Porquê ter medo da morte se há flores nos cemitérios

Aos músicos, à vida. Ao Carlos Gonçalves Pereira, Ultravioleta, na banda que antecedeu os Heróis do Mar, quarenta anos de amizade e a última palavra dele a pairar acima do caixão: brutal.

O nome do homem de quem vou falar não dirá nada à maior parte das pessoas. Não saiu na televisão, não posou em capas de revistas, raramente foi convidado a comentar coisa nenhuma. Influenciou, ainda assim, mais músicos portugueses do que muitos imaginam, e meio panorama indie dos últimos trinta anos sabe-o, mesmo que o grande público nunca o tenha sabido. Chamava-se Carlos Gonçalves Pereira. Foi meu amigo durante quarenta anos. Foi encontrado morto na semana passada, em casa, em Santa Luzia, Odemira, com setenta e um anos. No seu funeral bateram-se palmas. Cantou-se. Houve gente a sair da capela como quem sai de um concerto com casa cheia.

Ele dizia brutal a tudo. A palavra, na sua boca, perdia a violência e ganhava qualquer coisa de oração, com aquele entusiasmo natural e intacto de um homem que viveu, atravessou e sobreviveu a quase tudo o que valia a pena atravessar.

Há figuras que entram numa década pela porta certa. Carlos entrou em 1979, numa Lisboa ainda meio aturdida do pós‑revolução, o punk inglês a desembarcar com dois anos de atraso, a juventude à procura de palavras novas para um país velho. Foi escolhido vocalista dos Corpo Diplomático, numas audições por onde também passou um cabeleireiro de Amares chamado António Variações. O Carlos passou. O Variações chumbou e, como era na altura mais conhecido pelo ofício do que pela voz, os rapazes da banda aproveitaram a presença dele e pediram‑lhe que lhes cortasse o cabelo. A história é absurda, é portuguesa e é verdadeira. Foi o próprio Pedro Ayres Magalhães quem a contou. Cinco anos depois, em 1984, esses mesmos rapazes seriam a banda de apoio do Variações em Dar e Receber, gravado já a meses da morte dele. Pode haver acasos mais bonitos. Não muitos, confesso.

Os Corpo Diplomático foram a primeira banda new wave portuguesa e tinham a inteligência rara de saberem isso sem precisarem de o anunciar. Saídos das cinzas dos Faíscas, todos adoptaram pseudónimos como quem veste fatos de combate: Falso Alarme, Dedos Aires, Choque Eléctrico, Flash Gordon. Ele era Ultra Violeta, programa estético e auto‑retrato ao mesmo tempo. Queimava sem aviso e desenhava‑se contra o cinzento que ainda pairava sobre o país. Música Moderna, gravado nesse mesmo ano, vendeu metade das mil cópias prensadas e hoje vale duzentos e cinquenta euros no circuito dos coleccionadores, porque foi exactamente isso, um objecto que apenas o tempo conseguiu compreender. Cantava‑se sobre televisões, neuroses eléctricas, amores de guichet, espantalhos automáticos. E perguntava‑se em voz alta, com a

impertinência educada de quem ainda não tinha aprendido a ter medo: quem quer comprar um Ferrari?

Em 1980 a banda dissolveu‑se. Três dos seus companheiros, Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves e Carlos Maria Trindade, foram fundar os Heróis do Mar, fizeram capa polémica com cruz de Cristo e entraram em pouco tempo no panteão da nossa pop. O Carlos não. O Carlos seguiu por baixo: os Casino Twist, em 84, no primeiro disco colectivo do Rock Rendez‑Vous, mais tarde os Raindogs e depois os Offshores. Quando os Casino Twist se desfizeram, tentou ainda reconstruí‑los na Holanda, com músicos novos e gente que não percebia patavina do que ele cantava, gesto típico de quem prefere começar de novo em vez de transigir. Sucesso comercial não teve. Os obituários chamam‑lhe percurso livre e sem concessões, fórmula que costuma servir para vidas com pouca conta bancária e muito orgulho, e que neste caso se aplica com inteira precisão. Há quem opte pela glória e há quem opte pela linha curva. As duas opções são respeitáveis, mas só uma envelhece sem suavizantes.

Quarenta anos de amizade são uma medida estranha. É tempo suficiente para se acumularem cumplicidades que ninguém mais pode partilhar, porque mais ninguém esteve lá. Quem perde um amigo de quarenta anos perde, ao mesmo tempo, uma testemunha. E os homens, sem testemunhas, ficam mais expostos.

Mas eis a pergunta que me persegue desde quinta‑feira passada: porquê ter medo da morte se há flores nos cemitérios? A morte é destino certo, sabemo‑lo desde os primeiros gregos. Epicuro tentou consolar‑nos com uma esperteza lógica, “quando ela é nós já não somos”. Não convenceu ninguém e, ainda assim, continuamos a recear o que nem teremos consciência de viver. Talvez porque o medo não seja propriamente da morte, mas da ausência, da nossa, sobretudo, no panorama alheio.

E é aí que os músicos jogam com o baralho viciado. Não morrem do mesmo modo que outros profissionais do burgo. Os músicos deixam atrás de si uma matéria física que continua a vibrar com os seus discos, gravações e o eco involuntário num carro qualquer, onde um desconhecido cantarola uma melodia que já não sabe a quem pertenceu. O Carlos vai estar nos altifalantes de alguém na próxima sexta‑feira, à hora do trânsito, e nenhum desses ouvintes saberá que está a partilhar o caminho com um homem que já não se encontra entre nós fisicamente. É uma forma de sobrevida que os Faraós invejariam, porque não exige pirâmide, nem ouro, nem escravos, apenas três minutos e uma guitarra bem afinada. E a guitarra bem afinada era algo que o Carlos não dispensava.

Os romanos punham nas tumbas a fórmula sit tibi terra levis, que a terra te seja leve. Era uma doce ternura disfarçada de protocolo. Hoje pomos flores. As flores não pesam, não duram, não exigem manutenção eterna, murcham com elegância em poucos dias e voltam a ser postas por outras mãos. É a única coisa nos cemitérios que continua a fazer o que se espera dos vivos: abrir, perfumar, esmorecer, recomeçar. Quem teme a morte

devia talvez visitar mais cemitérios em Maio. Há ali uma alegria miúda e indiferente que nos põe no nosso lugar.

Diz‑se que a morte é apenas a curva da estrada. Não é o fim. É a curva e, do outro lado, presumivelmente, continua a haver paisagem, continua a haver Alentejo, continua a haver gente a cantar em Santa Luzia ao fim da tarde. O Carlos morreu em Odemira, naquele recanto onde o calor tem peso e o silêncio tem espessura de matéria. Os músicos verdadeiros raramente se despedem. Saem do palco a meio de uma frase, deixando a banda a tocar.

No funeral, alguém começou um aplauso. Outro pegou. Depois cantou‑se. Há funerais em que as pessoas têm vergonha de existir. O dele não foi assim. Foi o que ele foi a vida toda: música a chegar antes do silêncio.

Brutal.