Pode uma má campanha dar-nos um bom Presidente?

Do que o país não precisa é de ter mais 10 anos na Presidência um Presidente a pregar aos peixes e a banalizar a sua palavra.

Esta foi uma má campanha. Arrastou-se durante demasiado tempo, o debate político foi fraco, falou-se mais da governação do que dos poderes presidenciais, houve muita lama, muita campanha suja e, na generalidade dos casos, os protagonistas também não ajudaram. É o que é. Se Bismarck dizia que a política é a arte do possível, estas eleições confirmam, sobretudo, a teoria de Churchill, de que a democracia consegue mesmo ser o pior dos regimes, à excepção de todos os outros.

À primeira ou à segunda volta, os eleitores vão ter de escolher um dos candidatos para Presidente da República. Podem fazer essa escolha pela ideologia, pela percepção que têm de cada um ou até por exclusão de partes. Mas têm de escolher ou deixar que outros escolham por eles. Não sei se o país teve nestas eleições os candidatos que merece, mas sei que os melhores do país estão cada vez mais longe da política, e esta campanha só contribuiu para se afastarem ainda mais.

O que está em cima da mesa é ‘só’ o mais alto cargo da Nação. A Presidência da República, parecendo muitas vezes um órgão esvaziado de poder, é, na verdade, muito relevante num regime que, constitucionalmente, se define como semi-presidencialista e que se quer de equilíbrios, com freios e contra-freios. O Presidente não governa, é verdade, mas responde por essa governação, na medida em que tem poder para a influenciar.

É por isso que, se há cargo que depende muito do perfil de quem o ocupa, é a Presidência da República. Não será indiferente o seu posicionamento ideológico, mas é muito mais relevante a sua personalidade, o seu sentido de Estado, o seu conhecimento das instituições, a perspicácia política, o bom uso da palavra e, sobretudo, do bom senso. Essa faculdade que parece cada vez mais escassa na política.

Historicamente, já tivemos de tudo. Presidentes muito reservados e mais expansivos. Os que quiseram governar a partir de Belém e os que entendiam o cargo como uma espécie de oposição ao Governo. Todos sofreram o desgaste do segundo mandato e, por isso, todos saíram pior do que entraram. Mas todos, à sua maneira, foram um fator de segurança para o regime democrático.

É essa, na minha opinião, a grande escolha nestas eleições presidenciais. A escolha de um Presidente que tenha como prioridade a preservação da democracia e o combate a todas as formas de populismo. Venha ele de onde vier.

Defender a democracia implica colocar em primeiro plano as prioridades e os desafios que o país enfrenta. Um Presidente que tenha opiniões, mas que saiba ser um fator de consenso e não de desestabilização. Que tenha autoridade, sem cair na tentação de ser autoritário. Que compreenda que a sua maior obra política não está em deixar obra, mas em criar condições para que essa obra nasça. Que perceba que a palavra é a sua maior arma, e que, quando mal utilizada, se torna apenas pólvora seca, irrelevante.

A democracia não se defende apenas fazendo lindos discursos nas cerimónias do 25 de Abril ou nas aberturas dos anos judiciais. Sim, o país precisa de reformas e, talvez, algumas delas exijam pactos de regime para poderem ser duradouras. Do que o país não precisa é de ter mais 10 anos na Presidência um Presidente a pregar aos peixes e a banalizar a sua palavra.

Lamentavelmente, a campanha eleitoral teve muito pouco deste debate. Foi pobre. Muito pobre. Entre os que tentaram andar entre os pingos da chuva, com discursos redondos, para não afugentar eleitorado, aqueles para quem todos os meios justificam os fins e os que usaram estas presidenciais apenas como forma de afirmação política, sobrou muito pouco para ajudar os eleitores a decidir. Esperemos que o próximo Presidente da República seja, pelo menos, melhor do que a campanha que o elegeu.