quinta-feira, 14 mai. 2026

A Europa dos 27 mercados

Em 2024, Mario Draghi apresentou um dos diagnósticos mais claros sobre a economia europeia das últimas décadas. O relatório confirma o que muitas empresas já sabem: crescer dentro da Europa implica enfrentar obstáculos em quase todas as etapas.

Tenho passado os últimos anos a tentar construir uma empresa europeia. O que construí, na prática, foram quatro empresas nacionais com o mesmo nome.

A YourHero começou na Grécia e rapidamente cresceu para o Chipre, expandiu para Portugal e, logo depois, chegou à Irlanda. O que no papel parecia uma operação europeia a ganhar escala, era, na realidade, uma sequência de recomeços, já que cada país tem as suas regras, regimes fiscais e enquadramentos legais. Cada fronteira que cruzávamos não era uma expansão, mas uma fundação.

Lembro-me de estar sentado com um advogado local a ouvir explicar, pela terceira vez em três países diferentes, porque é que aquilo que funcionava antes não podia funcionar ali. Não por razões de negócio, mas de regulação.

Em Bruxelas, chama-se a isto ‘mercado único’. E é um nome bem escolhido: são 450 milhões de consumidores, o maior bloco económico do mundo ocidental e 30 anos de integração. Ainda assim, cada vez que uma empresa atravessa uma fronteira, descobre que o mercado único existe, sobretudo, em PowerPoints e discursos inaugurais.

Nos Estados Unidos, uma startup que começa no Texas pode operar na Califórnia ou em Nova Iorque sem recriar a empresa de raiz. Na Europa, cada país é simultaneamente uma oportunidade e uma barreira. O resultado é que as empresas europeias não são pequenas por falta de ambição, mas porque o sistema as obriga.

A Europa sabe integrar quando quer - eliminou as tarifas de roaming, reconhece certificados profissionais entre países, criou o passaporte bancário. O que ainda não conseguiu foi aplicar a mesma lógica às coisas que realmente importam para quem tenta construir uma empresa.

Não é apenas a minha experiência que o diz. Em 2024, Mario Draghi apresentou um dos diagnósticos mais claros sobre a economia europeia das últimas décadas. O relatório confirma o que muitas empresas já sabem: crescer dentro da Europa implica enfrentar obstáculos em quase todas as etapas. O FMI estima que as barreiras internas no mercado único equivalem a uma tarifa de 45% sobre bens e 110% sobre serviços. As maiores barreiras à competitividade europeia não estão nas fronteiras com a China ou os Estados Unidos. Estão entre Paris e Berlim, ou Lisboa e Dublin.

E, no entanto, a resposta mais confortável para este problema é outra: permitir mais fusões, criar ‘campeões europeus’, relaxar as regras de concorrência para ganhar escala. É a política de fazer uma fotografia de capa e chamar-lhe estratégia.

Resolver o problema na raiz exige decisões politicamente difíceis.

Harmonizar regras entre países que relutam em ceder soberania. Eliminar os protecionismos encapotados. Aceitar que um mercado verdadeiramente integrado implica perda real de controlo local. Estes são os passos que nenhum governo quer dar porque os custos são imediatos e visíveis. Já os benefícios são difusos e demorados.

O que ainda funciona na economia europeia - pressão competitiva, diversidade empresarial, inovação descentralizada - são precisamente os ativos que a concentração administrativa tende a corroer mais rapidamente. E, uma vez perdidos, não se reconstroem através de um qualquer relatório, por mais brilhante que seja o seu autor.

O problema da Europa nunca foi o diagnóstico. É a coragem de agir sobre ele.

Ainda hoje, quando alguém me pergunta em que mercado opera a YourHero, hesito antes de responder. Devia dizer: o europeu. Seria a resposta mais ambiciosa. Mas não seria a mais verdadeira.