Se o leitor tem mais de trinta anos, lembra-se certamente de uma espécie hoje extinta: a pessoa que esperava.
Podia ser vista nas paragens de autocarro, nos consultórios dos dentistas ou nas filas das finanças. Era alguém que não fazia absolutamente nada. Olhava para os sapatos, estudava as rachas das paredes ou observava o tique nervoso do senhor ao lado. Estava, no sentido mais puro da palavra, a murchar de tédio.
Hoje, essa espécie desapareceu. Foi substituída pela pessoa curvada, o pescoço num ângulo de quarenta e cinco graus, o polegar num scroll frenético e infinito, consumindo vídeos de dez segundos sobre cães que andam de skate ou receitas de bolos que nunca vai cozinhar.
Declarámos uma guerra ao tédio. Olhámos para aqueles minutos de vazio na paragem do autocarro como um desperdício de produtividade e uma falha no sistema que precisava de ser corrigida. E a tecnologia entregou-nos o bisturi perfeito: o smartphone.
O argumento não é contra os smartphones. Seria absurdo. Poucas tecnologias melhoraram tantas vidas de forma tão rápida. O argumento é contra a crença de que todos os vazios precisam de ser preenchidos.
Não há virtude especial em esperar numa repartição pública sem nada para fazer. Ninguém se tornou mais sábio por folhear uma revista de 2007 num consultório. O ponto é outro: no meio desses vazios, a mente tinha espaço para fazer algo que não sabíamos estar a fazer.
Eliminámos o tédio acreditando que ele era o problema. Não percebemos que ele era a solução.
O equívoco nasce cedo. Confundimos o tédio com aquilo que sentimos nos primeiros minutos: desconforto, impaciência e vazio. Mas o trabalho do tédio começava precisamente depois disso.
Newton não estava a ver notificações quando a maçã lhe caiu na cabeça; estava há meses isolado, a fugir da peste bubónica e a olhar para as árvores por falta de melhor ocupação. O tédio não era uma excentricidade de génio. Era o mecanismo.
Quando limpamos o horizonte de estímulos externos, acontece um fenómeno fascinante na nossa mente. O cérebro humano odeia o vácuo e se não lhe damos nada para consumir, ele entra em modo de autogestão e começa, finalmente, a produzir.
É este estado de aparente inatividade que processa as nossas experiências mais profundas, que limpa o pó às memórias antigas e que estabelece pontes improváveis entre ideias que pareciam não ter nada a ver. É a rede do ‘e se?’ ou do ‘talvez’. É o útero da originalidade.
Hoje, a nossa tolerância ao vazio é zero. Se o semáforo demora trinta segundos a passar a verde, sacamos do bolso a dopamina digital. Se o amigo se levanta para ir à casa de banho do restaurante, o ecrã ilumina-se antes mesmo de ele sair da mesa. O reflexo tornou-se muscular, quase pavloviano.
Eu próprio dei por mim, há dias, a pegar no telefone enquanto esperava que a torradeira terminasse a sua função. Trinta segundos. Não aguentei trinta segundos de vazio. E foi aí que percebi que o problema não era o telemóvel, mas sim a minha incapacidade de estar comigo mesmo durante o tempo que uma fatia de pão demora a aquecer.
A geração que está a crescer com calendários que envergonham qualquer CEO pode nunca ter tido a oportunidade de descobrir o que o tédio produz. Não por culpa deles, mas nossa, que lhes preenchemos todos os espaços antes de eles aprenderem a habitá-los. Crescem sem o músculo que o ócio treinava — a capacidade de estar sozinho com um pensamento incompleto, de o seguir sem saber para onde vai, de suportar a ausência de recompensa imediata.
Durante séculos, o tédio foi uma companhia inevitável. Não o escolhemos, suportámo-lo.
Hoje, conseguimos eliminá-lo quase por completo e talvez isso seja um progresso. Mas há progressos que resolvem um problema sem perceber que destroem uma ferramenta.
O tédio nunca foi apenas o intervalo entre momentos interessantes. Era o lugar onde aprendíamos a conversar connosco próprios. O problema é que, depois de o matar, ainda não encontrámos outra forma de ouvir o que tínhamos para nos dizer.