Há uma hierarquia no caos. O mundo, como um gigantesco reality show da desgraça, tem as suas tragédia da moda, que monopolizam as luzes da ribalta e a nossa limitada capacidade de indignação. Enquanto isso, longe das câmaras e dos editoriais inflamados, decorre um festival permanente de conflitos ‘marca branca’, não tidos como ideologicamente nítidos ou geopoliticamente úteis para os nossos debates de café. São as guerras esquecidas. Não por serem pequenas, mas por serem persistentes. E a tragédia, quando dura demasiado tempo, perde a capacidade de chocar e torna-se ‘contexto’, que é a forma educada de dizer que já não cabe no nosso algoritmo.
Enquanto um grande conflito – com o seu cortejo de especialistas de gravata, mapas interativos e a espantosa clareza entre ‘os bons’ e ‘os maus’ – ocupa ecrãs e mentes, uma série de outros incêndios arde em lume brando. Ardem no Sudão, onde a OMS contabiliza 13,6 milhões de pessoas deslocadas (a maior crise de deslocação mundial) e 33,7 milhões a precisar de assistência humanitária, sendo metade crianças. Ardem na República Democrática do Congo, onde a luta por minerais raros, que alimentam os nossos telemóveis, tem um custo humano que parece uma estatística abstrata. Ardem no Iémen, na Nigéria, no Sahel ou na Etiópia. E todos estes são nomes que, nos noticiários, disputam o mediatismo com as previsões meteorológicas: «E agora, com a Sandra, o estado do tempo e um breve apontamento sobre mais um massacre em… (consulta o papel)… Myanmar. Depois da publicidade».
Porque é que estas guerras não ‘viralizam’? Provavelmente por falta de ‘glamour’. Não têm um Putin fotogénico a cavalo, nem tanques em fila perfeita para a CNN. Têm milícias com nomes impronunciáveis, alianças cambiantes que confundem o analista ocidental mais preparado, e motivações que não cabem num tweet para partilhar. São conflitos alimentados por uma mistura tóxica de colonialismo mal resolvido, recursos naturais cobiçados, fronteiras absurdas traçadas a régua em gabinetes europeus, e lutas de poder locais que nos parecem exóticas e distantes. A sua matéria-prima não é a grande ideologia, mas o ouro, o cobalto, o petróleo, ou o ódio étnico adiado. São, na sua essência, guerras por coisas. Coisas que, muitas vezes, acabam nos nossos bolsos ou nos nossos carros, tornando-nos, sem o sabermos, acionistas minoritários do horror.
O nosso mecanismo de defesa é a fadiga. A compaixão, suspeito, tem um limite. E nós gastamo-lo todo nas catástrofes em alta-definição, nas que nos permitem tomar partido, com a segurança moral de quem escolhe uma equipa de futebol. As outras, as esquecidas, geram um incómodo diferente, o da cumplicidade difusa, da impotência geográfica, ou do tédio perante a complexidade. É mais fácil mudar de canal.
Mas estas guerras são, também, convenientemente invisíveis porque a sua visibilidade complicaria tudo. Perturbaria as cadeias de abastecimento imaculadas, questionaria as alianças estratégicas com regimes convenientemente monstruosos, e obrigar-nos-ia a confrontar o preço real do nosso conforto. A indiferença é, muitas vezes, uma política não declarada.
Qual é, então, a mensagem, para lá do diagnóstico amargo? É um apelo ao jornalismo incómodo, que resista ao fascínio do foco único. Falar das guerras esquecidas é um ato de justiça narrativa. Porque, no grande espetáculo do mundo, as cenas mais trágicas são, muitas vezes, as que se desenrolam na penumbra, sem aplausos nem vaias. Cabe-nos, no mínimo, acender uma luz. Mesmo que seja uma pequena lanterna no telemóvel. E iluminar.
Consultor da Inside Building e Sócio da plataforma de serviços domésticos YourHero