

Quanto melhor funciona uma sociedade, menos precisa de pessoas extraordinariamente resilientes. Um bom sistema de saúde existe para que uma doença não obrigue ninguém a ser herói. Uma boa escola existe para que aprender não dependa de uma força de vontade sobre-humana. Um mercado de trabalho saudável existe para que trabalhar não seja um exercício diário de sobrevivência.

Quando tudo exige resiliência, talvez o problema já não esteja nas pessoas.

Este é o momento em que o leitor chega a uma objeção previsível e justa: «Então, mas agora é um problema elogiar quem supera dificuldades?».

Claro que não. A resiliência continua a ser uma das mais admiráveis qualidades do ser humano. O erro não está em elogiá-la. O problema começa quando deixamos de a tratar como uma virtude extraordinária e passamos a desenhar a sociedade como se todos a possuíssem.

Como se a resiliência devesse estar inscrita na Constituição. Não como um direito, mas como um dever.

A partir daí, o foco deixa de estar nas circunstâncias e passa a estar nas pessoas.

Todos ficam impressionados com quem continua de pé, mas quase ninguém pergunta quem lhe partiu as pernas.

Talvez por isso o culto da resiliência seja tão conveniente. Glorifica quem suporta o peso e torna invisível quem o colocou lá. Funciona como um analgésico moral - alivia a consciência coletiva sem tratar a causa da dor. Aplaudir exige muito menos esforço do que reformar instituições e é mais barato distribuir medalhas do que corrigir sistemas

Há algum tempo sugeriu-se que os portugueses se inspirassem em Cristiano Ronaldo. A comparação parecia motivacional, mas revelava mais do que parecia. Usar um ser excecional como medida do possível não é inspirador, é uma forma elegante de deslocar a responsabilidade. É uma inversão subtil, mas profunda. Quanto mais elogiamos a resiliência, menos urgência sentimos em eliminar aquilo que a torna necessária.

Quando uma sociedade começa a usar exceções como padrão para a vida normal, talvez tenha desistido de melhorar a normalidade. Em vez de construir instituições capazes de proteger pessoas comuns, pede às pessoas comuns que vivam como exceções.

O progresso não se mede pela quantidade de pessoas capazes de suportar o insuportável. Mede-se pelo número de heróis de que deixa de precisar. Porque quando o heroísmo deixa de ser raro, talvez já não seja uma virtude. Talvez seja apenas um sintoma.

Talvez continuemos a precisar de pessoas resilientes. Mas uma sociedade decente mede-se por outra coisa: pela quantidade de sofrimento que deixa de exigir resistência extraordinária.

Porque a pergunta nunca foi se somos resilientes.

A pergunta sempre foi: resilientes a quê?

Consultor da Inside Building e sócio da plataforma digital YourHero