Numa conversa de jantar alguém faz uma pausa, coloca o copo na mesa com cuidado excessivo, e diz: «Eu tenho estudado muito este assunto». O que se segue raramente justifica o preâmbulo. Mas a convicção é absoluta. E a convicção é contagiosa, independentemente do que a alimenta.
Durante séculos, o grande pesadelo das democracias foi a ignorância. A solução parecia simples: educação e informação. Acreditámos que cidadãos mais informados construiriam sociedades mais racionais. Era uma fé com a beleza das ideias que nunca foram testadas em escala. Depois chegou a internet. E testou.
O que aconteceu a seguir não foi o que esperávamos. A informação não produziu conhecimento generalizado. Produziu algo mais insidioso: a sensação de conhecimento. E há uma diferença tão profunda entre as duas coisas que talvez esta seja a fissura central do nosso tempo.
Conhecer é um processo lento e desconfortável, que obriga a um gesto ao qual tendemos a resistir: admitir que não sabemos. Já a sensação de conhecer é instantânea. Basta um algoritmo que nos devolve, continuamente, versões da mesma convicção, cada repetição a sentir-se como confirmação e a aprofundar a certeza, cada certeza a tornar a dúvida não apenas desnecessária mas suspeita.
O mecanismo psicológico que nos governa tem um nome: raciocínio motivado. A conclusão chega primeiro, por impulso ou medo. A argumentação vem depois, convocada para proteger a verdade. Não somos advogados da razão. Somos advogados de nós próprios, a fingir que seguimos a razão.
O que a inteligência acrescenta a este processo não é correção, mas sofisticação. O adepto político exaltado e o professor universitário que lhe responde com desdém, podem estar a fazer exatamente o mesmo exercício mental. A diferença é que um faz isso com maiúsculas e o outro com notas bibliográficas de rodapé.
Antes da internet existiam filtros. Jornais, editores, universidades e outras estruturas de poder que decidiam quais as vozes que mereciam existir no espaço público. Esses filtros criavam distância entre o impulso e a amplificação. Entre o pensamento em bruto e a sua circulação.
A internet destruiu as duas coisas com o mesmo golpe. Demoliu barreiras injustas e mecanismos de contenção. Libertou vozes silenciadas e impulsos que tinham razões para estar contidos. Mas não havia forma de fazer uma coisa sem a outra e esse é o verdadeiro problema: abrir completamente uma janela não permite escolher o que entra.
Antes, ‘o cidadão médio’ era uma abstração confortável que existia nas sondagens, nos discursos eleitorais ou nas teorias políticas. Hoje, entra-nos pelo telemóvel dezenas de vezes ao dia, com nome e fotografia, a comentar epidemiologia com a mesma autoridade com que comenta futebol e a ter certezas sobre o que os cientistas têm dúvidas.
A conclusão não é que a democracia falhou. A democracia nunca prometeu selecionar os mais sábios, prometeu algo mais prudente e honesto: impedir que alguém decidisse sozinho quem são os sábios. Essa promessa ainda vale e continua a ser a menos má das alternativas.
A conclusão desconfortável é outra. Acreditámos, durante um século inteiro, que o antídoto para a ignorância era a informação. Construímos bibliotecas, universidades, jornais, e a maior estrutura de distribuição de informação que a humanidade alguma vez produziu. E descobrimos que informação sem o hábito da dúvida não produz conhecimento. Produz pessoas cada vez mais certas, cada vez mais rápidas, cada vez menos capazes de conviver com uma ideia o tempo suficiente para perceber se ela resiste.
O problema nunca foi não saber. O problema é estar absolutamente convicto de que se sabe e ter, pela primeira vez na história, tecnologia suficiente para nunca precisar de descobrir que não.