quarta-feira, 13 mai. 2026

Às duas da manhã

No último ano, entraram na União Europeia quase seis mil milhões de encomendas de baixo valor. É uma escala que a alfândega não consegue comportar, que a concorrência local não consegue aguentar e que o ambiente não consegue absorver.

A luz do telefone é a mais honesta de todas. Não há nela a intenção de iluminar: é apenas o brilho de uma janela aberta para um sítio onde tudo está disponível e nada pesa.

São duas da manhã e o resto da casa dorme. Ela compra um descascador de abacates por 0,99€. Não tem abacates em casa e não se lembra da última vez que comeu um. Mas o preço tem uma qualidade quase medicinal e o gesto - esse deslizar do polegar, o clique suave - resolve qualquer coisa que o dia deixou por resolver. Não sabe bem o quê, mas também não pergunta.

A encomenda chega em 48 horas e fica numa gaveta.

A dois quilómetros dali, num apartamento mais pequeno, ele também está acordado. Três filhos. O mais novo ainda não dorme a noite toda. A conta do supermercado desta semana foi o que foi e ainda falta o final do mês. Ele também compra. Uma camisola para a mais velha por 4,50€, tamanho 8 anos, entrega gratuita.

Não é impulso. É o que cabe.

O gesto é o mesmo, o telefone é o mesmo, a luz é a mesma. Não se conhecem.

No último ano, entraram na União Europeia quase seis mil milhões de encomendas de baixo valor. É uma escala que a alfândega não consegue comportar, que a concorrência local não consegue aguentar e que o ambiente não consegue absorver. Uma avalanche que levou Bruxelas a decidir que, a partir de julho, haverá uma taxa de 3€ em encomendas abaixo de 150€ vindas de fora da União Europeia dos 27 Estados-membros.

Três euros são quase nada. Três euros são quase tudo, dependendo do quarto onde se está às duas da manhã.

Não sei bem o que procuro quando compro assim, a essa hora. Já tentei perceber e a resposta mais honesta que encontrei é que não procuro o objeto, mas sim o momento depois do clique, quando a decisão já foi tomada e ainda não há consequências. Um intervalo pequenino entre o desejo e o mundo. Quarenta e oito48 horas depois, o mundo volta. Traz uma caixa de cartão e o ‘porquê’ que o clique adiou. Geralmente não abro logo. Deixo ficar.

A taxa vai mudar alguma coisa, mas não sei o quê. Talvez o dedo hesite meio segundo antes de comprar, ou talvez não. Talvez ela pense duas vezes no descascador de abacates, até porque ainda não usou o de pitaias que comprou no mês passado. Talvez ele deixe de conseguir vestir a filha por 4,50€ e não haja segunda opção.

As medidas justas têm sempre este problema: atingem o mesmo gesto com pesos diferentes, sobretudo quando a necessidade e o vício se confundem no mesmo impulso.

Há qualquer coisa nesta história que não é sobre consumo. É sobre o que fazemos quando a casa dorme e ficamos acordados com uma luz pequena na mão, à procura de qualquer coisa que chegue depressa, caiba numa caixa e não faça perguntas.

Não sei como se taxa isso, nem sei se se deve. Sei que às duas da manhã, quando a confirmação aparece no ecrã – ‘o seu pedido foi recebido’ – há um segundo de qualquer coisa que se parece com alívio. E que de manhã, quando a luz muda, esse segundo parece muito longe.

Algures, uma gaveta não fecha bem.